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Deleuze e a semiótica crítica

Resumo/Abstract

Imagem: Marina Kanzian

Alexandre Rocha da Silva.

André Corrêa da Silva de Araujo

Jamer Guterres de Mello

Marcelo Bergamin Conter

Resumo

Este artigo revisita a obra de Gilles Deleuze procurando identificar os pontos de passagem de uma semiótica formal a uma semiótica política. Trata-se de um sentido de imanência radical que indica a univocidade do ser como o dispositivo por excelência que faz de sua semiótica uma semiótica crítica. Buscamos verificar de que maneira Deleuze contribui para que se pense esta semiótica crítica a partir do debate que faz sobre o estruturalismo, os regimes de signos, a estratificação da linguagem, o sentido e os planos de consistência e de imanência. Desta forma, tentamos mostrar a importância de uma ideia de máquina abstrata que não se reduz nem aos possíveis previstos pelas estruturas nem às formas realizadas dos objetos ou dos sujeitos, mas que afirma a potência de um virtual que se diferencia de si explorando línguas menores, devires inauditos, desterritorializados.

Palavras-chave: Deleuze; semiótica crítica; máquinas abstratas

Abstract

This paper revisits the work of Gilles Deleuze, seeking to identify the passage from a formal semiotics to a political one. It is the sense of a radical immanence that indicates the univocity of being as the device par excellence that makes his semiotics a critical one. We identify the way that Deleuze contributes to think this critical semiotics from the debates he brings about  structuralism, regimes of signs, stratification of language, sense and consistence and immanence plans. Therefore, we pretend to show the importance of the idea of an abstract machine that is not reducible neither to the possibles predicted by the structures, nor the forms actualized by the subjects or objects, but which affirms the forces of a virtual that differentiates from itself, exploring minors languages, unprecedented becomings, deterritorialized.

Keywords: Deleuze; critical semiotics; abstract machines

Paper

Introdução

“A linguagem é caso de política antes de ser caso de linguística” (DELEUZE, GUATTARI, 1995a: 97)

Em O escavador de silêncios (2004), Ciro Marcondes Filho identifica a obra de Jacques Derrida e de Gilles Deleuze como uma espécie de semiologia crítica. Antes, em Mil Platôs (1995), Deleuze e Guattari afirmaram: “A linguagem é caso de política antes de ser caso de linguística” (1995a: 97). É na perspectiva do desenvolvimento de tais ideias que o experiência estruturalista (e pós-estruturalista), pensadas ora por Deleuze ora por Deleuze e Guattari ao longo de suas carreiras.

O debate específico de questões semióticas ligadas ao estruturalismo, na obra de Deleuze, aparece especialmente em A lógica do sentido (1998), Proust e os signos (2003b), Espinosa e o signo (1989), Foucault (1988b), Conversações (1994), Diferença e repetição (1988a), A ilha deserta (2005) e Mil Platôs (1995b), este último escrito com Félix Guattari.

Este artigo revisita a obra do filósofo francês para identificar os pontos de passagem de uma semiótica formal a uma semiótica política; esta, diferentemente de como a preconizava Saussure (1993), ocupada com a vida dos signos no seio da vida social, ocupa-se da vida não reduzida a sua perspectiva antropocêntrica, mas da vida como critério fundante da imanência. Em seu último texto, Gilles Deleuze (2003a) identifica a imanência com a vida, cuja ação emergem, por processos de diferenciação, todas as formas conhecidas, estejam elas latentes, como sistemas de regras ou gramáticas, ou manifestas em textos das mais variadas modalidades semióticas (sonora, visual ou verbal).

Este sentido de imanência radical presente na obra de Deleuze e discutido por Alain Badiou (1997) indica a univocidade do ser como o dispositivo por excelência que faz de sua semiótica uma semiótica crítica. Deleuze nega a universalidade das estruturas e das gramaticalidades para afirmar a ação do ser como produtora/criadora inclusive das estruturas estudadas pela semiótica clássica.

Neste artigo, verificaremos de que maneira Deleuze contribui para que se pense esta semiótica crítica a partir do debate que faz sobre o estruturalismo, os regimes de signos, a estratificação da linguagem, o sentido e os planos de consistência e de imanência.

Qual estruturalismo?

Eduardo Prado Coelho alerta que não existe “um” estruturalismo, mas estruturalismos (1968: VI). Em seu artigo já clássico Introdução a um pensamento cruel: estruturas, estruturalidade, estruturalismos, afirma que o estruturalismo de Lévi-Strauss é bem diferente do de Greimas, de Barthes ou de Lacan; porém, entre todos os autores que de maneira mais direta ou indireta operaram à luz do estruturalismo, prevalece sempre o primado da relação sobre o ser. Esta foi a grande virada estrutural que permitiu a Greimas (1971: 28) afirmar que o mundo toma forma diante de nós porque somos capazes de perceber diferenças que necessariamente são reconhecidas entre, pelo menos, dois termos simultâneos.

Tal concepção de diferença funda o estruturalismo semiótico descrito por Barthes (1996) em dois vieses: o da significação e o do valor. Enquanto a significação ocupa-se das relações entre os planos de expressão e do conteúdo na produção do signo, o valor confere à diferença a condição essencial à produção do sentido. Não há significação possível se não houver diferença.

Deleuze problematiza ambos os vieses. Para ele, a significação integra exclusivamente apenas um entre os diversos regimes de signos – o regime significante – e a diferença entre os termos (por exemplo, a diferença entre o P e o B nos sintagmas “bato”e “pato”) constitui-se apenas em uma diferença de grau. Há outra mais profunda que emerge da univocidade do ser, do não sentido, e que, por diferenciação de si, atualiza-se. Esta é a diferença por excelência para Deleuze e a que garante a possibilidade de uma semiótica crítica.

A univocidade do ser é uma das figuras do virtual, que, para Deleuze

[...] tem uma realidade que lhe é própria, mas que não se confunde com nenhuma realidade atual, com nenhuma realidade presente ou passada; ele tem uma idealidade que lhe é própria, mas que não se confunde com nenhuma imagem possível, com nenhuma idéia abstrata. Da estrutura, diremos: real sem ser atual, ideal sem ser abstrata (2005: 250).

Assim, é desde a perspectiva da virtualidade que Deleuze pensa a estrutura: “real sem ser atual, ideal sem ser abstrata”. Para o filósofo, a estrutura existe e opera por processos de diferenciação, criando sempre novos atuais que podem se expressar tanto como possíveis quanto como reais. Segundo Bergson, intercessor de Deleuze, “o artista cria o possível ao mesmo tempo que o real quando executa sua obra” (2006: 118).

Em Diferença e repetição (1988a: 339-42), Deleuze problematiza as relações entre o possível, o real, o virtual e o atual. Para ele, não se pode confundir o virtual com o possível. O possível (que de forma recorrente é pensado como estrutura nos termos de uma semiótica tradicional) designa o conjunto das possibilidades de realização. Teríamos como exemplo as regras de seleção e de composição, as gramáticas, o próprio conceito saussureano de língua. Entre o possível e o real (a que preferimos chamar de realizado) haveria apenas diferenças de grau (em termos bergsonianos), uma vez que o realizado estaria contido no possível que, por sua vez, deveria ser capaz de descrever e de delimitar respectivamente as potencialidades e os limites do realizável. Entre o possível e o realizado, tornam-se pertinentes os esforços semióticos e linguísticos operados desde Saussure para dar conta, por exemplo, das condições de produção. O que tal par não consegue problematizar são as condições de criação que, segundo Deleuze, operam no par virtual-atual. Entre ambos, há diferenças de natureza, porque o virtual, ao se atualizar, difere de si, desloca-se do tempo puro que o caracteriza para circunscrever-se em coordenadas espaço-temporais. A ação do virtual – que é da ordem da univocidade do ser – leva à maior radicalização da ideia de que todo o sentido provém do não sentido. O não sentido aqui pertence não a um regime de signos, mas ao plano de consistência que articula como máquina abstrata funções de diferenciação da matéria.

É na descrição do funcionamento desta máquina abstrata que se poderia reconhecer em Deleuze o primeiro parâmetro de uma semiótica crítica.

Da estratificação da linguagem à máquina abstrata

O funcionamento semiótico da máquina abstrata fica mais claro à luz das teses hjelmslevianas a respeito da estratificação da linguagem. Deleuze referia-se a Hjelmslev como o príncipe espinosista da linguagem, justamente por ter conseguido descrever, de forma imanente, os modos como se articulam matéria, forma e substância tanto em termos de expressão quanto de conteúdo.

Em Ensaios linguísticos (1991: 57-8), Hjelmslev afirma que

a distinção entre conteúdo e expressão é superior à existente entre forma e substância, de tal modo que, no decurso da análise, a bifurcação que conduz a separar a hierarquia constituída pelo plano do conteúdo e a constituída pelo plano da expressão se encontra em um estágio anterior à que separa forma e substância. [...] A distinção entre conteúdo e expressão é a primeira encruzilhada, a de forma e substância a segunda, e a distinção entre forma e substância está, portanto, subordinada à existente entre os planos.

Tal hierarquização também ocorre no nível das substâncias formadas. Hjelmslev reconhece três: apreciação coletiva, sociobiológica e informativa. Para ele, o único nível que tem de fato importância semiótica é o de apreciação coletiva, justamente por dar conta do corpo de doutrina e de opinião adotado nas tradições e usos da sociedade considerada. Tal indicação o afasta de Deleuze, que não credita às perspectivas antropomórficas quaisquer privilégios.

Hjelmslev ainda admite a possibilidade da observação de outras estratificações cujas formas não-semióticas seriam elaboradas por diferentes disciplinas. Portanto, as abordagens semióticas e não-semióticas para Hjelmslev devem ser feitas independentemente uma da outra, de tal modo que as formas produzidas pelas disciplinas não-semióticas sirvam, em outro contexto, como substâncias de novas formas semióticas. Isso implica reconhecer que a formação semiótica é arbitrária, isto é, “se baseia não no sentido [matéria], mas no próprio princípio da forma e nas possibilidades que decorrem de sua realização” (HJELMSLEV, 1961: 80). Para Hjelmslev, a relação de origem saussereana entre significante e significado não era satisfatória, pois criava uma ilusão de distinção entre forma e conteúdo. Ainda para o autor, a linguagem se organizava similarmente entre dois polos – expressão e conteúdo –, porém ambos constituídos de forma e substância, a primeira recortando a segunda de um contínuo que tratava por matéria.

Deleuze e Guattari atualizam o sistema de Hjelmslev em consonância com o seu próprio sistema. O que Hjelmslev tratava por matéria, para Deleuze e Guattari é plano de consistência, “quer dizer, o corpo não-formado, não organizado, não estratificado ou desestratificado (…), partículas subatômicas, intensidades puras, singularidades livres, pré-físicas e pré-vitais” (DELEUZE, GUATTARI, 1995a: 75). Para os autores, ao contrário de Hjelmslev, que defendia o primado da forma, a estratificação da linguagem é possível porque a matéria (plano de consistência) diferencia-se de si organizando a multiplicidade própria do plano de consistência, desacelerando suas forças e formando os estratos. A função dos estratos, portanto, é “formar matérias, aprisionar intensidades ou fixar singularidades em sistemas de ressonância e redundância, constituir moléculas maiores ou menores no corpo da terra e incluir essas moléculas em conjuntos molares” (DELEUZE, GUATTARI, 1995a: 70). Tais estratos, também em desacordo com Hjelmslev, não se limitam à atividade humana propriamente dita, pois operam de maneira similar em diferentes registros: o estrato físico-químico, o orgânico e o antropomórfico.

O modo de organização de tais estratos segue uma lógica que, de acordo com Deleuze e Guattari, é de codificação e territorialização, ou, mais especificamente, dentro do sistema de Hjelmslev, de forma e substância. “As substâncias não passam de matérias formadas. As formas implicam um código, modos de codificação e descodificação” (DELEUZE, GUATTARI, 1995a: 71). Ou seja, a matéria é recortada como substância pela forma. A substância diz respeito à territorialidade de um dado estrato, e a forma é o que codifica tais territórios.

Tal relação entre matéria, forma e substância – fundamento dos processos de estratificação – são sobrecodificadas pela dupla articulação entre os planos de expressão e de conteúdo. Essa dupla articulação, Deleuze e Guattari vão dizer, é o modo como as formas e as substâncias incidem sobre o plano de consistência: “A primeira articulação escolheria ou colheria, nos fluxos-partículas instáveis, unidades moleculares ou quase moleculares metaestáveis (substâncias) às quais imporia uma ordem estatística de ligações e sucessões (formas)” (DELEUZE, GUATTARI, 1995a: 71). Essa primeira articulação é denominada de plano do conteúdo, com sua forma e substância correspondentes. “A segunda articulação instauraria estruturas estáveis, compactas e funcionais (formas) e constituiria os compostos molares onde essas estruturas se atualizam ao mesmo tempo (substâncias)” (DELEUZE, GUATTARI, 1995a: 71). Essa segunda articulação é o plano da expressão, também constituído de forma e substância próprias.

Portanto, os estratos são formados por uma dupla articulação entre conteúdo e expressão, cada um deles operando na relação entre matéria (plano de consistência), forma (códigos) e substâncias (territorialidades). É preciso compreender também o caráter duplo de tais articulações, ou seja, que “não há uma articulação de conteúdo e uma articulação de expressão sem que a articulação de conteúdo seja dupla por sua própria conta e, ao mesmo tempo, constitua uma expressão relativa no conteúdo” (DELEUZE, GUATTARI, 1995a: 76) e vice-versa. O que Deleuze e Guattari propõem é um rompimento com a noção saussureana de signo, transformando em instável a relação entre ambos os termos. Em resumo, os autores dizem que “encontramos formas e substâncias de conteúdo que têm um papel de expressão em relação a outras, e inversamente quanto à expressão” (DELEUZE, GUATTARI, 1995a: 76).

É nessa perspectiva da instabilidade que vão pensar as séries, tão relevantes para a elaboração de uma semiótica crítica. Deleuze, em A lógica do sentido (1998: 53-4), afirma:

1º. “São necessárias, pelo menos, duas séries heterogêneas, das quais uma será determinada como ‘significante’ e a outra como ‘significada’ (nunca uma única série basta para formar uma estrutura)”. Tal observação, ainda que inspirada pela semiologia saussureana, evidencia um deslocamento em relação ao linguista: ao tratar o significante e o significado como séries heterogêneas, reconhece a possibilidade de inversão de funções dependendo do jogo estrutural em que se insiram.

2º. “Cada uma destas séries é constituída por termos que não existem a não ser pelas relações que mantêm uns com os outros. A estas relações, ou antes, aos valores destas relações, correspondem acontecimentos muito particulares, isto é, singularidades designáveis na estrutura [...]”. Ao retomar o primado da relação que une todos os estruturalistas e os pós-estruturalistas, Deleuze avança ao retomar aqui os movimentos territorializantes que levam o não-sentido ao sentido. O autor entende que o sentido emerge do não-sentido, e que a produção de um sentido novo é capaz de movimentar a estrutura, de torná-la mais complexa. É pelo agenciamento de traços sem quaisquer significações (a casa vazia) que o sentido se faz possível. Ele é o expresso da proposição, é o que designa o resultado de uma mistura de corpos, ou seja, o acontecimento. Logo, não pode ser reduzido nem à matéria, como queriam os semiólogos, nem às proposições: ele é um quase-corpo que só tem existência no jogo dos agenciamentos corporais (o que inclui as linguagens).

3º. “As duas séries heterogêneas convergem para um elemento paradoxal, que é como o seu ‘diferenciante’. Ele é o princípio de emissão das singularidades. Este elemento não pertence a nenhuma série, ou antes, pertence a ambas ao mesmo tempo e não pára de circular através delas”. Deleuze avança, assim, rumo a uma lógica propriamente dita do sentido que, para ele, seria o dispositivo que expressa o acontecimento. Efeito, portanto, a um só tempo da mistura de corpos e das três funções clássicas da proposição: a manifestação, a designação e a significação.

Ficam evidentes nas observações acima os vínculos e os deslocamentos promovidos por Deleuze em relação à semiologia saussureana. Entre os deslocamentos, destacamos a noção de agenciamento maquínico. As articulações de conteúdo e expressão são agenciamentos que fazem funcionar o plano de consistência. Os agenciamentos de conteúdo estão ligados aos regimes dos corpos, e os de expressão aos regimes de signos. Desse modo, nos deparamos com uma situação que Deleuze e Guattari descrevem da seguinte forma:

Por conteúdo não se deve apenas entender a mão e as ferramentas, mas uma máquina social técnica que a elas preexiste e constitui estados de força ou formações de potência. Por expressão não se deve apenas entender a face e a linguagem, nem as línguas, mas uma máquina coletiva semiótica que a elas preexiste e constitui regimes de signos” (1995a: 101).

O termo agenciamento maquínico, portanto, se refere àquilo que é realizado por meio de tais agenciamentos. Máquina social técnica no caso do conteúdo e máquina coletiva semiótica no caso da expressão. Essa máquina é necessariamente efetuada pelos agenciamentos que atualizam as intensidades do plano de consistência nos estratos. Mas o modo de atuação de tal plano só pode ser compreendido a partir de um processo de diagramação da máquina abstrata.

A máquina abstrata, portanto, opera numa dupla relação: primeiro, ela determina de que forma se comportam os agenciamentos, sendo o termo intermediário entre o plano de consistência e o estrato; segundo, ela determina como tal máquina é realizada pelos agenciamentos. É a partir da descrição destes agenciamentos – coletivo de enunciação e maquínico do desejo – que se pode compreender o que é essa máquina abstrata: um diagrama dos agenciamentos, que, por sua vez, operam de acordo com o plano de consistência por sua mediação.

O conceito de máquina abstrata surge, assim, como um complemento para o de agenciamento maquínico, tanto de expressão como de conteúdo. Como dizem Deleuze e Guattari,

é necessário chegar, no próprio agenciamento, a algo que é ainda mais profundo do que essa faces (conteúdo e expressão), e que dá conta ao mesmo tempo das duas formas em pressuposição: formas de expressão ou regimes de signos (sistemas semióticos), formas de conteúdo ou regimes de corpos (sistemas físicos). É o que denominamos máquina abstrata, sendo que esta constitui e conjuga todos os picos de desterritorialização do agenciamento (1995b: 103).

Nesse ponto, poderíamos então propor que a tarefa de uma semiótica crítica é compreender o modo de efetuação dessa máquina abstrata por meio de seus agenciamentos coletivos de enunciação e maquínicos do desejo. É desta maneira – e por meio destes dispositivos – que Deleuze e Guattari demonstram ser a linguagem antes uma questão de política que de linguística.

Deleuze, as proposições e o sentido

Conforme verificamos anteriormente, em Deleuze e Guattari há dois eixos em que se desenvolvem os agenciamentos. No eixo horizontal encontram-se os agenciamentos maquínicos do desejo, ligados aos corpos ou ao plano do conteúdo, e os agenciamentos coletivos de enunciação, ligados à linguagem ou ao plano de expressão; no eixo vertical, os procedimentos de territorialização, desterritorialização e reterritorialização.

Para Hjelmslev, o problema do sentido é apenas indiretamente semiótico, uma vez que, indeterminado, ele depende da forma para adquirir relevância analítica. “Numa ciência que evita qualquer postulado não necessário, nada autoriza que se faça preceder a língua pela ‘substância do conteúdo’ (pensamento) ou pela ‘substância da expressão’ (cadeia fônica)” (1961: 55). Assim, o sentido, que apareceria provisoriamente como uma massa amorfa, na perspectiva hjelmsleviana não pode, de maneira alguma, ser considerado independente das formas que o articulam. Deleuze aproxima-se, em parte, desta perspectiva ao dizer que o sentido é o expresso da proposição, não se confundindo, de um lado, com a significação, a manifestação ou a designação, nem com os corpos ou mistura de corpos, por outro. O que o sentido expressa são os acontecimentos, estes, resultados da mistura de corpos.

Entre Hjelmslev e Deleuze, entretanto, há diferenças de enfoque. O primeiro trata o sentido como secundário em relação à semiótica e o segundo, simultaneamente, como o expresso das proposições e dotado de um poder genético capaz de fazer proliferar as proposições. No cruzamento dessas perspectivas encontram-se articulações possíveis entre comunicação e semiótica e percebem-se as possibilidades de se fundar estudos de comunicação sobre uma lógica do sentido, como queria Marcondes Filho (2007) em Até que ponto de fato nos comunicamos?.

Deleuze busca nos estoicos uma condição paradoxal do sentido e encontra em Alice (Lewis Carroll) a encenação pura destes paradoxos. Preocupa-se em investigar como a irrealidade dos acontecimentos (em Alice) se comunica ao saber e às pessoas por meio da linguagem (1998: 3). Para tanto, necessita da afirmação do paradoxo enquanto devir ilimitado como contraponto ao bom senso como sentido único e também ao senso comum como designação de identidades fixas (1998: 3). Interessa a ele o uso dos paradoxos como instrumento de análise da linguagem, mas também na exterioridade dos acontecimentos enquanto efeitos incorporais.

Deste modo, Deleuze nos remete a uma dualidade entre corpos ou estado de coisas e efeitos ou acontecimentos incorporais que se opõe a uma concepção platônica de profundidade. Ou melhor, o acontecimento enquanto efeito é “alguma coisa” intrínseca a essa dualidade (1998: 8) expressa como sentido. Assim, a proposição assume importância fundamental na relação entre os acontecimentos e a linguagem, pois os acontecimentos são expressos pelo sentido que, por sua vez, é o exprimível da proposição, esta composta por três dimensões: a designação, relação da proposição a um estado de coisas exteriores; a manifestação, relação da proposição ao sujeito que fala ou que se exprime; e a significação, relação entre os planos de expressão e de conteúdo (1998: 13-15).

A designação estabelece relações entre as proposições e um estado de coisas que lhes são exteriores, podendo corresponder à função informativa da comunicação. Segundo Benveniste, o vínculo é estabelecido por indicadores formais – como, por exemplo, os nomes próprios, “únicos a formar singularidades propriamente materiais” (apud DELEUZE, 1998: 14), os pronomes pessoais e os demonstrativos de tempo e de lugar – que têm o papel de puro designantes de singularidades.

Cabe observar que tais indicações, como foi mencionado acima, correspondem a um estado de coisas particular e não a conceitos universais. Assim, entre todas aquelas ‘coisas’ passíveis de serem representadas por uma palavra, torna-se necessário selecionar aquela que corresponde à proposição manifesta.

Essa correspondência tem como parâmetro o verdadeiro e o falso; sendo que o primeiro corresponde à adequação entre proposição e estado de coisas representado e o segundo a sua inadequação.

Deve-se salientar que a designação é apenas uma das relações que integram a proposição, e que a exclusão das demais configura o mecanismo ideológico responsável pela redução da linguagem e, consequentemente, das comunicações a meros instrumentos de ligação das palavras às coisas; sendo as ‘coisas’ determinantes para que o tornar comum se estabeleça.

Retomando as relações da proposição identificadas por Deleuze, identifica-se, também, a manifestação. Trata-se da relação da proposição com o sujeito que se exprime. Do lado do estado de coisas, tem-se a crença de que os objetos estão à espera de articulações que lhes confiram existência; do lado dos sujeitos, tem-se o desejo de produção de um signo que corresponda a um determinado estado de coisas. Segundo Gilles Deleuze “Não concluiremos que a manifestação seja secundária relativamente à designação: ao contrário, ela a torna possível e as inferências formam uma unidade sistemática da qual as associações derivam” (1998: 14).

Ao se observarem as manifestações, convém salientar que os sujeitos são identificados não apenas como aquele que fala ou que se exprime. Sua constituição é de outra natureza, híbrida, envolvendo aquele que fala, mas também as tecnologias que não são apenas instrumentos a serem utilizados por um indivíduo qualquer, mas linguagens que reconfiguram a própria natureza desses sujeitos.

A terceira relação da proposição é a significação; essa, responsável pelo estabelecimento de ligações entre planos: o da expressão e o do conteúdo, os quais, como signos, podem remeter sempre a outras proposições, capazes de servir de premissas à primeira. Tal cadeia não estabelece, como a designação, uma relação direta entre a proposição e o estado de coisas, mas age por procedimentos indiretos, referindo-se, sempre, a outras proposições das quais ela é concluída ou, inversamente, cuja conclusão ela torna possível.

De tal mecanismo não se podem inferir verdades ou falsidades, mas se podem estabelecer as condições de produção dos discursos verdadeiros. Condições essas que não têm como oposição, por irrelevância, a falsidade, mas o absurdo, o que não pode ser nem verdadeiro nem falso.

Em seu artigo A procura do lugar da significação, Ione Bentz (1990: 47-8) distingue o mundo dos objetos do mundo dos objetos-signo, considerando aquele como o lugar da não-significação, da manifestação do sensível, caracterizado por ser contínuo, e este como o lugar da significação, do sensível, de natureza discriminatória, abrangendo desde a percepção (não-linguística), até os padrões perceptivos e a discriminação como resposta (lugares linguísticos).

Opõe-se ao mundo dos objetos e dos objetos-signo o mundo da significação em que tem lugar o sentido humano, articulado, marcado pela descontinuidade. “Este traço de especificidade seria compreendido pela capacidade de articular hipóteses e padrões em processo de abstração capaz de ser repetido em situações similares e de ser alterado em função de novos elementos inseridos no processo” (1990: 48).

Sobre essas implicações, Deleuze comenta que “da designação à manifestação, depois à significação, mas também da significação à manifestação e à designação, somos conduzidos em um círculo que é o círculo da proposição” (1998: 17-18).

Assim, retorna-se à questão que mais nos interessa, a necessidade de acrescentar uma quarta dimensão à proposição: o sentido. Com efeito, rompendo-se o círculo vicioso das três dimensões ordinárias da proposição, temos a condição de verdade no sentido e não mais na significação. Portanto, se o sentido não está na significação, não é atributo da proposição. Ao mesmo tempo, o sentido não existe fora da proposição que o exprime, nem se assemelha a ela. O sentido não qualifica nem constitui um ser.

Definido, portanto, aquilo que o sentido não é, podemos agora nos perguntar o que é então o sentido. Segundo Deleuze, o sentido é o atributo da coisa ou do estado de coisas. Isso implica considerar o sentido enquanto verbo, ou melhor, enquanto acontecimento expresso pelo verbo. É algo “extra-ser”, como define Deleuze:

É, exatamente, a fronteira entre as proposições e as coisas. É este aliquid, ao mesmo tempo extra-ser e insistência, este mínimo de ser que convém às insistências. É neste sentido que é um “acontecimento”: com a condição de não confundir o acontecimento com sua efetuação espaço-temporal em um estado de coisas. Não perguntaremos, pois, qual é o sentido de um acontecimento: o acontecimento é o próprio sentido. O acontecimento pertence essencialmente à linguagem, ele mantém uma relação essencial com a linguagem; mas a linguagem é o que se diz das coisas (1998: 23).

O sentido, considerado como quarto incorporal da proposição, é o exprimível, o que se diz ou o que se afirma das coisas e não a coisa em si ou sua essência. É meramente um dizível. O sentido é acontecimento puro e, como tal, constitui-se em mais um elemento relevante para se configurar a semiótica crítica.

A semiótica como questão de política

Da mesma forma como operaram em relação aos estratos e às proposições, Deleuze e Guattari partem da situação em que se encontram os estudos semióticos para desconstruí-los rumo à esquizoanálise (ou pragmática). Seguindo os autores, percebemos que a semiótica tem definido seu objeto de estudo a partir do par possível/real anteriormente apresentado neste artigo, e deixado todas as questões relativas ao par virtual/atual de fora de suas problemáticas; o que faz dela uma ciência fortemente descritiva. Verificamos também que este mesmo procedimento pode ser encontrado tanto nas abordagens de Hjelmslev (apresentadas anteriormente neste artigo) quanto nas de Peirce.

Assim, ao pensarem a semiótica, Deleuze e Guattari reconhecem diferentes regimes de signos (significantes, pré-significante, contras-significantes, pós-significante) que a constituem. Para eles, um regime de signo deve ser definido como qualquer formalização de expressão específica. Essas formalizações de expressão, sempre mistas, não são autônomas, conforme já verificamos ao discutirmos as séries de expressão e de conteúdo. À descrição das diferentes formalizações, os autores propõem que se acrescente o estudo da máquina abstrata que as colocam politicamente em funcionamento.

É por esta razão que a chave para que se pense uma semiótica crítica à luz de Deleuze está, como tentamos demonstrar ao longo deste artigo, na ideia de uma máquina abstrata que não se reduz nem aos possíveis previstos pelas estruturas nem às formas realizadas dos objetos ou dos sujeitos, mas que afirma a potência de um virtual que se diferencia de si explorando línguas menores, devires inauditos, desterritorializados.

Tal dimensão – ausente nos estudos semióticos tradicionais que Deleuze denuncia como circunscritos aos regimes de signos – foi aqui problematizada a partir do modo como o filósofo francês reconhece a estrutura como uma virtualidade; as estratificações da linguagem também em seus movimentos de desterritorialização e de reterritorialização agenciados pelo plano de consistência; do sentido como a quarta dimensão da proposição, como resultado de uma mistura de corpos cujo agenciamento nos cabe ético-politicamente experimentar.

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