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A evolução natural do pensamento e a comunicação por afetabilidade em Peirce

Resumo/ Abstract

Ilustração por Catarina Bessell

Adenil Alfeu Domingos

Resumo

Objetiva-se aqui demonstrar como as ideias de Duns Scoto sobre hecceidade levaram Peirce a se tornar um realista, entendendo o processo da mente como todo ato de ação, em que a semiose é um princípio que atinge todas as imensidões do orbe. A visão semiótica de Peirce é que toda linguagem é inferência e o novo sempre trará em si algo dos seus signos geradores, em um processo de sinequismo que ultrapassa as ações da mente humana, já que o modo de operação desta seria praticamente o mesmo de todas as demais mentes. Assim, neste artigo, nosso propósito é demonstrar como Peirce foi muito além do biombo que as palavras, como entidades carregadas de ideologia ou como objetos culturais, colocam entre o corpo humano e seu entorno, já que, para ele, onde houvesse ação haveria mente e onde houvesse mente haveria sinequismo.

Palavras-chave: semiótica; afetabilidade; ciborguecentria; linguística

Abstract

This paper aims at demonstrating how the idea of Duns Scotus on haecceity led Peirce to become a realistic, as he understands the process of mind as every act of action, in which semiosis is a principle that reaches all the immensities of the orb. Peirce’s Semiotic view is that every language is inference and the new will always bring in itself something of in their generator signs, in a synechism process that goes beyond the actions of the human mind, since its mode of operation would be practically the same for all other minds. Therefore, in this article, our purpose is to demonstrate how Peirce went far beyond the gaps between the words, as  bodies full with ideology, or as cultural objects, are placed between the human body and its surroundings, since for him, where there’s action there’s mind and where there’s mind there’s synequism.

Keywords: semiotics; affectivity; ciborgcentrics; linguistics

Artigo

Introdução

O propósito deste artigo é demonstrar como o semioticista Charles Sanders Peirce (1839-1914) foi muito além do biombo que as palavras, como entidades carregadas de ideologia ou como objetos culturais, colocam entre o corpo humano e seu entorno. Para ele, há continuidade entre mente e matéria e onde houvesse ação haveria mente, sendo ela capaz de autogerar hábitos, em processos ininterruptos e infinitos.

Na sua teoria, não há pensamento que não seja um diagrama de algo e todo diagrama é um ícone de sensações impostas por estímulos exteriores, que podem ser transformados pela mente e nela combinados. Nada há de incognoscível, apriorismos, introspecção ou intuição na ação dos signos. Eles nascem no real e terminam no real, quando se tem a obrigação de buscar a verdade. O signo segue sempre uma sequência natural desde sua percepção como estímulo exterior até a produção do novo signo. Primeiro, mente e signo se fundem em uma percepção monádica da lente do sensível dessa mente, que aparece ainda desfocada pela falta de distanciamento entre ambos. Isso coincide com a primeiridade peirceana; aos poucos, porém, ela vai se ajustando e deixando o real aparecer diante de si, formando uma díade com afrontamentos na secundidade. Em consequência dessa visão, o homem começa a fazer inferências ao combiná-lo com outros signos já existentes na mente e cria o novo signo, confirmando a terceiridade da tríade sígnica e o real reaparece, então, como produto de uma inferência. Conforme Peirce assegura

mais cedo ou mais tarde, a informação e o raciocínio resultarão finalmente, e que é, portanto, independente das minhas e das suas fantasias. Assim,a verdadeira concepção de realidade mostra que esta concepção implica essencialmente a noção de uma comunidade sem limites definidos e capaz de um aumento de conhecimento indefinido (CP 5.311).

Assim sendo, é na realidade lógica que se concentra a verdade, e a semiótica seria essa busca. Mas a realidade começa na sensação inconsciente da mesma, para ir paulatinamente tomando conta da mente ao se tornar uma forma de consciência.

Da antropo à ciborguecentria

Na era das novas tecnologias, chamada de cíbrida, a antropocentria desliza célere para uma ciborguecentria. Ela entrelaça três redes de comunicação para veicular conhecimentos: a) a rede off-line com a imprensa escrita, a radiofonia, a televisiva; b) a on-line, principalmente com as mídias sociais da web 2.0; c) a rede neuronal do corpo humano, que dá sentido ao que circula nessas duas primeiras redes, transformando energia exterior em interior de modo transdutor. As novas ferramentas da comunicação confirmam uma contundente interação do homem com o seu meio ambiente e demonstram queo corpo biológico é parte de um todo muito mais amplo. Profeticamente, as teorias de Peirce antecipam a ciborguecentria.

A própria cognição foi definida por Peirce como um processo inferencial, já que, para ele, não existe pensamento, senão por meio de signos. Sua teoria semiótica em basada na ação dos signos e/ou semiose, isto é, na produção do signo novo, chamado interpretante, nasce da tríade signo, objeto, interpretante, em que todo pensamento ou representação cognitiva é, para ele, um signo/objeto. Isso significa o rompimento com a visão tradicional nominalista da intuição.

O homem não está diante da natureza como um olho divino, como ele se idealizou, de modo antropocêntrico, mas sim, inserido em um universo onde tudo está intimamente ligado a tudo, de modo ecológico.O homem desta nova era, plugado e com chips, não pode mais pensar uma comunicação linear estabelecida apenas entre mentes humanas.

Quando se constata que a natureza desenvolveu os órgãos do corpo dos animais em função do meio em que vivem e das suas diferentes necessidades de sobrevivência, não se pode isolar um do outro. Se a natureza desenvolveu, por exemplo, o poder de visão nos seres humanos, é porque o homem vive em um espaço que possui luz. Infere-se, assim, que esse modo de ver o homem como parte de um todo complexo maior é o que Peirce deixa entrever na sua teoria dos signos, quando ele acentua que onde houver ação ali haverá uma mente e que a matéria não seria senão mente cristalizada.

Tratando da sua cosmologia evolutiva, em sua Lei da Mente, Peirce notou grandes regularidades entre a natureza e a mente humana, em termos de sinequismo ou continuísmo. Ele compreendeu que as ideias se propagam de forma contínua, afetando outras, e denominou esse processo de relação peculiar de “afetabilidade”. Ao se propagarem, assegura Peirce, as ideias perdem intensidade e, especialmente, o poder de afetar outras, mas ganham em termos de generalidade e acabam por se misturarem com outras ideias. A partir dessa constatação, ele inicia a elaboração de uma lei geral da ação mental, que não se confinaria à mente humana, mas sim, ao universo como um todo. Peirce era mais um cientista, homem de laboratório, que enxergava além das palavras. Além disso, ele fora contemporâneo de Charles Darwin e, por certo, percebeu que o homem primordial não começou a pensar por meio de símbolos que são convencionais e culturais, mas sim, pelo sentir seu entorno de modo icônico e indicial.

Nada indica na teoria semiótica de Peirce que ele fora um linguista, mas sim, que ele não entrou em contato com os franceses da semiologia, já que ela separava a língua do seu entorno, com um signo psíquico, que unia um significante a um significado. Assim pensa ainda hoje a maioria dos herdeiros de Ferdinand de Saussure (1973). Como homem de laboratório, por certo, Peirce via o signo verbal como um objeto dinâmico entre objetos dinâmicos, ou seja,como existentes na realidade e em semiose constante.

O universal como inferência do individual

Nas ideias de hecceidade do escocês Duns Scoto (cf. GILSON: 450), C. S. Peirce encontrou a base de toda a sua classificação de signos e quegerou as categorias faneroscópicas. Assim, a natureza, para Duns Scoto, teriatrês modos de ser: primeiro, ela não seria nem universal, nem particular, masindiferente a cada um deles, como a natureza humana; no segundo modode existência, a natureza seria tomada de modo particular, por meio de umaoperação que ele chamou de ‘contração’ ou ipseidade (cf. ABAGN ANO ,1992: 496), que se refere a um sujeito individual de uma espécie, como, por exemplo, Sócrates, como um representante do ser humano em geral; o terceiro modo de existência seria o universal, como um produto da racionalidade, portanto, inferencial, que seria predicável a todos os seres de uma espécie. Desse modo, Peirce entendera que a linguagem humana é um produto feito de inferências e abstrações e o universal existente nessa linguagem advinha senão dessas inferências nascidas da observação do caráter particular, individual, único de um ente, que distingue um objeto dos demais, fora ou dentro da própria espécie. Nesse instante, Pierce deixa de ser fenomenólogo para ser realista e conclui que o nominalismo o cegara até então, já que toda a filosofia moderna não era senão nominalista. Essas ideias, ele relata nos primeiros parágrafos do seu texto “A lei da Mente”, de 1892.

Se há continuismo biológico entre os ancestrais e seres atuais, há também continuismo entre a mente e seu entorno, que é a matéria prima do que essa mente manipula interiormente. Nenhuma ideia está na mente sem que tenha sido filtrada pelos sentidos do corpo. Dentro da mente, elas continuam em interação com as demais ideias ali já existentes. Esse continuismo entre os signos dentro da mente pode ser apenas emotivo, ou energético, ou mesmo lógico, antes de gerar o interpretante final, como signo novo. O signo novo, nascido dessas combinatórias, sempre trará em si a herança dos signos que lhes serviram como geradores. O interpretante é um objeto mediato dos signos anteriores e que se projeta, teleologicamente, produzindo novos signos de modo infinito.

Esse também seria o processo de toda criação natural que se inicia, por exemplo, no sêmen em combinação com o óvulo, ou no androceu e no gineceu das plantas das sementes. Ou seja, o processo de produção do interpretante é muito semelhante ao processo da reprodução animal e vegetal. Os exemplos desse modo de se multiplicar seriam inúmeros e, por certo, essas coincidências levaram Peirce a perceber a reprodução dos signos na mente humana, como um modo de produção do novo na natureza e da própria evolução do pensamento individual. Este sempre se inicia no sentir, passa pelo constatar, para depois permitir a geração de inferências.

Assim como todo ser natural tem semelhanças e diferenças com os seus progenitores, todo interpretante jamais será idêntico aos seus signos geradores, mas trará em si marcas individuas, além das marcas herdadas. Isso acontece até mesmo na produção industrial, como, por exemplo, no caso do megafone que gera o telefone, que depois gera o celular com números e um fone por onde se pode falar. Por certo, o novo traz qualidades que o anterior não possui, como o celular ser portátil e utilizável em qualquer lugar.

Depois de 1890, como realista convicto, Peirce teve a certeza que todo objeto é um signo sem deixar de ser objeto, e todo signo é um objeto sem deixar de ser signo e, como objeto, eles ocupam um espaço infinitesimal na mente. Desse modo, a palavra é um objeto dinâmico como os demais objetos existentes na realidade, com forma e substância. Em 23 de dezembro de 1908, em uma carta à Lady Welby, ele define signo com um adendo esclarecedor para minha maneira de pensar.

I define a sign as an thing which is so determined by something else, calledits Object, and so determines an effect upon a person, which effect I call itsinterpretant, that the latter is thereby mediately determined by the former.My insertion of “upon a person” is a sop to Cerberus, because I despair ofmaking my own broader conception understood… (MARTY, 2011)

Nessa sua concepção de signo, Peirce mostrou que o signo ultrapassa a ideia de um produto apenas da mente humana, sendo objeto, não psíquico, nem apenas diádico e nem convencional, como a linguística francesa entende o signo verbal. Ele seria um produto de um princípio natural do universo resumido na seguinte fórmula: todo elemento A ao se relacionar com um elemento B gera, inevitavelmente, de modo mediato, um novo elemento C, que traz em si características dos dois primeiros. Assim, Peirce, parece ter entendido que todo universo é permeado de signos e a mente humana seria apenas mais uma usina operadora de matérias-primas que vêm do seu entorno e que, por sinequismo, nela se transformam em objetos sígnicos geradores de novos signos. As signições aparecem por relação de indicialidade entre o signo e a ideia nele embutida.

Assim sendo, os linguistas e semioticistas caracterizam os signos como objetos fixos, congelados, com cargas semânticas mais ou menos definidas no uso e carregados de ideologia social, definidas dentro da linguagem. Desse modo, um signo se diferenciaria dos demais pelas suas caracterísitcas individuais. Peirce, por sua vez, vê o signo em intensa metamorfose. Parodiando Heráclito, pode-se pensar que não nos banhamos duas vezes nas águas de um mesmo signo, pois essa eterna metamorfose está até mesmo no espaço mental, onde se encontram novos significados para o mesmo signo a cada novo uso seu. Para Peirce, o significado depende do ângulo que se empresta em cada interpretação, até a um mesmo signo, que pode ser visto na sua iconicidade, quando se foca a similitude entre representante e representado; ou na sua indicialidade, que traz essa similitude consigo, mas produz efeitos de contiguidade com outros signos. Por fim, o símbolo, além de acoplar os dois primeiros, só pode ser definido de modo cultural dentro de um contexto de uso, gerando o signo genuíno, se argumentativo, como Peirce o entendeu, porém, não descartou a existência de quasi-signos, ou signos degenerados, nos intervalos dessas sequências.

Sem se aprofundar nessa particularidade, interessa demonstrar que o pensamento em Peirce segue a sequência natural que vai da percepção em primeiridade, em pensamentos carregados de hipóteses abdutivas que depois passam a ser testadas, de modo indutivo, quando se passa pelo pensamento indicial, fazendo testes por ensaios e erros, para depois, de modo dedutivo, chegar ao símbolo que cria leis, normas, regras e hábitos, de modo generalizante e inferencial. Por isso mesmo, os símbolos são definidos pelo contexto de uso e não apenas pela sua iconicidade e indicialidade.

Os símbolos, por excelência, é que se interpuseram entre o corpo e a realidade como um biombo para, assim, produzir efeitos de sentido e não simples representação. Se nos esforçarmos para retirar essa venda de nossa frente seremos semioticistas e poderemos entender o realismo de Peirce; casocontrário, continuaremos sendo linguistas, falando de textos, de discursos, de gêneros, ou, no máximo, chegaremos a ser semiólogos e/ou fenomenólogos, pensando sempre com o parecer do ser, e nunca com o ser em si, como se nosso pensamento todo fosse sempre uma ilusão do percebido.

É certo que há defasagens entre o representante e o objeto nele representado e, por isso mesmo, Peirce entendeu a semiótica como produtora de falibilismos. A definição de pragmatismo de Peirce mostra também que ele entendia que, por um lado, os objetos pensados individualmente dependem das experiências de cada um em torno desse mesmo objeto, mas, por outro, que esses objetos,em sua essência como realidade, são muito semelhantes em diferentes mentes, o que provaria a existência destes como objeto dinâmico na natureza. Caso contrário, a comunicação seria eternamente entrópica.

A inversão do processo de percepção da linguística

Os semiólogos, os teóricos do discurso, os linguistas, e todos os herdeiros do psicologismo saussuriano, ao deixarem fora a relação da língua com o objeto em sua iconicidade ou sua indicialidade, inverteram o processo de percepção, colocando o símbolo como gerador da interação do homem com seu entorno. Nessa visão, não há signo que não seja dependente de um conceito, pois, semeste, o homem não teria como significar seu entorno. Esse modo de perceber a linguagem parece não levar em consideração que há um homem pré-histórico que convivia com a natureza, sem linguagem convencional e sistematizada em códigos, mas essencialmente icônica e indicial.

O homo sapiens é o homem dos símbolos e, assim, usuário dessa tecnologia fabricada, com o auxílio dos seus órgãos da respiração, ao se servir da caixa de ressonância que é o crânio humano. Trata-se de uma eficiente arma que a humanidade fabricou, na sua luta pela sobrevivência, que serve tanto para construir como destruir ideias. Criador e criatura, o homem produz linguagem por ensaio e erro de modo bottom-up e não top-down. Galimberti (2006) chega a inverter o processo do pensamento ao assegurar que o raciocínio humano não criou a tecnologia, mas sim, que a técnica é que possibilitou ao homem desenvolver sua racionalidade, como um meio eficaz de sobreviver. Foi se autonarrando, portanto, que o homem se disse inteligente. Mas, até hoje, o homem só evolui em dependência estreita com a técnica que ele diz inventar. Desse ponto de vista, o pensamento racional humano é um produto das experiênciasdo homem, o que vai de encontro ao pragmatismo de Peirce, até mesmo de modo esclarecedor.

Peirce, por sua vez, ao colocar o objeto da realidade como parte integrante da comunicação, deu ao pensamento um percurso gradativo e evolutivo que começa na percepção do objeto, ainda como simples sensação, em que sujeito e objeto estão em fusão, para depois, em um instante de distanciamento, o objeto se tornar o Outro, quando há, então, um afrontamento de objetos entre si; só depois pode haver a produção de um terceiro elemento, como signo novo formando o processo de semiose.

Conforme Saussure, o pensamento é uma nebulosa e a palavra serviria para recortar o universo e organizar o interior da mente, permitindo, portanto, ao homem interagir com o outro. Essa visão não considera que o homem sinta o mundo antes de raciocinar por meio de ícones e, em uma operação um pouco mais evoluída do cérebro, ele criaria índices, relacionando ícones entre si.

Se os linguistas partem dos símbolos da linguagem para chegar a ícones e índices, Peirce entende que primeiro o homem sente os ícones, depois os relaciona como índices até chegar aos símbolos que aparecem como produtos culturais. Para a linguística, há a primazia da palavra sobre o objeto; para Peirce, antes de tudo, o objeto funciona como estímulo exterior, mesmo no pensamento abstrativo, pois todo pensamento é produto de inferência, mesmo quando se produz ficção ou falácias. Saussure assegurou que era preciso uma semiologia que tratasse de todos os signos, inclusive da linguagem verbal, mas Barthes inverte o processo ao colocar o signo verbal como meio exclusivo da comunicação, do qual a semiologia não seria senão uma parte. Peirce entende o objeto como signo e o signo como objeto. Para ele, até o homem é signo/objeto entre signos/objetos. A realidade, com toda sua plasticidade de forma, cores, texturas, da qual o homem é uma parte, é exterior ao pensamento e funciona como um estímulo perceptivo que se impõe à mente, já que não há pensamentoque não tenha, em sua estrutura profunda, a representação sígnica de um dos objetos dinâmicos do mundo exterior de modo diagramático.

A teoria do Umwelt de Uexküll

Viu-se antes que o processo em que se dá a produção de signos novos na mente humana é muito semelhante ao que a natureza realiza quando produz um novo objeto advindo de uma semente ou de uma reprodução genética. Todo ato de reprodução é semiose natural e, sob esse ponto de vista, todo universo é semiótico. Uexküll, com sua teoria do Umwelt, como mundo próprio de ação/percepção de um ser vivo, entendeu que a mente, que recepciona e decodifica sinais, é um órgão criado pela natureza, a fim de perceber em si mesma. A mente para Uexküll (1982) é parte da natureza e a subjetividade é parte do mundo material.

Se a mente se caracteriza por um tipo de comportamento, o corpo, com seus sentidos, é o mediador da ação e percepção do mundo. No Umwelt de uma mente, ação, percepção, corpo, comportamento e forma de interpretação estão se relacionando dinamicamente. Mentes diferentes do grande sistema do universo são subsistemas abertos e estão em comunicação com outras mentes por afetabilidade, ou seja, de modo ecológico e, portanto, há uma profunda relação entre todos os seres. Caberia, agora, perguntar se máquinas com Inteligência Artificial têm Umwelt.

Para o homem, o Umwelt torna-se consciente por meio de percepção intencional, cognição e linguagem, ao mesmo tempo em que um oceano subconsciente ou pré-consciente age na mente. Um organismo só tem acesso primário aos seus próprios Umwelt, e somente os seres humanos (e alguns animais mais inteligentes são capazes de ler a própria mente; certos predadores, porém, interpretam a mente de suas presas), por inferência, têm acesso indireto ao Umwelt de outras espécies. No entanto, este “acesso indireto” nunca é a mesma coisa que o real Umwelt da espécie em questão – por exemplo, nossa compreensão científica do sistema de sonar nos dá uma imagem indireta e funcional do Umwelt do morcego, mas não podemos entrar no seu Umwelt para sentir esse modo natural de percepção. O que temos é um modelo em nosso interior (linguísticas, cognitivas e perceptivas) do Umwelt morcego.

A ciência tenta construir um modelo baseado em “visão de lugar nenhum” (NAGEL, 1986), mas só pode fazê-lo mediado pelo Umwelt da espécie humana e o Umwelt de espécies específicas, só pode se dar pelo nosso subjetivo ponto de vista, que constrói coletivamente uma esfera humana compartilhada de conhecimento público, como alma humana e não individual. Cada novo signo cai no logo da memória como uma pedra que produz círculos concêntricos em uma superfície calma. Na mente humana, ao cair, ele passa a tramar novos limiares de percepção, novas ideias e novos modos de construção social das ideologias anteriormente nele já existentes. A junção do mundo orgânico como inorgânico está em interação com as novas tecnologias, se pensarmos que o mouse, por exemplo, tornou-se uma extensão da mão e chips podem sercolocados em partes danificadas do corpo biológico.

Os limites entre o orgânico e inorgânico se tornaram tão fluidos, produzindo novas sinapses neuronais na percepção do mundo, que está difícil separá-los. Por ele, pode-se depreender que a comunicação é, antes de tudo, um processo sinestésico e não propriamente unidirecional. Etimologicamente, a palavra sinestesia é composta pelo prefixo grego syn, que significa “junto”, e aisthesis, “sentido”, “sensação”, “percepção”; assim, a sinestesia deve ser compreendida como fusão, intersecção ou diálogo entre duas ou mai smodalidades sensoriais. O estudo da sinestesia, na Lei da Mente de Peirce, tratadas ideias como continuidade intensiva e extensão espacial das sensações, as quais, à luz do conceito filosófico de sinequismo, demonstram que o sentir, na protossemiose, como origem de todo o processo de semiose, apresentava um número infinitesimal de variações, mediante a conexão ou combinatórias de sentidos e que transcendiam, então, os limites dos nossos previstos cincosentidos, supostamente, hoje, estanques. Com o desenvolvimento da mente humana e os consequentes artificialismos e seccionamentos da cultura, o homem especializou algumas modalidades sensoriais, priorizando, principalmente, a visão, enquanto os demais sentidos, como dormentes, recostaram-se sob as camadas e os recortes que recobrem o real.

Assim também, a ideia que se tem do cérebro é que este é quase totalmente consciente do que faz e que a comunicação humana possui o predomínio da linguagem verbal sobre os outros códigos, mas, na verdadeo corpo vive em interação ecológica com o seu contexto e o não verbal é quase a totalidade da comunicação humana. Todos os nossos sentidos estão interagindo semioticamente em relação ao meio que lhe serve de estímulo perceptual, tanto tátil, como visual, auditivo, gustativo, olfativo, além de outros entorpecidos pelo predomínio destes. Todos atuam no corpo humano em complementaridade e a predominância de um desses sentidos se dá em determinadas situações, mas o sistema nervoso central é que está em ação em todos esses processos de comunicação.

A ideia de produção da linguagem quase sempre esteve ligada a uma entidade superior que delegaria ao homem a possibilidade de significar por meio do discurso, em uma espécie de demiurgia platônica. Segundo Platão(428-348 a.C.), haveria um artesão divino, princípio organizador do universoque, sem criar de fato a realidade, seria uma força criativa que modelizaria e organizaria a matéria caótica preexistente, aproximando-as, de modo imitativo, aos modelos eternos e perfeitos. Ele considerava que o espírito humano é peregrino neste mundo e prisioneiro na caverna do corpo. Esse espírito deveria, pois, transpor este mundo e libertar-se do corpo para realizar o seu fim, isto é, chegar à contemplação do inteligível, para o qual é atraído por um amor nostálgico, pelo eros platônico.

O conhecimento empírico, sensível da doxa, ou opinião do vulgo e dos sofistas, deveria, para Platão, chegar ao conhecimento intelectual, conceptual, universal e imutável. A gnosiologia platônica, desse modo, temo caráter filosófico-científico. O conhecimento sensível deve ser superado por outro conhecimento, o conceptual, porquanto no conhecimento humano,como efetivamente, apresentam-se elementos que não se podem explicar mediante a sensação. O conhecimento sensível, particular, mutável e relativo não pode explicar o conhecimento intelectual, que tem por sua característica a universalidade, a imutabilidade e o absoluto do conceito. E ainda menos pode o conhecimento sensível explicar o dever ser, os valores de beleza, verdade e bondade, que estão efetivamente presentes no espírito humano, e se distinguem diametralmente de seus opostos, fealdade, erro e má-posição e distinção que o sentido não pode operar por si mesmo. Por isso, a impressão que se tem é que só o símbolo explica os ícones e índices, que parecem fazer parte do cérebro inconsciente, onde estariam a sexualidade e a preservação da espécie, imediatamente seguida das emoções.

A visão da predominância do simbólico prevalece na ideia de signo diádico saussuriano formado por um significante e um significado. Esse signo é formado na mente humana, cortando a relação com os objetos do mundo. Seria por meio dela que o homem não só percebe, conhece e explica os objetos,ao retirá-los do caos. A linguagem é que serviria para dar sentido ao mundo. Além, disso, esse mesmo homem destacar-se-ia dentre os demais seres vivos por possuir uma linguagem codificada, articulada, convencional, simbólica. Por essa visão top-down da comunicação, homem e deuses se interligam pelo sopro da palavra.

Baseado nas ideias evolucionistas naturalistas de Peirce, tenta-se aqui inverter essa visão, partindo de um princípio evolucionista da linguagem, segundo o qual ela teria acontecido por Emergência, de um modo bottom-up, como produto da capacidade natural do corpo humano para produzir sons e organizá-los em sistemas lógicos. O ponto de vista epistemológico desse modo de ver a linguagem torna-se, portanto, científico, já que a linguagem se torna um produto do uso natural que emerge e evolui de elementos naturais em um movimento bottom-up em experiências humanas.

A faculdade humana de emitir sons para comunicar pode ser muito antiga. A capacidade do homem para se servir de mensagens linguísticas codificadas, porém, parece ser muito mais recente, embora seja impossível determinar comprecisão esta data ou era. Para tratar dessa evolução considera-se, portanto, como ponto de partida para as reflexões feitas adiante, o aparecimento dos hominídeos há 2 milhões de anos e sua evolução para o homo sapiens, tal como ele é conhecido no presente. Por certo, foi dentro desse espaço temporal que o homem percebeu-se biologicamente apto para falar. Assim, deu-se-lhe, nessa época, o desenvolvimento progressivo da função cerebral ocorrida em estreita consonância com a bipedia e a libertação da mão, que lhe permitiu o aumento do volume docérebro, a par do desenvolvimento de órgãos fonadores e da mímica facial, entre outros fatores em correlação. Mais recentemente, a imprensa mundial divulgou até mesmo a descoberta do gene da comunicação, o FOXP2 no cromossomo 7, que regularia os movimentos da mandíbula, o que possibilitaria, assim,a capacidade da fala humana (ENARD et al, 2002: 869-872). Como base teórica das ideias aqui desenvolvidas, dando à linguagem humana um desenvolvimento natural, toma-se a compreensão dos sistemas regidos pelo princípio de Emergência defendido por JOHNSON (2003). Segundo ele, elementos relativamente simples se organizam para formar sistemas complexos, inteligentes, autoadaptáveis como colônias de formigas, cérebros, cidades e softwares, entre outros. É nesse mesmo ponto de vista que se coloca ,a seguir, a linguagem verbal como um produto natural de emissões sonoras compostas pela caixa de ressonância do corpo humano. Os sons da linguagemverbal aparecem, por certo, no processo natural de respiração do corpo, ou seja,quando a corrente de ar sai dos pulmões e, ao passar por determinados órgãos (boca, laringe, traqueia, fossas nasais, cordas vocálica), produz sons, que podem ser diferenciados entre si dentro de uma lógica sitematizada pelo uso, em que essas ressonâncias passariam a imitar outros sons. O som imitado seria uma espécie de referente do som natural, como, por exemplo, o canto dos pássaros cujos nomes podem lembrar seus cantos.

Esses sons naturais teriam sido captados, identificados e distinguidos entre si pelos ouvidos humano, dentro de determinadas faixas de frequência, para se tornarem, então, um código linguístico. Ou seja, para que servissem como signos,no seu uso cotidiano como comunicação, esses mesmos sons foram, então, naturalmente selecionados e organizados em sistemas linguísticos, passando a possuir características, identidades e funções próprias de comunicação. Eles tornaram-se objetos distintos de um todo correlacional, como quaisquer outros objetos que servem como estímulos perceptuais ao homem e ganham, então, valores contextuais. Para referenciá-los, esses passaram a se relacionar de modo metafórico ou metonímico com outros objetos de modo. Quando metafóricos, referente e referendado seriam tão semelhantes que são capazes até mesmo de formar uma mônada de significação, em que se fundem e se confundem esses dois elementos.

À guisa de conclusão

Não se pode pensar em um momento preciso da história do homem em que este passou a ser um ser homo narrans. Pode-se, sim, pensar em um processo paulatino e evolutivo desse desenvolvimento que ainda continua em expansão, pois, toda língua como objeto vivo tem sua concepção embrionária inicial, nasce, cresce e desenvolve-se, como todo e qualquer objeto que, ao desenvolver-se, multiplica-se ou é assimilado por outro mais poderoso. Ela transforma-se, mas jamais desaparece por completo, passando a presentificar-se em novos signos. Com a premente necessidade de viver em sociedade, o homem percebeu que os sons por ele produzidos, embora possuíssem diferenças de produção e recepção de indivíduo para indivíduo, poderiam, por abstração, tornarem-se comuns e comunicarem informações úteis ao bando.

Com a presença do objeto no espaço percebido impondo-se ao homem com sua forma e estrutura, como um estímulo exterior, a primeira apreensão deste se dá por iconicidade, ou seja, a similaridade entre objeto e sua representação, feita in loco, diante do objeto em si. Posteriormente, em relações interiores entre dois perceptos iconizados, percebe-se a possibilidade de interação metonínica entre eles, gerando os índices.

Assim, a linguagem verbal não é senão um produto do natural de relações de elementos de um sistema de objetos e a mente humana que os relaciona com os sons que produz com funções representativas, na presença ou ausência desses objetos. Certos conjuntos de sons, espécie de células desse organismo, foram, então, sendo relacionados com determinados objetos, como, por exemplo, os gritos-avisos ao demais membros da tribo da presença do predador ou da caça. Desse modo, nasce a relação som/objeto. Os fonemas aparecem como consequência desse mesmo ato diferenciador e criador de defasagem entre objeto e som, o que permitu o corte do cordão umbilical dos fonemas com os objetos representados. Desse modo, os signos são reais, a linguagem humana é inferencial, o homem se disse antropocêntrico e um ser divinizado, mas a tecnocentria ou ciborguecentria está mostrando como o homem é um ser muito próximo dos demais. E foi Peirce quem antecipou essa visão em sua teoria dos signos.

Bibliografia

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