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“A Lei da Mente” e a relação com novos espaços, modalidades visuais e espaços de vivência

Resumo/ Abstract

Imagem: Eduardo Ferreira

Maria Ogécia Drigo

Resumo

No artigo “A Lei da Mente” (1892), Charles S. Peirce concluiu que as ideias tendem a se difundir continuamente e a afetar outras que com elas estabelecem uma peculiar relação de afetibilidade. Após uma reflexão sobre tais ideias e uma tentativa de vinculá-las às recentes descobertas da neurociência, notadamente as de Damásio no que se refere ao papel das emoções e dos sentimentos na razão, apresentamos aspectos de novos espaços, de novas modalidades visuais, bem como espaços de vivências que se delineiam ou podem emergir considerando-se as ideias peirceanas. Para tanto, valemo-nos também de representações visuais para anunciar os aspectos mencionados, e que trazem a questão da continuidade e da fragmentação. A relevância desse artigo está no fato de questionar a problemática que se estabelece ao caracterizarmos a continuidade como orientadora do pensamento da modernidade, e a fragmentação, do contemporâneo.

Palavras-chave: “A Lei da Mente”; continuidade; fragmentação

Abstract

In “The Law of Mind” (1892), Charles S. Peirce concluded that ideas tend to spread continuously and to affect others with which they establish a special relationship of affection. After a discussion on such ideas and in attempt to link them to the recente findings in neuroscience, particularly those of Damásio regarding the role of emotions and feelings in reason, we present aspects of new spaces, new visual modalities as well as spaces for experiences or livingness spaces that comes to sight as consequence of Peirce’s ideas. To this end, we make use also of visual representations to announce the aspects mentioned and that bring up the question of continuity and of fragmentation. The questioning about the continuity while a guideline of thought of modernity and the fragmentation in the contemporary constitutes the relevance of this paper.

Keywords: “The Law of Mind”, continuity, fragmentation

Artigo

O artigo apresenta resultados da pesquisa intitulada “Imagem e pensamento em cena”, em desenvolvimento com apoio da FAPESP/SP.

1. Introdução

Para refletir sobre os processos de semiose que delineiam novos espaços, novas modalidade visuais, bem como novos espaços de vivência tomamos como elemento orientador “A Lei da Mente”, publicado em 1892, por Charles Sanders Peirce. Iniciamos as reflexões apresentando alguns aspectos dessa lei e enfatizando o modo como se dá a construção de um tecido qualitativo para que a semiose, ação dos signos na mente humana, especificamente, se desencadeie. Em seguida, apresentamos os três tipos de raciocínio: abdução, dedução e indução, e mostramos que a analogia – operação lógica necessária para a constituição do tecido qualitativo mencionado – ocorre via indução e abdução. Após essa reflexão e uma tentativa de vinculá-las às recentes descobertas da neurociência, notadamente as de Damásio, no que se refere ao papel das emoções e dos sentimentos na razão, valemo-nos de uma foto jornalística de Obama, uma peça publicitária impressa e de uma obra de Renzo Piano que trazem à tona a questão da continuidade e da fragmentação. Concluímos com discussões sobre a problemática dessa relação – continuidade/fragmentação – e sobre os modelos matemáticos que parecem vir à tona com experiências de interpretação, tais como as que envolvem as representações visuais e o cenário apresentados. Disso decorre que o modelo matemático pertinente para a continuidade proposta por Peirce, caso ela seja mesmo imprescindível para a compreensão dos processos cognitivos, pode ser tomado da geometria da natureza ou da geometria dos fractals.

2. A lei da mente

No artigo “A Lei da Mente”, publicado em 1892, Peirce explica que ao analisar de forma lógica os fenômenos mentais obtém a seguinte lei:

as ideias tendem a difundir-se continuamente e a afetar certas outras que se encontram em relação a elas numa peculiar relação de afetibilidade. Nessa difusão elas perdem intensidade, e especialmente o poder de afetar outras, mas adquirem generalidade e ficam fundidas com outras ideias (1998: 244).

Peirce menciona que não podemos rejeitar que as ideias parecem se reproduzir, passar de uma mente para outra. Parecem também ser similares ou dissimilares e vêm como coisas substanciais e com vida. A ideia, segundo Peirce, é um acontecimento numa consciência individual – nada que nos impossibilite de dizer que se trata de signo em ação –, por isso, “assim que uma ideia é passado, ela deixou para sempre de estar presente, qualquer sua suposta recorrência sendo, na realidade, uma outra ideia. Essas duas não se encontram presentes no mesmo estado de consciência, pelo que não é possível compará-las” (1998: 244).

Como pode então haver similaridade entre ideias? Dizer que ideias são similares, segundo o mesmo autor, significa que há “um poder oculto nas profundezas da alma”, atuando quando elas não estão presentes e que permite conectá-las no pensamento. Além dos princípios de associação: a contiguidade e a similaridade, conexão devida a um poder externo e interno, respectivamente, a ideia passada deve, de algum modo, se fazer presente. Para se conectar, as ideias devem estar presentes, num dado momento, juntas. Argumenta ainda Peirce que a ideia passada não pode se fazer presente ou estar presente por meio de um substituto, mas apenas por percepção direta.

Por outras palavras, para se encontrar presente ela deve ipso facto encontrar-se presente. Isto é, ela não deve encontrar-se completamente passada, menos passada que qualquer data passada assinalável. Somos assim levados a concluir que o presente está conectado com o passado através de uma série real de passos infinitesimais (PEIRCE, 1998: 245).

Mas como a ideia incorpora essa possibilidade? O que lhe seria intrínseco e que lhe permitiria se fazer presente? Peirce trata então da afeção de ideias, ou seja, explica o que significa dizer que uma afeta outra. Há três elementos que compõem uma ideia. “O primeiro é sua qualidade intrínseca de sentimento. O segundo é a energia com a qual ele afeta outras ideias, uma energia que é infinita no aqui e agora da sensação e finita no passado recente. O terceiro elemento é a tendência de uma ideia trazer outras ideias consigo” (1998: 258).

Há nos fenômenos – que podem ser o signo em ação, um pensamento, uma ideia – certa qualidade de sentimento, ou seja, “mera qualidade, ou talidade, não é em si mesma uma ocorrência, como o é ver um objeto vermelho; ela é um mero pode ser” (CP 1.304), “tais como a cor da magenta, o odor de uma rosa, o som do silvo de um trem, o sabor do quinino, a qualidade da emoção ao se contemplar uma bela demonstração matemática, a qualidade de sentimento do amor etc.” (CP 1. 304).

Dizer que uma qualidade de sentimento está presente significa dizer que há uma quantidade não enumerável de outras qualidades, diferindo desta por infinitesimais, que tendem a se atualizar. “Devido à ausência de limites, sente-se diretamente a possibilidade vaga de algo mais do que aquilo que se encontra imediatamente presente”, o que impregna a ideia de energia, de poder de afetar outras. A qualidade de sentimento estabelece, portanto, um campo contínuo de qualidade, que permite que uma ideia caminhe, se conecte à outra.

E quanto ao terceiro elemento – a tendência de uma ideia trazer outras – Peirce explica que a ideia tem uma força que é tanto menor quanto mais passada em relação ao presente e que cresce ao infinito, à medida que se aproxima do presente. Esse movimento pode ser vislumbrado no gráfico abaixo (Figura 1), em pontos que se aproximam de A, ou seja, para pontos cuja distância de A é da ordem de infinitésimos. Quando um sentimento emerge na consciência, ele vem como uma modificação de algo mais geral já presente na mente, assim, são ideias gerais que governam a conexão e estas são sentimentos vivos difundidos.

Se, de um lado, a conexão de ideias é possível graças à ideia geral ou à qualidade de sentimento que traz nela mesma; de outro, uma quantidade não enumerável de qualidades de sentimento contidos num intervalo finito de tempo pode se fundir numa associação que tem como resultado uma ideia geral. As qualidades de sentimento e as ideias gerais estão intimamente vinculadas, portanto.

Figura 1 (PEIRCE,1998: 259)

Figura 1 (PEIRCE,1998: 259)

A lei da mente segue as formas da lógica, três classes de inferência lógica: a dedução, a indução e a abdução.

Na dedução, a mente está sob o domínio de um hábito ou associação em virtude do qual uma ideia geral sugere em cada caso uma reação correspondente. Mas suponhamos ser o caso que uma certa sensação envolve essa ideia. Logo, essa sensação é seguida por essa reação. É segundo essa forma que raciocinam, se separados do resto do corpo e quando pressionados, os membros posteriores de um sapo. Trata-se da mais baixa forma de manifestação psíquica (PEIRCE, 1998: 260).

Com a indução, segundo Peirce, vem o hábito. E como se constitui um hábito? Peirce explica que “certas sensações, todas envolvendo uma ideia geral, são seguidas por uma mesma reação; forma-se então uma associação pela qual a reação se segue uniformemente à ideia geral” (1998: 260-1). O hábito é, portanto, “essa especialização da mente pela qual a ideia geral adquire o poder de excitar reações” (1998: 61).

Peirce adverte que, para a ideia geral atingir toda sua funcionalidade, ela precisa ser sugerida não só por reações, mas também por sensações. Para o hábito se formar, de certo modo, ele precisa de uma extensão mais objetiva que a vinculada à reação, a advinda com outro tipo de ação mental, a inferência hipotética, que se faz com qualidades.

Vamos recorrer a um exemplo dado por Peirce. Ele menciona uma série de características que permite identificarmos um homem como um magnata. Explica que se ocasionalmente encontrarmos um homem e em meio a uma conversa percebermos que é dotado de algumas das características entre as que fazem de alguém um magnata, então, naturalmente supomos que esse homem é um magnata. Tal modo de ação mental é denominado inferência hipotética.

Retomando as três inferências, Peirce conclui que:

por indução, um número de sensações seguidas por uma reação fica unido sob uma ideia geral seguida por essa mesma reação; enquanto, pelo processo hipotético, um número de reações ocasionadas por uma ocasião fica unido numa ideia geral que é ocasionada pela mesma ocasião. Por dedução, o hábito realiza sua função ao ocasionar certas reações em certas ocasiões (1998: 262).

Com a indução, então, novas sensações se incorporam à ideia geral, ou seja, a ideia geral ganha potencialidade; com a inferência hipotética o potencial da mente para “adivinhar”, por meio de qualidades, se intensifica, ou seja, a mente joga com possibilidades, e com a dedução a mente ganha destreza, mecanicidade. Desse modo, as qualidades de sentimento e as atualizações dessas são imprescindíveis para a mente. Peirce (1998: 263) menciona que por meio das ideias gerais, ou continua de sentimento, a semelhança, a sugestão e o poder de referência ao externo se intensificam.

Mas como poderia a mente evoluir se ela tende a adquirir hábitos e depois operar dedutivamente? Peirce menciona que a incerteza da ação mental é mesmo a essência da mente e o que permite o seu crescimento. Nas suas palavras:

Qualquer que seja a forma como a mente reagiu a uma sensação dada, é provável que ela volte a reagir segundo a mesma forma; contudo, se existisse aqui uma necessidade absoluta, os hábitos tornariam-se rígidos e inquebráveis, pelo que, não havendo lugar para a formação de novos hábitos, a vida intelectual rapidamente seria levada à extinção. (…) A verdade é que a mente não se encontra sujeita à “lei” no mesmo sentido rígido em que a matéria o está. Ela experimenta forças suaves que apenas torna mais provável que ela aja de uma certa forma. Permanece sempre alguma espontaneidade na sua ação, sem a qual ela estaria morta (1998: 262).

Por fim, ao buscarmos as ideias de Damásio, tentamos aproximar descobertas recentes da neurociência à construção teórico-experimental de Peirce sobre a relação entre cognição e qualidades de sentimento, uma vez que as suas constatações se davam em meio aos conhecimentos de química e de biologia do final do século XIX.

As investigações empreendidas por Peirce sobre a extensão espacial do sentimento envolviam o protoplasma. Uma porção de protoplasma poderia ser uma ameba ou um pedaço de lodo, que não diferia do conteúdo de uma célula nervosa, embora as suas funções pudessem ser menos especializadas.

Peirce explica (CP 6.133) que não há dúvida de que esse lodo ou ameba ou qualquer porção do protoplasma que lhes seja similar sente. Quer dizer, sente quando se encontra numa condição excitada. Continua mencionando que quando o todo se encontra quiescente e rígido, excitamos uma parte, então, nesse ponto de excitação, começa a se desenvolver um movimento ativo, o qual gradualmente se difunde para outras partes. Nessa ação não se constata nenhuma unidade, nenhuma relação com o núcleo, tampouco com qualquer órgão unitário. Trata-se de um simples continuum amorfo de protoplasma, com sentimento passando de uma parte a outra.

A descrição continua em CP 6.133, porém o mais importante nessas reflexões é enfatizar que Peirce constatou que o sentimento tem uma extensão objetiva, o que vem ao encontro de resultados das investigações de Damásio sobre o cérebro humano.

Se ao nos fundamentarmos em Peirce afirmamos que um tecido qualitativo precisa ser instaurado para que a semiose se desencadeie, Damásio nos afirma que os sentimentos de dor e prazer e todos que estão entre esses extremos são os alicerces da mente. Nas suas palavras:

É fácil não dar conta dessa simples realidade porque as imagens dos objetos e dos acontecimentos que nos rodeiam, bem como as imagens das palavras e frases que os descrevem, ocupam toda nossa modesta atenção, ou quase toda. Mas é assim. Os sentimentos de prazer ou de dor ou de toda e qualquer qualidade entre dor e prazer, os sentimentos de toda e qualquer emoção, ou de diversos estados que se relacionam com uma emoção qualquer, são a mais universal das melodias, uma canção que só descansa quando chega o sono, e que se torna um verdadeiro hino quando a alegria nos ocupa, ou se desfaz em lúgubre réquiem quando a tristeza nos invade (DAMÁSIO, 2004: 11).

Explica ainda o mesmo autor que as emoções ocorrem no teatro do corpo e os sentimentos se dão no teatro da mente. As emoções e as várias reações que as constituem fazem parte dos mecanismos básicos da regulação da vida e os sentimentos também contribuem para a regulação da vida, mas isso se dá em outro nível. “As emoções e as reações a elas relacionadas parecem preceder os sentimentos na história da vida e constituir o alicerce dos sentimentos. Os sentimentos, por outro lado, constituem o pano de fundo da mente” (1998: 35).

Mas como esse tecido qualitativo, no sentido peirceano, pode ser instaurado, ou o movimento emoções/sentimentos, para Damásio, pode ser estabelecido? Do lado das ideias peirceanas encontramos a operação da analogia. Que operação é essa e como ela propicia a instauração desse tecido qualitativo? Qual seria o vínculo dessa operação com as formas da lógica?

3. Sobre a analogia

No que se refere à analogia, iniciamos com uma breve referência à obra “As palavras e as coisas”, de Foucault, que trata da origem e da perda da representação sob o ponto de vista de uma teoria estruturalista. No tocante à semelhança ou similitude – sendo a analogia uma das suas quatro formas –, o autor enfatiza que “um papel construtor no saber da cultura ocidental” foi por ela desempenhado, isso até o fim do século XVI.  “Foi ela que, em grande parte, conduziu a exegese e a interpretação dos textos: foi ela que organizou o jogo dos símbolos, permitiu o conhecimento das coisas visíveis e invisíveis, guiou a arte de representá-las” (1999: 23).

Mas à medida que essa arte de representar ganha força e a palavra se faz intensamente presente, principalmente a escrita, a semelhança, para Foucault, “desfará sua dependência para com o saber e desaparecerá, ao menos em parte, do horizonte do conhecimento” (1999: 23).

Foucault (1999: 24-41), trata de quatro formas de semelhança: a convenientia (conveniência), a aemulatio (emulação), a analogia e a simpatia. A primeira é uma forma de semelhança que vem com a aproximação e ajuntamento das coisas; a segunda aproxima coisas dispersas do mundo e apresenta-se de início como simples reflexo; a terceira, a analogia – conceito familiar à ciência grega e ao pensamento medieval – tem imenso poder, “pois as similitudes que executa não são aquelas visíveis, maciças, das próprias coisas; basta serem as semelhanças mais sutis das relações” (p. 29); por fim, à quarta forma de similitude – a simpatia – compete suscitar o movimento das coisas no mundo e provocar a aproximação entre as mais distantes. Essa forma de diálogo do mundo, a “prosa do mundo”, como diz o mesmo autor, faz com que esse permaneça idêntico, “trancafiado em si”.

A analogia, por sua vez, como uma forma de semelhança deixa o cenário, pois como nos explica Foucault, essa “prosa do mundo” é pletórica e pobre. Pletórica, por ser ilimitada, e pobre, pois se condenou a conhecer sempre a mesma coisa. Nas palavras de Foucault:

A semelhança jamais permanece estável em si mesma; só é fixada se remete a uma outra similitude que, por sua vez, requer outras; de sorte que cada semelhança só vale pela acumulação de todas as outras, e que o mundo inteiro deve ser percorrido para que a mais tênue das analogias seja justificada e apareça enfim como certa. É, pois, um saber que poderá, que deverá proceder por acúmulo infinito de confirmações requerendo-se umas às outras. E, por isso, desde suas fundações esse saber é movediço. A única forma de ligação possível entre os elementos do saber é a adição (1999: 41-42).

E não seria a analogia ainda uma operação de extrema importância para a cognição? De um lado, considerando as ideias de Foucault, por estar enraizada na constituição da linguagem, seria, então, importante para a memória, sendo essa concebida como alguma forma de ação – vinculada à linguagem – e que se dá envolvendo o sistema nervoso, o cérebro e o corpo portanto. Por outro, na perspectiva peirceana, está mesmo imbricada com as formas da lógica.

Nesse aspecto, tomemos as explicações de Peirce que mostram a analogia como uma operação que se constrói com a indução ou com a abdução. Ele menciona que a analogia por possuir esse caráter duplo é muito forte, mas somente em uma quantidade moderada de situações.

Vejamos como se dá essa operação mental, tal como consta em CP 2.513: S’, S’’ e S”’ são tomadas aleatoriamente de uma classe em que seus elementos são como P’, P” e P”’ também tomadas aleatoriamente; t possui as características P’, P” e P”’ e S’, S” e S”’ são q, portanto, t é q.

Vejamos como a abdução e a indução participam dessa operação.

  1. S’, S”, S”’ são tomadas como tendo as características P’, P”, P”’;
    S’, S”, S”’ são q,
    portanto, (por indução) P’, P”, P”’ é q,
    t é P’, P”, P”’;portanto, (por dedução) t é q.
  2. S’, S”, S”’ são, por exemplo, P’, P”, P”’,
    t é P’, P”, P”’;
    então (por abdução) t tem as características comuns de
    S’, S”, S”’,S’, S”, S”’ são q;
    então, (por dedução) t é q.

Mas como essa operação pode se dar a partir dos objetos que nos rodeiam ou dos acontecimentos do dia a dia? Que aspectos da materialidade desses contribuem para a instauração de induções e abduções que compõem as analogias? Para tentar explicar esse movimento, valemo-nos de análises de duas representações visuais e de um cenário (aqui em forma de representação visual).

4. O contínuo e o fragmento

Apresentamos a seguir uma imagem fotojornalística, uma imagem publicitária e um “cenário” (em representação visual) composto com uma obra de Renzo Piano, para tratar da continuidade e da fragmentação, aspectos perceptíveis na materialidade dos objetos, em locais do nosso cotidiano, em representações visuais.

Iniciemos com a imagem fotojornalística (Figura 1), com a qual Damon Winter recebeu o Prêmio Pulitzer, em 2009. A imagem fotojornalística é uma das fotos da série intitulada “Following Obama”, realizada durante a campanha eleitoral do atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Alguns aspectos qualitativos dessa imagem estão presentes com a luz que ilumina o rosto de Obama e com a mancha luminosa, ao lado do corpo, que parece explodir em pontos de luz. Pontos de luz que impregnam todo o cenário no qual o “busto” do candidato se desenha.

A foto rompe com a expectativa do intérprete. Afinal, uma foto jornalística testemunha, documenta um fato ou especificidades de um fato e, no mais das vezes, é impactante, chocante.

Figura 1

Figura 1 - Disponível em: http://goo.gl/SNc2l . Acesso em: 27/7/2011.

Os aspectos qualitativos convidam o olhar do leitor a caminhar pela imagem, que demanda, portanto, contemplação. E em meio a esse olhar demorado e intersticial vêm outros detalhes. A jaqueta de couro com a gola que se põe de modo irreverente e remete o intérprete a outras imagens midiáticas, como a de Elvis Presley. Também o rosto de perfil e iluminado deixa o intérprete diante de uma imagem quase que escultural. Mas, escultura que guarda em potencial – devido ao click paralisante da máquina fotográfica – movimento, energia, poder. Imagem, portanto, que se destaca do referente – Obama – e engendra significados, que a ele retorna, tanto pelos aspectos qualitativos como pelos simbólicos que vêm com a associação ao glamour do ídolo pop ou ao potencial das formas e das texturas do material, na “escultura” bidimensional.

A continuidade vem com o vínculo do referente a outros contextos. A roupa (jaqueta de couro e gola em posição diferente da habitual), o rosto iluminado e de perfil, os pontos de luz espalhados no entorno do busto são detalhes, fragmentos que fluem e se harmonizam, que instauram um contínuo de sentimentos provenientes das associações que desencadeiam. Fragmentos que levam a mente do intérprete a fluir. Esses embates de aspectos qualitativos, referenciais e simbólicos instauram novas relações entre o intérprete e o fotografado, uma vez que a “imagem” que o primeiro constrói do Obama é multifacetada, aberta, fluida e ao mesmo tempo consistente, densa. Assim, novas modalidades visuais são estabelecidas.

Vejamos a imagem publicitária (Figura 2). A imagem se lança ao olhar do intérprete e pode deixá-lo paralisado por um lapso de tempo! Um corpo retorcido coberto por gotas d’água nele costuradas por uma dança sensual se apresenta. As gotas se aproximam e despencam do corpo, embaladas também pelo corpo que se retorce, que se move. A cor dos olhos e o marrom do corpo/terra se misturam. Os lábios mais parecem uma gota d’água. Sintonia terra/água e corpo/sandália. G2B, sandália, que é água, H2O.

Figura 2

Figura 2 - Na execução dos anúncios, das peças impressas, a top foi fotografada em Nova Iorque – de biquíni – em diversas poses, por Paulo Vainer. No Brasil, outra modelo com características semelhantes foi clicada por Ricardo Zuffo ao mesmo tempo em que baldes d’água eram despejados e lançados sobre seu corpo. O trabalho de composição levou seis meses, a partir da técnica de sobrepor a água do corpo da modelo ao corpo de Gisele. - link: http://goo.gl/qFxiu . Acesso em 19/10/2008."

A técnica se apresenta por meio dos aspectos qualitativos potencializados na imagem. Ela permitiu vestir a modelo com água e dar às gotas d’água um movimento sinuoso, repleto de graciosidade, leveza. A terra e a água, o corpo e a sandália se misturam e tornam a imagem translúcida, que aparece “cristalizada” em meio à tonalidade de cinza no plano de fundo e o translúcido da água. Água cristalina, imagem cristalina.

Cores e formas, luz e texturas, advindas dos efeitos da técnica, compõem um tecido qualitativo único e nos deixam em suspensão, momentos que tendem a ser epifânicos. A seguir, podem vir as analogias pelas qualidades da água, da terra, do corpo sensual, retorcido. Novas modalidades visuais são construídas, novos espaços de vivência podem se instaurar.

Mas esses movimentos do olhar capturado por fragmentos, com elementos diferentes que sob algum aspecto ou modo se conectam, instauram certa continuidade. Isso pode ser perceptível também no cenário que se compõe quando caminhamos pelas cidades contemporâneas. Se antes a continuidade era estabelecida pela repetição de formas, de detalhes, agora a continuidade vem de conexões sutis entre fragmentos. Vejamos o recorte da cidade (Figura 3) que apresenta uma obra de Renzo Piano.

Figura 3

Figura 3 - Disponível em: http://goo.gl/B98W6 . Acesso em: 25/7/2011.

A obra arquitetônica estabelece diálogo com o meio em que se insere. Jogos de formas, cores e texturas são estabelecidos com o entorno. Trata-se do National Center for Science and Technology – NEMO-, localizado em Amsterdam, na Holanda. Como podemos observar, o exterior da construção se assemelha a um grande navio verde ancorado. Para Renzo Piano, “a forma de um barco não é ditada por quaisquer preocupações geométricas reais, mas antes pelas regras do movimento através das águas” (JODIDIO 2008: 455). Desse modo, as suas obras, independentemente de estarem em terra, de modo geral, parecem “navegar”. Isso se dá com a obra presente no cenário (Figura 3).

Essa “imagem” ou esse “cenário” permite que o olhar do intérprete ou do usuário caminhe por diversos elementos – os barcos, o movimento das águas, o edifício, o verde, o azul, o transparente, o límpido, os reflexos –, sem rupturas. O todo e o fragmento se acasalam num ritmo suave, tranquilo. Navegam em águas tranquilas tanto o pensamento do intérprete como o cenário. Certamente pela persistência dos elementos mencionados, ou seja, pelo fato de que os elementos se distribuem pelo cenário todo, há “continuidade material”, há continuidade de qualidades (por fragmentos), o que possibilita o desencadear de analogias. Por exemplo, a transparência na água e na epiderme do barco; o verde e o azul no barco e nas águas; as formas desenhadas nas pontes e no interior do edifício; o edifício refletido nas águas e a água duplamente refletida na epiderme do edifício. Com esse jogo vem certa ambiguidade propícia às analogias

Essas imagens ou o “cenário” em questão constroem espaços de vivência. Espaços em que as relações estabelecidas com o entorno são guiadas por qualidades de sentimento. Os aspectos qualitativos nesse jogo fragmento/contínuo são convertidos pela consciência do intérprete/usuário em sentimentos vinculados a essas qualidades. Terreno profícuo às analogias, portanto.

A analogia possibilita a atualização de qualidades de sentimento, logo, é propícia à cognição, na perspectiva peirceana. As atualizações de qualidades de sentimento possibilitam a conexão de ideias em nossa mente que, no curso da experiência, como explica Peirce, levam ao desenvolvimento de conceitos gerais. Em relação às descobertas de Damásio, podemos dizer, então, que certas representações visuais têm potencial para suscitar emoções – que fundam os sentimentos – e, por sua vez, sustentam a mente.

5. Considerações finais

Valendo-se de ideias da semiótica peirceana e de Damásio, de certo modo, podemos resgatar o papel da analogia para a cognição. Ela opera na constituição de um tecido qualitativo que permite a conexão de ideias, ou ainda, tomando as ideias por signos, podemos dizer que esse tecido propicia a semiose. Por outro lado, esse tecido qualitativo revigora a plasticidade da mente, no sentido que essa fica aberta às conjeturas e à indução, ou ainda, esse tecido propicia o raciocínio abdutivo e o indutivo, que permite o crescimento das ideias.

No tocante à continuidade eram inúmeros os questionamentos de Peirce sobre esse conceito. Ele menciona a definição de Aristóteles, de Kant, de Georg Cantor e, também, alguns estudos de Dedekind. Para explicar a continuidade que se estabelece com as qualidades de sentimento, ele se vale de quantidades infinitesimais.

Ao tratar da lei da mente, ele se mostra insatisfeito, pois, de modo geral, tais definições não conseguem resolver o problema do rompimento da continuidade ao se tomar um individual. Por exemplo, quando se toma um ponto sobre a reta rompemos a continuidade e, por outro lado, as semirretas obtidas não reconstituem o ser da reta.

Peirce desejava algo com uma propriedade que se mantivesse no tempo e que fosse independente das dimensões do espaço. Essa propriedade explicaria o movimento dos interpretantes, certa conaturalidade na geração de interpretantes que não perdessem a conexão com o interpretante anterior e com o próximo e assim sucessivamente, de modo que se pudesse resgatar o objeto e caminhar no encalço do interpretante final. Só a infinitude não explica esse movimento. Ela só garante que há a possibilidade de infinitos signos/interpretantes estarem envolvidos no movimento.

Compreendemos que Peirce explicou como a continuidade se instaura, no entanto, percebia que isso deveria ser “visível” nos objetos, nas coisas, nos acontecimentos. Essa propriedade deveria enfatizar uma relação do todo com suas partes. O fragmento deveria reportar a mente do intérprete para o todo.

A questão da conectividade, talvez, pudesse ser explicada pela ideia de que o que é continuum tem partes materiais. Nas palavras de Peirce,

a parte material de uma coisa ou objeto, W, que é composto de tais partes, é tudo o que coisas são, primeiramente, cada uma delas e todas elas, outra que W; segundo, são todas da mesma natureza interna (por exemplo, são todos lugares, ou todas tempo, ou todas entidades espaciais, ou são todas entidades espirituais, ou são todas ideias, ou são todas características, ou são todas representações externas, etc.); terceiro, formam juntas uma coleção de objetos na qual nenhuma ocorre duas vezes ou mais e, quarto, são todas tais que o Ser de cada uma delas junto com os modos de conexão entre as subcoleções delas, constituem o Ser de W (CP 6.174).

Simbolicamente, a definição acima pode ser dada da seguinte maneira:

Seja W uma coisa ou objeto e Wi uma parte material de W. W é um continuum se forem válidas as seguintes propriedades para as suas partes materiais Wi :

  1. Wi ¹ W, ” i ( i Î I)  onde I = {1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9,…, n }, sendo n um número natural;
  2. Wi é da mesma natureza, ” i ( i Î I);
  3. Wi ¹ Wj , ” i ( iÎ I ) e  “j (j Î I) e
  4. o ser de cada Wi e os modos de conexão entre todas as subcoleções de Wi constituem W.

Assim, partes distintas entre si, mas da mesma natureza e distintas de W, e o ser de cada uma delas com as relações que subcoleções delas estabelecem entre si constituem W.

A definição acima lembra a propriedade denominada autossimilaridade do fractal. Os fractals são objetos matemáticos gerados por iteração de processos simples. Eles contêm cópias, aproximadas ou não, de si mesmos, ou seja, por meio de um processo simples, forma-se uma estrutura complexa com semelhança em todas as escalas.

Assim a problemática de Peirce para explicar a continuidade não estaria exatamente na sua crença – no sentido do pragmaticismo peirceano –, na continuidade, mas no modelo matemático possível até então. No entanto, os fractals estão já presentes e trabalhados adequadamente pelos matemáticos, para tomarmos como modelos para a relação entre fragmento e contínuo. Não estão tais aspectos presentes nas representações visuais e no cenário analisados? Não apresentam, portanto, aproximações à propriedade da autossimilaridade dos fractals?

Nesse aspecto, o fragmento considerado como um aspecto da pós-modernidade ainda deve ser o que problematiza a relação fragmento/contínuo, é aquele que mesmo como fragmento dialoga com o todo. Não se trata, portanto, de abandonar a ideia de continuidade, mas buscar novos modelos para a relação fragmento/contínuo.

Bibliografia

DAMÁSIO, António R. Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

JODIDIO, Philip. Renzo Piano Building Workshop. 1966 to today. Köln: Taschen, 2008.

PEIRCE, Charles S. Collected Papers. Vols. 1-6, ed. HARTSHORNE, C. & WEISS, P., vols. 7-8, ed. BURKS, A. W. Cambridge, MA.: Harvard UP, 1931-58.

_________. Antologia Filosófica. Portugal/Imprensa Nacional: Casa da Moeda, 1998.

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