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Catarina Bessell: “ilustrar é criar relações”

Apresentação

Ilustração por Catarina Bessell

Catarina Bessell (São Paulo, 1984) é artista, designer e ilustradora, graduada em Arquitetura pela FAU/USP. Entre os seus clientes possui revistas, editoras e agências de comunicação como Revista Pesquisa FAPESP, Folha de S. Paulo, Valor Econômico, Editora Mol, Editora Abril, GettyImages, CooperVision, Siegel+Gale, entre outros. Ganhou menção honrosa no 25º concurso do cartaz para o Museu da Casa Brasileira, além de ter trabalhos publicados em blogs e revistas internacionais. E o mais importante, é apaixonada pelo que faz.

Fábrica de Signos

O desejo de trazer para semeiosis o trabalho de Catarina Bessell nos acompanha desde o primeiro contato com um de seus projetos – o Trabalho Final de Graduação apresentado pela ilustradora no curso de Arquitetura da FAU/USP. No site do TFG, já ao primeiro olhar, revelava-se um modo sensível e analítico de se aproximar de textos, temas e objetos. Materiais, cores, texturas, formas, narrativas, grafias, tudo ali se presta às passagens entre ideia e imagem. Convidada a ilustrar os artigos desta edição, partiu de Catarina a ideia de criar retratos dos autores segundo o conteúdo de cada texto. A expectativa inicial era a de que cada texto – e cada retrato – pedisse uma técnica diferente, que se relacionasse ao seu próprio conteúdo. E que o retrato fosse “uma forma de voltar a atenção ao homem em si, ao rosto humano como um signo a ser estudado, no caso, um signo a ser estudado por meio do próprio texto que ele ilustra”.

A entrevista a seguir foi realizada por email, entre 9 e 25 de agosto, quando Catarina estava em Berlim, para onde embarcou, segundo conta, “para mudar de ares, pesquisar outros artistas, museus, galerias, editoras”.

[Reuben da Cunha Rocha]

Uma coisa que chama a atenção é a variedade de materiais com que você trabalha. Queria saber se isso tem relação com algo que você afirma em seu site pessoal, de acreditar que cada trabalho requer seu próprio modo de pensar, uma solução específica. Pesquisar soluções também é pesquisar materiais?

A variedade de materiais não é um objetivo e sim o resultado de um processo e da vontade de buscar novas formas de expressão.

Eu acredito que todo bom trabalho começa com uma boa pergunta. E boas perguntas tanto podem ser complexas (“como transmitir essa sensação?”, “como relacionar texto e imagem?”) quanto podem ser simples, sinceras e, pra quem já passou por isso, agoniantes: “e agora, que raios eu ilustro?”, “por onde eu começo?”.

A pesquisa de materiais está incluída na pesquisa de respostas para essas perguntas iniciais, mas não resume o que é o processo como um todo. O material pode ser visto tanto como a cereja do bolo quanto como a ponta do iceberg. Mais do que pesquisar materiais eu pesquiso linguagens. O mais importante é como a linguagem adotada se relaciona com o texto e o que ela acrescenta à narrativa. Nesse sentido, a imagem é um novo texto a ser lido e, se fizermos uma comparação, os materiais estão para as imagens como as palavras estão para a linguagem verbal. Você pode criar estilos, neologismos, falar de forma mais rebuscada ou rude. De qualquer forma, são meios de expressão.

Claro que como essa mensagem será passada é importante, afinal existem mil maneiras de desenhar um pássaro, por exemplo. Assim como existem mil maneiras de usar um lápis de cor para desenhar um pássaro. É um processo de escolha e exclusão. O que importa e, por fim, o que guia todo o processo de pesquisa, é a relação entre essas duas narrativas: a das palavras e a das imagens.

Gostaria que você contasse um pouco do trabalho de criação das imagens para semeiosis, a ideia e seus processos. Acho importante dizê-lo ao leitor, pois houve um cuidado e ao mesmo tempo uma disposição experimental de conversar com os textos e autores, uma forma ao mesmo tempo sensível e analítica de se aproximar dos textos.

Ilustrar para semeiosis foi, definitivamente, sair da minha zona de conforto. Eu tinha dez textos, entre os quais nove eram (como se diz) cabeludíssimos, e um eu própria teria que escrever (a entrevista) numa linguagem na qual não estou nem um pouco acostumada a me expressar, que é a verbal. Fora isso, o desafio era criar uma relação entre cada imagem e texto, e, ao mesmo tempo, uma unidade no conjunto de imagens para os textos, de forma a mostrar um pouco do meu trabalho, que foi um dos motivos pelo qual vocês me chamaram.

A ideia de criar um mural de “retratos” veio dessa tentativa de criar uma unidade e do próprio formato das imagens do site.

O espaço pequeno a ser preenchido com a imagem, quase do tamanho de um thumbnail, foi definidor. O thumbnail é um formato reduzido ou recortado de uma imagem, usado na internet, para facilitar a procura e o reconhecimento de conteúdos. Além disso, ele é usado hoje, em sites de relacionamento, como um ícone pessoal. Minha intenção foi transformar a página inicial num verdadeiro mural de ícones pessoais, semelhante àquelas paredes lotadas de retratos de familiares. Paredes cheias de história por trás das imagens, cheias de conteúdo.

Mas eu não poderia fazer um retrato fiel dos autores, porque tudo o que conhecia deles eram os textos que me foram passados. Nesse sentido, então, me veio a ideia de criar retratos cegos dos autores, com base no conteúdo dos textos. Tudo o que eu sei sobre os autores são os textos que li e, dessa maneira, o único modo de imaginar seus rostos – de me relacionar com eles – é através dos textos. Esse foi o ponto de partida. O fato de eles serem animados é uma exploração do próprio meio em que estão inseridos. Afinal, eles não estão de fato na parede de um corredor, mas num mural virtual, o que abre novas possibilidades de experimentação.

Gostaria que você falasse sobre seu Trabalho Final de Graduação na FAU. Embora na home do trabalho esteja bastante claro o processo de criação de cada uma das parte e etapas, tenho muita curiosidade de saber do início da ideia, de como aquele projeto se construiu.

Meu trabalho de TFG foi, sem querer ser piegas (mas sendo), feito de paixão. Eu cursei a Faculdade de Arquitetura em cinco anos e meio, e já no segundo ano sabia que arquitetura não era, vamos dizer, a minha praia. Mas sabia o quão importante era ter em mim o raciocínio de projeto, no sentido mais amplo que a palavra disegno tem. Além disso, sempre tive a ideia de ficar um tempo no exterior depois de formada (cá estou em Berlim), para mudar as perspectivas, lavar os olhos. Eu queria viajar pelos olhos de outras pessoas antes de viajar com meus próprios olhos. Meu TFG foi, então, a união dessa vontade de viajar com a paixão, descoberta na FAU, da criação de imagens.

Junto ao meu orientador, escolhi quatro narrativas sobre cidades a que eu nunca tinha ido (com exceção de Berlim). Quatro narrativas de pessoas estrangeiras aos lugares e que, portanto, estavam muito mais sensíveis àquelas cidades do que moradores com a visão já “viciada” (com exceção, novamente, de Berlim). Dessa forma, eu não poderia ilustrar São Paulo, pois estou completamente inserida ali.

O processo foi longo, difícil, mas muito prazeroso. Eu comecei com a leitura dos textos e depois parti (ou melhor, mergulhei) para a pesquisa e a criação das imagens. E durante o processo me dei conta de que não estava sendo nada fiel aos textos, no sentido de não estar traduzindo em imagens as palavras. Eu estava criando uma narrativa própria. Na realidade, tomando os textos como um ponto de partida da minha própria viagem. Isso foi tão esclarecedor que mudou completamente a minha forma de enxergar o trabalho de ilustrar. Ilustrar não é simplesmente criar imagens, mas criar relações. E uma vez criada uma relação, as possibilidades de expressão são infinitas a ponto de tornarem o trabalho de ilustrar um trabalho, também, de exclusão e escolhas.

Meu TFG foi um ponto de partida. Foi o ponto de partida para a viagem que estou terminando agora (em Berlim), e para algo que sou completamente apaixonada em fazer, que é a criação de imagens.

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