busca no site


As estratégias sensíveis da comunicação bios midiática

Resumo/Abstract

Mapa de rede social gerado pelo aplicativo Nexus

Laura Fernanda Cimino

Resumo

O objetivo deste trabalho é possibilitar uma breve análise teórica das atuais estratégias comunicativas potencializadas pelo bios midiático – metáfora conceitual empregada por Muniz Sodré para designar a comunicação em tempo real e espaço contínuo –, e que devem implicar num outro paradigma epistêmico para os estudos da comunicação na contemporaneidade. Parte-se da hipótese de que os vínculos interativos expandidos pelo bios midiático desafiam a busca de outros modos de compreensão da ciência da comunicação, enquanto campo transdisciplinar, capaz de agenciar uma cartografia ecológica entre cultura e meio. Trata-se de estratégias cognitivas que promovem não a explicação das relações comunicativas, mas a compreensão sensível do complexo mecanismo entre códigos e nexos semióticos, emissores e receptores, sujeito e objeto do conhecimento, forma e conteúdo expandidos pelo contexto analógico-digital.

Palavras-chave: epistemologia; semiose; cognição; meios digitais

Abstract

This paper aims to allow a brief theoretical analysis of current communication strategies enhanced by media bios – conceptual metaphor used by Muniz Sodré to designate the communication in real time and continuous space –, that must involve a different epistemological paradigm for communication studies nowadays. We start the hypothesis that the bonds expanded by the interactive media bios challenge to seek other ways of understanding the science of communication, as a transdisciplinary field, capable of coordinating a mapping between culture and ecological environment. These are cognitive strategies that promote not the explanation of communicative relationships, but the understanding of the complex mechanism of sensive codes and semiotic connections, sender and receiver, subject and object of knowledge, form and content expanded by the analog-digital context.

Keywords: epistemology; semiosis; cognition; digital media

Artigo

O bios midiático como acontecimento científico da comunicação

As radicais mudanças que a ciência sofreu ao longo do século XX provocaram o advento de uma terceira revolução industrial, que maximizou os processos de mundialização econômica e cultural. A nova economia do conhecimento tende, na atualidade, a provocar o deslocamento dos saberes e dos recursos cognitivos para o centro da atividade humana na confecção de outras dinâmicas sociais. Com relação à comunicação, nossa questão se inscreve diante da necessidade de se conhecer aquelas inusitadas dinâmicas relacionais que passam a ser agenciadas pelo bios midiático enquanto novo objeto de investigação do campo comunicacional.

Entretanto, o que isso deve significar para uma ciência contemporânea da comunicação? De que tipo de conhecimento nós estamos falando? Isso implicaria uma epistemologia sensível do conhecimento comunicativo?

Configura-se uma nova dimensão psicossocial para o homem que, tendo a consciência moldada pelas grandes narrativas da Grécia clássica, vive agora a transformação da politeia em techné. Aos modos articulares de vida identificados por Aristóteles na Ética a Nicômaco – a vida comtemplativa (bios theoretikos), vida prazerosa (bios apolaustikos) e vida política (bios politikos) – pode-se acrescentar uma nova qualificação, uma quarta esfera: a vida midiatizada que inclui a realidade tecnológica do virtual. (SODRÉ, 2002: 160-161)

A comunicação mediatizada pelos meios digitais parece estar contribuindo, neste sentido, para a emergência de outros processos dialógicos e sociais característicos da semiose cognitiva entre a emissão e a recepção que acontece no ciberespaço. Tal agenciamento semiótico é capaz de produzir outras ordens discursivas, que se expandem pelas novas tecnologias da linguagem e que, ao mesmo tempo, provocam a renovação dos códigos da cultura que se ampliam e diversificam-se.

Portanto, como nos alerta Lucrécia D’Alessio Ferrara (2008), trata-se de outra epistemologia, que promove não a explicação das relações comunicativas, mas uma compreensão mais realista do complexo mecanismo entre códigos e nexos semióticos, que permite o trânsito de informações entre emissores e receptores de uma forma mais colaborativa e menos submissa que aquela apontada pelo modelo clássico das teorias da comunicação de massa. Ultrapassa-se a mera mecânica relacional e funcional de transmissão de conteúdos para se chegar ao vínculo comunicativo que reconhece que o comunicar diz respeito à operacionalização do meio enquanto mediação na construção das mensagens.

Se o bios midiático promove a autonomia da comunicação como área científica ao distanciá-la das ciências histórico-sócio-críticas, de um lado, introduz duas outras características que alteram o objeto científico e apresentam profundas decorrências epistemológicas. De um lado, temos o próprio nexo comunicativo e de outro, a rede mundial de informação. (FERRARA, 2008: 134)

Os novos agenciamentos semióticos, aliados à sua livre circulação na rede mundial de computadores (internet), podem representar uma meta-evolução dos processos de comunicação e, em consequência, uma epistemologia sensível entre os participantes do acontecimento comunicativo. Isso porque, ao se expandir o trânsito do sujeito emissor da mensagem, torna-se difuso o confronto com o “outro”. Outro que, anteriormente, parecia tão bem localizado pela abordagem funcionalista, por meio de uma eficiente prática de subjetivação subserviente.

Nesta nova abordagem, o “outro” passa a ser uma espécie de co-autor do processo de circulação da informação dentro da rede comunicativa. Do ponto de vista epistêmico, caminha-se da relação comunicativa enquanto objeto científico para a ambiguidade do vinculo comunicativo que, enquanto objeto, não se deixa definir nos seus limites, porque se processa na hibridização sígnica que decorre processualmente da natureza tecnológica, social e cultural. Uma epistemologia que se impõe “ir além do sujeito, mas que está sempre destinada a ficar aquém da dinamicidade do objeto” (FERRARA, 2003: 63). Tal fato coloca-nos diante de outros parâmetros epistêmicos que veem o bios midiático, apesar de sua indeterminação e fragilidades enquanto objeto de estudo, como um novo meio, potencialmente capaz de promover uma ciência ecológica da comunicação na contemporaneidade.

Mas como se dá a passagem da relação midiática para o nexo comunicativo? Ou ainda, o que transforma o signo enquanto transmissão de sinais informativos em semiose que produz sentido no ato da comunicação? Tal mudança parece ocorrer, exatamente, no caráter de mediação que supera a rigidez dos códigos mediados ou não por dispositivos tecnológicos, e investe sobre as relações que se estabelecem entre um emissor que, interagindo com o receptor, utiliza determinadas características do veículo selecionado para produzir informações específicas.

No pólo oposto desta troca, o receptor não apenas decodifica, mas transforma aquelas informações recebidas conforme as variações do seu repertório cultural. Tais variações atingem, ao mesmo tempo, o ponto de emissão e o pólo receptor e, nessa contaminação, como explica Ferrara (2003: 66), invadem o canal que se enfraquece enquanto código, para escrever estranhos e imprevisíveis capítulos da história da cultura. Ou seja, quando o meio é entendido para além de sua constituição exclusiva como canal de transmissão de informação, e transforma-se num elemento constitutivo da própria trama sígnica que se tece entre pólos complementares e interdependentes, a comunicação torna-se um acontecimento. Ou ainda, quando “o meio é mensagem” (McLUHAN, 1981), sua dimensão semiótica se revela e impõe a consideração do seu papel determinante na construção de estratégias discursivas e na sua interpretação, que vai da decodificação automática de sinais informativos à dimensão comunicativa propriamente dita, ou seja, aquela mediada pelo signo.

É necessário desnaturalizar, desmecanizar a percepção subjacente à relação emissor-receptor e perceber-lhes as estrias, diferenças e heterogeneidades sociais e culturais que deixam registrar semioticamente seus vínculos. A percepção destas heterogeneidades descaracteriza as continuidades lineares entre emissor-receptor ou entre sujeito e objeto cognitivo, respectivamente, ao contrário, nas suas diferenças, emissor e receptor se superpõem e se tangenciam, se atritam na troca constante de papéis em processo e em circularidade. (FERRARA, 2008: 6)

Desnaturalizar a comunicação significa considerá-la nos seus meandros semióticos, em duplo sentido. De um lado, a semiose tomada nas articulações sintáticas dos signos e, de outro, a análise do próprio processo de semiose em que se registra um amplo movimento de diálogo cultural. Mais compreensiva ou sensível do que propriamente explicativa, esta atenção semiótica promove a observação como estratégia metodológica indispensável à imprevisibilidade daquele processo. Essa estratégia faz o sujeito aderir às surpresas do objeto. Tal investimento manifesta-se através da análise do encadeamento dos signos e dos processos de semiose que acabam por gerar novos interpretantes, numa cadeia infinita, que correspondem ao processo contínuo de aprendizagem.

O caráter dialógico e social dos vínculos comunicativos

No artigo “O que é Pragmatismo” Charles S. Peirce esclarece a dinâmica do pensamento como produtor de signos, ou como semiose:

Há duas coisas importantes de que nos devemos certificar e lembrar. A primeira é que uma pessoa não é em absoluto um individuo. Seus pensamentos são o que ela está dizendo a si mesma, isto é, o que ela está assegurando a este outro eu que está neste momento surgindo no fluxo do tempo. Quando alguém raciocina é a este eu crítico que está tentando persuadir, e todo pensamento seja ele qual for é um signo, e é na maior parte das vezes da natureza da linguagem. A segunda coisa a se lembrar é que o circuito social de um homem (pois mais ampla e estritamente que esta frase possa parecer) é uma espécie de pessoa frouxamente compacta, sob alguns aspectos, de grau mais alto do que a pessoa de organismo individual. São tão somente estas duas coisas que tornam possível você distinguir entre a verdade absoluta e o de que você não duvida. (PEIRCE, 1977: 290)

É importante ressaltar que o pensamento, tal como exposto por Peirce, não faz apelo ao caráter imediato e evidente que, com frequência, é atribuído à ideia. Ao contrário, na perspectiva do pragmatismo peirceano, para o pensamento não é proposto nenhum fundamento absoluto, já que ele pode ser identificado com uma mensagem, uma fala ou uma transmissão. Do mesmo modo acontece quando afirmamos que “um corpo está em movimento e não que o movimento está no corpo; devemos dizer que, estamos em pensamento e não que os pensamentos estão em nós” (PEIRCE apud SILVEIRA, 2007: 46).

Decorre daí que todo pensamento deve ser interpretado, tão somente, no seu caráter dinâmico e contínuo; da mesma forma que qualquer sujeito não pode ser reduzido a nenhuma unidade absoluta e indivisível. Ou seja, na temporalidade irreversível e evolutiva do pensamento, o sujeito estabelece consigo mesmo um conjunto de relações assimétricas, na qual um eu passado representado por toda tradição procura assegurar, persuasivamente, a um eu presente que surge para a vida no fluxo do tempo, um modo consagrado de proceder. Trata-se de uma maneira de se relacionar com o mundo a partir de codificações instituídas por uma tradição que se inscreve na ordem genética ou linguística.

Desse modo, o eu presente que surge à vida no fluxo do tempo é um eu crítico. Ele julga a mensagem que um eu passado lhe apresenta e verifica o programa de conduta que o signo tende a impor para representar a tradição. A decisão do eu crítico torna-se, portanto, um programa de conduta para o futuro. Entretanto, devemos notar que, no contínuo temporal, o pensamento e a vida reproduzem-se continuamente, sendo que, aquele que no presente interpreta o passado acaba produzindo um novo signo ou um novo eu à tradição e que, por sua vez, será novamente criticado numa cadeia indeterminada rumo a uma evolução criativa. Esta constante e ininterrupta relação entre um eu presente e outro passado que se traduz no eu crítico é o que caracteriza a semiose enquanto atividade vinculativa dentro da lógica dialógica e social dos atos comunicativos.

Para Charles S. Peirce (1977), o que é válido para o indivíduo também o é para a sociedade. De tal sorte que, no pragmatismo de Peirce, o social não se opõe ao pessoal porque este não se reduz ao individual. Portanto, se todo pensamento se constitui na mediação dos signos, o mesmo processo dialógico verificado na interioridade do sujeito deverá se realizar socialmente. “Caberá, assim, à sociedade, em sua totalidade, interpretar os signos recebidos, renovar o seu significado e conferir conduta futura a direção capaz de orientar a si e às futuras gerações para os fins que escolher. Tal processo constitui-se na própria socialização do pensamento” (PEIRCE apud SILVEIRA, 2007: 48).

Contudo, tal processo de socialização não acontece sem a presença de forte tensão, pois se trata de singularidades constituídas que, na espessura vinculativa, reconhecem suas diferenças e intentam ultrapassá-las para o estabelecimento da comunicação. Tal acordo de opiniões não parte de um consenso intersubjetivo, mas de uma atitude dialógica que não se compraz nas sínteses interpretativas, mas, ao contrário, revela-se na sua incompletude. A indeterminação na produção do sentido pode ser compreendida como um processo evolutivo do qual faz parte todo sistema aberto que caminha em direção à razoabilidade irreversível das suas atualizações: o contínuo processo de aprendizagem do Ser.

O acontecimento comunicativo se revela na vinculação que valoriza a diferença e o dialógico entre alteridades. Ou seja, é na espessura vinculativa de natureza qualitativa e indeterminada que nos deparamos com as principais tendências epistemológicas contemporâneas, sobretudo aquelas de que falam Edgar Morin e Ilya Prigogine. “O conhecimento não pode ser reflexo do mundo, é um diálogo em devir entre nós e o universo. Nosso mundo real é aquele cuja desordem nunca poderá ser eliminada” (MORIN, 1999: 223).

As estratégias sensíveis da semiose comunicativa

Todo vínculo é originário e irredutível, e compreenderia aquilo que qualifica a ação de compartilhamento, ou seja, de pôr em comum, ou uma abertura sem restrições para com o outro. Todavia, tanto a abertura quanto a apreensão deste ser em comum por meio das trocas simbólicas acontece na sua natureza subjetiva, emocional, afetiva ou sensível. Isso porque toda ação vinculativa nasce de uma afecção, de uma vontade de ir ao encontro daquilo que é estranho e, até certo ponto, resultado das desventuras do acaso.

Como esclarece Muniz Sodré, a ideia de comum pressupõe o “estar junto” como condição fundamental para a construção dos sentidos. Entretanto, o princípio de “estar junto” não se efetiva pelo aglomerado físico de individualidades, mas pela sintonia sensível das singularidades ou pela “vinculação humana na pluralidade do comum” (2002: 69). Portanto, a insistência no vínculo e no comunitário levará ao entendimento da própria definição de compreensão:

Agarrar as coisas com as mãos, abarcar com os braços (do latim cum-prehendere), isto é, dela não se separar como acontece com o puro entendimento (do latim, in-tendere, penetrar) intelectivo, em que a razão penetra o objeto, mantendo-se à distância para explicá-lo. (SODRÉ, 2006: 68)

Tal movimento provoca a desestabilização daqueles hábitos consagrados pela tradição, em direção a novos horizontes de percepção e cognição diante da multiplicidade fenomênica. Segundo Muniz Sodré, o signo que é imprescindível à representação é tanto da ordem do inteligível quanto do sensível. De outro modo, o signo emerge da ordem do mundo que possibilita a sua representação, pois é a realidade que torna possível o processo de mediação. Portanto, “o que estiver além de qualquer possibilidade de ser representado não existe, conforme o quesito de identidade entre ser e ser cognoscível, evidenciado pelo Pragmatismo” (IBRI, 1992: 92).

Isso implica dizer que a linguagem é consciência, mas também é corpo. Assim, ao incorporar o sujeito dentro daquele movimento de abertura à alteridade, criam-se novos espaços vinculativos que se desdobram em outros caminhos para uma aprendizagem dialógica e social. É no diálogo com o “outro”, mediado pelas próteses sensíveis, mais do que, necessariamente, pela cognição racional, que se favorece a emergência de outras “potências do agir” (DELEUZE, 2002).

A dimensão sensível implica numa aproximação das diferenças – decorrente do ajustamento afetivo, somático entre as partes distintas de um processo, fadada à constituição de um saber que, mesmo sendo inteligível, nada deve à instrumentalidade crítico-instrumental do conceito ou às figuras abstratas do pensamento. Trata-se de um campo de operações singulares, sem causar dependência com o poder comparativo das equivalências ou sem a caução racionalista de um pano de fundo metafísico. Trata-se da potência sensível do sujeito ou do objeto. (SODRÉ, 2006: 11)

Sendo o affectus uma passagem de um estado para outro, ele se torna o principal responsável pelo estado de choque ou de perturbações na consciência, que possibilita o relativismo de determinadas crenças e o surgimento de emoções diversas que consagram, por sua vez, novas formas de perceber, agir e interpretar o mundo da vida. Entretanto, é importante diferenciar emoção e paixão, embora ambas se refiram, no grego, ao pathos ou paskhein. A paixão implica um estado emocional continuado ou durável, portanto, mais persistente do que o instantâneo abalo anímico da emoção.

Em relação às estratégias sensíveis da comunicação, as mídias e a propaganda, há algum tempo, já têm demonstrado que é possível instrumentalizar a dimensão dos afetos na construção de subjetividades que atendam às demandas de uma sociedade projetada para o consumo acelerado dos signos imagéticos. Através de técnicas administradas de produção de uma vontade não espontânea, constroem-se estratégias de produção de subjetividade maquínica pautada, principalmente, pelas novas exigências do mercado de consumo globalizado.

A comunicação, a informação, a imagem com todas as suas tecnologias – uma forma de conhecimento sem requisitos hierárquicos imprescindíveis à formação e à circulação do saber clássico – têm-se progressivamente imposto aos sujeitos da teoria e da prática como um pretexto para se cogitar outro modo de inteligibilidade social. Por quê? Porque a afetação radical da experiência pela tecnologia faz-nos viver plenamente além da era em que prevalecia o pensamento conceitual, dedutivo e sequencial, sem que ainda tenhamos conseguido elaborar uma práxis (conceito e prática) coerente com esse espírito do tempo marcado pela imagem e pelo sensível, em que emergem novas configurações humanas da força produtiva e novas possibilidades de organização dos meios de produção. (SODRÉ, 2002: 12)

Em contrapartida, o pensamento contemporâneo desenha-se para além das preocupações com os conceitos, com os conteúdos ou significados codificados pelo conhecimento fundamentado na tradição. Atualmente, ao contrário, valoriza-se aquela atividade cognitiva que é derivada de uma compreensão sensível dos fenômenos apreendidos por meio da experiência com o mundo vivido.

Assim, a experiência passa a ser interpretada como o “inteiro resultado cognitivo do viver; ela é o próprio curso da vida” (PEIRCE apud IBRI, 1992: 40). Neste sentido, a experiência é entendida como própria alteridade se manifestando, se confrontando e evoluindo no universo. Reside aqui a compreensão do Cosmo como alteridade, que não se reduz à perspectiva antropomórfica que exclui outras esferas que não a humana como partes integrantes do universo comunicativo.

Decorre disso que toda semiose e, em particular, aquelas advindas dos vínculos comunicativos, demonstram ser a manifestação de uma multiplicidade de expressões (odores, gestos, formas, paladares, imagens, silêncio, palavras). Cada uma destas manifestações deve ser valorizada na sua singularidade enquanto índices que apontam o quão complexa é a comunicação do Cosmos. O requisito essencial desta compreensão é o do vínculo que se estabelece com aquilo que se aborda com o outro e, no limite, com o próprio mundo. Comunicar, nesse sentido, é compartilhar nossa experiência com a alteridade.

Assim, o conhecimento torna-se um processo contínuo de desvelamento dos objetos, pessoas, afetos, natureza; enfim, tudo aquilo que nos atrai e nos provoca a conhecer o outro. Para Peirce, o objeto do signo é objeto de uma conduta que precisa ser alcançada e aceita pela comunidade dos interpretantes. Daí que norteamos nossa conduta no ato de conhecer alguma coisa pelo objeto daquilo que nos afeta e institui, em consequência, novos modos de comportamento diante da vida.

Bibliografia

DELEUZE, Gilles. Espinosa: filosofia prática. São Paulo: Escuta, 2002.

FERRARA, Lucrécia D´Alessio. Comunicação Espaço Cultura. São Paulo: Annablume, 2008.

_________. Epistemologia da comunicação: além do sujeito e aquém do objeto. In: LOPES, Maria Immacolata Vassalo de (org.). Epistemologia da Comunicação. São Paulo: Editora Loyola, 2003.

IBRI, Ivo. Kosmos noétos: arquitetura metafísica de Charles Sanders Peirce. São Paulo: Perspectiva, 1992.

McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1981.

MORIN, Edgar. Ciência com Consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica e Filosofia.  São Paulo: Cultrix, 1975.

_________. Semiótica. São Paulo: Editora Perspectiva, 1977.

SILVEIRA, Lauro F. B. Curso de Semiótica Geral. São Paulo: Guartier Latin, 2007.

_________. Semiose: diálogos e linguagem. Revista Galáxia. São Paulo, nº1, 2001, p.75-109.

SODRÉ, Muniz. Antropológica do espelho: uma teoria da comunicação linear e em rede. Petrópolis: Editora Vozes, 2002.

_________. As estratégias sensíveis: afeto, mídia e política. Petrópolis: Editora Vozes, 2006.

PDF

Download PDF

Tamanho: 583kb

  • RSS
  • email
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Google Bookmarks
  • LinkedIn
  • MySpace
  • Netvibes
  • StumbleUpon
  • Tumblr
  • Twitter