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Desfuncional

Resumo/Abstract

Detalhe de Fonte (Duchamp, 1917)

Gabriel Pedrosa

Resumo

Através da leitura (do diálogo) das obras Fonte (1917), de Marcel Duchamp, e A traição das imagens (1928), de René Magritte, este texto pretende construir aberturas para pensar a construção do sentido, especialmente na tensão entre sistemas verbais e não-verbais de signos. A funcionalização de nossas escrituras e leituras, como decorrência do predomínio do viés racional-utilitarista em nossa cultura ocidental moderna, e as possibilidades criadas por sua desconstrução (tema central de minha dissertação de mestrado) conduzem o presente trabalho.

Palavras-chave: desconstrução; Marcel Duchamp; René Magritte

Abstract

Through the reading (the dialogue) of (with) the works Fountain (1917), by Marcel Duchamp, and The treachery of images (1928), by René Magritte, this text intends to build up ways to think the meaning construction, specially at the tension between verbal and non-verbal sign systems. The functionalization of our readings and writings, as a consequence of our occidental modern culture’s rational-utilitarian drift, and its deconstruction’s possibilities (central theme of my dissertation) conducts the present work.

Keywords: deconstruction; Marcel Duchamp; René Magritte

Artigo

e as cortinas, em lugar de abrir, incendeiam-se. no centro do palco, dois robôs jogam um ping-pong interminável, pois que feito de uma única e mesma sequência de jogadas, a última preparando a primeira. a bola, imantada, faz oscilar um poleiro pendurado sobre a mesa, em que uma figura andrógina, de ar aborrecido e uma túnica branca, imaculada, senta-se. por trás deste quadro, um grande quadrado pintado de preto, como fundo; luz branca, ligeiramente amarelada, aliás; e homogênea. vindo de trás do quadro negro, meio de viés, um sem-número de elementos se acumula: manequins velhos com roupas ditas extravagantes em meios ditos bem pensantes, colagens, jornais ampliados, lambe-lambes de candidatos a vereador bandas de forró igrejas evangélicas, reproduções baratas de arte do renascimento paisagens românticas picassos matisses imitações baratas de pollocks sobre as paredes laterais, klees kandinskys ticianos cézannes velázquezs ernsts chagalls caravaggios gauguins mirós ops pops expressionistas neo-expressionistas pós-expressionistas, filmes de guerra, ballets, a segunda semifinal do décimo primeiro campeonato mundial de tango, praça itália, buenos aires, grécia x japão, orquestras mudas num impetuoso crescendo, competições esportivas do início do século vinte, jesse owens correndo contra carroças, canhoteiro, a filmografia completa dos irmãos marx, louis armstrong rindo, as cem primeiras imagens, girando como num caça-níqueis, que o google, sem filtros, der para fonte, aí incluída a obra homônima de marcel duchamp, as cem primeiras imagens para cachimbo, incluindo a tela a traição das imagens, de rené magritte, toda sorte de imagens pornográficas, latas de sopa, faróis automotivos, fuselagens carcomidas de aviões acidentados, caixas pretas verdes roxas amarelas, fotos de escritores mortos coloridas grotesca caprichosa e artificialmente, capas de discos antigos, e etcs, muitas caixas de som, das mais modernas que houver, tocam a sagração da primavera, arranjo para octeto de tubas, nelson cavaquinho, paulinho da viola, boleros derramados, ruídos, música eletroacústica, os quatro minutos e trinta e três segundos de cage, em looping, sirenes, buzinas, choros, tom jobim tocando nota a nota seu piano, tangos com chiado de fitas velhas, psicodelias, as obras completas de charlie parker charles mingus charles dickens charles chaplin charlie brown, primeiras lições de trompete de um menino russo, todo o repertório clássico que importa segundo as revistas britânicas especializadas, sambas, maxixes, macumbas, zabumbas, retumbes, remansos, mansardas, big bands, instrumentos ciganos numa rua do cairo, violinistas albaneses no metrô de hong kong, beatles em flauta boliviana na praça da sé, poemas lidos por seus autores, especialmente os que leem mal, populares dizendo romances, tragédias, novelas de tv, locuções radiofônicas de turfe, etc, etcs. como máquina, tudo de repente desaba num buraco súbito aberto sob; e mesmo as paredes caem. está-se onde se estiver. luz crua, barulhos indistintos. percebe-se que não era nada daquilo de que se trataria – no mais, não estava bem daquela forma. e não há nada por representar. uma certa desolação de ressacas distendidas). por simpatia, entendida como coincidência, partilha, de paixões, as obras fonte (1917), de duchamp, e a traição das imagens (1928), de magritte, vieram dar a este trabalho jogos de linguagem que desestabilizam nossa tradição cultural, organizada pela razão moderna, e abrem novas possibilidades para a construção de sentidos; exemplos privilegiados de um tipo de escritura que me interessa pensar e construir; balizas, por vezes, outras vezes índices, para a pesquisa teórica. prolegômenos ao trabalho a desenvolver].

um cachimbo. ceci n’est pas une pipe. um cachimbo, que aprendemos que diz: isto é um cachimbo. uma frase, que aprendemos que diz: isto não é um cachimbo. isto é um cachimbo, isto não é um cachimbo. um impasse. um círculo se arma, a cobra morde o rabo. isto é um mictório. isto não é um mictório. isto é uma fonte. isto não é uma fonte. isto não é arte. isto é arte.

duchamp pega uma coisa, comumente chamada de mictório, e resolve chamar de fonte. chama a uma pessoa inexistente de richard mutt, até então um nome inexistente (e pessoas inexistentes haviam de permanecer com nomes que permanecessem inexistentes). escreve este nome na coisa que se chamaria urinol e passou a se chamar fonte. chama a isso assinar, quando assinar implicaria que a pessoa que escreve escrevesse o nome por que é comumente chamada. chama a este chamar uma coisa por um nome de obra, quando se usava chamar de obra uma coisa. chama esta obra de obra de arte, quando obras de arte seriam pinturas ou esculturas produzidas manualmente pelo artista, dentro de determinadas regras (muitas não escritas), criadas, desenvolvidas e mantidas pela tradição disso a que se chamava arte.

muitos e duvidosos caminhos se apresentam. mas não estamos para movimentos indecidíveis: isto é o desenho de um cachimbo, não é, portanto, um cachimbo, um cachimbo-cachimbo, diríamos (e como dizê-lo?), um objeto-cachimbo, desses que usamos para fumar, e vocês já podem ir tranquilos pras suas casas, que nada de mal lhes acontecerá. abraços, rené.

no entanto, hesitamos. num estudo de magritte, les mots et les images, realizado em 1926 – estudo que direciona as pesquisas de magritte sobre a relação entre palavras e imagens, desenvolvidas sistematicamente em suas pinturas e desenhos realizados entre 1926 e 1930, e retomada vez por outra em fases posteriores – lemos que um objeto pode ser substituído por seu nome, que uma imagem pode substituir uma palavra, numa frase, e que, numa pintura, palavras e imagens são da mesma substância. lemos, enfim, que, na pintura, aquela imagem e aquela palavra, cachimbo, se equivalem. aquilo é um cachimbo (o que não invalida a frase que diz que aquilo – mas a que aquilo se refere a frase? – não é um cachimbo).

na pintura. e quem se apressa a tomar o partido do verbal (como se fosse o caso de tomar partido), diz logo que aquilo é apenas o desenho de um cachimbo. mas onde está escrita – já que aprendemos, das cartilhas às leis (e, antes, das sagradas escrituras aos manuais e aos grandes autores), que a verdade é escrita – a palavra desenho, ou a palavra pintura, ou representação, ou imagem, ou qualquer outra que o valha? e como abstrair que a frase também é apenas um desenho?

por que pensar que a peça enviada por duchamp é um mictório, se ela se chama fonte? por que desconfiar da nomeação desta obra, se duchamp, ao expor uma roda de bicicleta intitulou-a roda de bicicleta? por que dar mais peso ao sistema verbal, na leitura de a traição das imagens, se no mesmo período (em 1930) magritte pinta a interpretação dos sonhos, em que palavras e imagens associam-se livremente, na libertação das regras de nossas linguagens em que o sonho se faz?

René Magritte, A interpretação dos sonhos, 1930

freud (1959) aponta para esta incessante busca inconsciente de recuperar o prazer infantil em jogar com a linguagem, e estas são também obras de jogo. a estrutura da tela magritte, em sua compartimentação, parodia, negando-a, a compartimentação estanque de nosso mundo-linguagem (nossa linguagem e nosso mundo na linguagem), assim como faz duchamp com seus objetos já-feitos a que ele atribui novos nomes. não se trata de criar um novo sistema, um novo quadro de associações, mas de mostrar nestas ligações de termos desconexos o arbitrário de nossas designações, e, principalmente, a possibilidade de jogarmos com isso, e a possibilidade de este jogo criar muitos e vários sentidos – pois sempre buscaremos elaborar interpretações que deem conta destas associações, sempre criaremos um sentido a partir destas ligações, ultrapassando em muito o sentido banal e rotineiro da linguagem corretamente emoldurada.

quando se discutia serem arte ou não determinados objetos de outras civilizações, máscaras rituais africanas ou cerâmicas pré-colombianas, por exemplo, civilizações estas que, não dividindo seus objetos entre artísticos e utilitários, criavam problemas para nossos critérios de nomeação; quando se discutia se obras realizadas com as técnicas nascentes, como a fotografia e o cinema, seriam arte ou não, e quanto, e como, e até onde (pois resultavam da participação das máquinas, de questões e processos que escapavam à mão do artista); duchamp envia para o salão dos independentes de nova york um mictório de louça.

numa exposição ou feira ou galeria ou museu de arte, o que vemos só pode ser, consequentemente, arte. todo objeto que se apresente num tal contexto será uma obra de arte, o que equivale a dizer que sobre cada um dos objetos que aí se encontrem haverá uma etiqueta que diz isto é arte. arte, portanto, é o que é chamado de arte, aquilo que é aceito no sistema das artes (academias, museus, exposições, crítica). a produção de arte pregressa orienta os artistas e forma o público, criando uma tradição, uma cultura artística, que serve de balizamento aos juízos dos envolvidos. regras aceitas, tradições consolidadas, tem-se a impressão de uma certa naturalidade dos conceitos, que acaba por desembocar numa tautologia, posto que todos sabem que arte é arte, basta ver, e, sendo assim, uma definição não deve senão encerrar-se num círculo, um cerco que proteja esta essência: arte é o que o artista faz, artista é quem faz arte. duchamp escancara a estrutura de poder e legitimação que se abriga por detrás desta singela explicação.

manda para uma exposição que tem por norma não negar nenhum trabalho regularmente inscrito um mictório, um objeto funcional, que não foi construído para ser belo, que não foi motivado por nobres sentimentos, que não busca responder às questões fundamentais que a história de nossa cultura nos propõe, um objeto que nossa tradição de arte não reconhecia como pertencente ao seu meio, um objeto banal, produzido em série, por máquinas. duchamp, portanto, cola sobre um objeto do tipo isto não é arte a etiqueta isto é arte.

esta operação não é uma simples mudança de atribuições. duchamp não toma, de fato, para si o papel da instituição, não se torna curador, pois o que ele decide ser arte não é, no contexto em que tais decisões são tomadas, arte, e esta contradição é central para sua operação. duchamp sabia, de antemão, que aqueles objetos não seriam vistos como arte, por haver acordos, hábitos e convenções sobre o que deva ser entendido ou não como (boa) arte, responsáveis pela manutenção e fortalecimento do sistema de valores que define o que é ou não arte. são estes acordos, hábitos e convenções que fazem os readymades causarem espécie (não havendo nenhuma comoção especial, por outro lado, em artistas chineses retirarem pedras de seu meio natural e assinarem, como obras). é esta disseminação das convenções criadas, esta aceitação das regras como naturais, que as consolida e legitima, fazendo-nos percorrer infinitamente os círculos que fecham. duchamp as nega, explicitamente, com o que mostra que estes valores e noções são construções históricas, que podem ser mudadas.

quando marcel duchamp, que tem quadros e exposições em seu currículo, que é, portanto, um artista (e já com certo prestígio, graças ao barulho que seu nu descendo a escada, nº2 causou nos estados unidos, tendo sido a obra mais vista e comentada do armory show), manda a uma exposição, como sendo arte (chamando de arte – já que algo não pode ser, ou não, arte, a não ser como classificação), um objeto que os organizadores desta exposição (entre quem, ele) não reconhecem como arte (negando o próprio regulamento da exposição e assumindo uma posição de censor, típica das instituições que pretendiam combater), este sistema das artes rui. quando, posteriormente, a obra for aceita, quando o readymade for incorporado às práticas artísticas, o sistema parecerá se recompor, com a absorção deste ataque e a cooptação deste insurreto (e, como instância de legitimação – e de poder, portanto – recompõe-se mesmo, e até com mais força, pois se evidencia este seu papel). podemos, porém, pensar que não se trata de ataque ou de insurreição, mas sim de paródia.

o readymade exposto é arte. mas o que é arte? o mictório? a pá? o pente? ou o fato de duchamp ter dito que aquilo é arte? arte é a asserção isto é arte aplicada sobre uma asserção isto é arte aplicada a um objeto de que o enunciador da segunda asserção (segunda na sequência dos fatos, primeira na ordem deste texto) não pode dizer isto é arte. e o que pode o sistema ao ver-se assim parodiado senão aceitar a paródia (que, como já dito, aceita, conserva-lhe o prestígio e o poder)? o readymade se destina aos espaços de arte, neles é que os trabalhos de duchamp funcionam, ali, onde tensionam as regras vigentes (porque se referem a elas e as alteram). a paródia joga com as regras que parodia e, por isso, é no meio em que tais regras vigem que sua força se faz notar.

não nos contentemos com a leitura simplista de que magritte estaria denunciando a falsidade da pintura, a traição das imagens. havia dezesseis anos que surgira o primeiro readymade, e magritte, admirador confesso da obra e do pensamento de duchamp, segue pintando. uma tal denúncia seria ingênua e inócua. magritte, ao contrário, afirma a pintura (e não a pintura-pintura, das manchas de tinta, a arte abstrata, o trabalho na forma, mas esta pintura que equivocamente se refere às coisas), pois vê nela a abertura para a construção de um pensamento em imagens, uma pintura de ideias, como octavio paz (2002) chama o grande-vidro (e a pintura comparece nas duas grandes obras de duchamp, la mariée mise à nu par ses célibataires, même – o grande-vidro, de 1923, e etant donnés: 1. la chute d’eau, 2. le gaz d’éclairage – a conjugação, de 1966).

magritte pinta um homem em meio a manchas amorfas que encerram palavras (nuvem, fuzil, poltrona, cavalo, horizonte), numa obra que, pelo título, personagem caminhando em direção ao horizonte, faz equivaler as diferentes representações, sem que uma linguagem pese mais que a outra (e este é apenas um entre muitos exemplos possíveis em suas obras deste período). magritte as trabalha como linguagens, para além da ideia de verdade que subjaz em nossa cultura às palavras e às figurações naturalistas (ambas empregadas por ele, porém em montagens que anulam tal ideia).

ater-se à leitura das obras como ataques é reduzi-las a mensagens banais, que elas evidentemente não negam, mas que transcendem, na incorporação de muitos mais elementos e desdobramentos possíveis, é negar seu complexo jogo. um jogo de empurra, de equilíbrio de forças, de esconder e mostrar, de armar e desarmar, de palavras, de cena, um jogo do pensamento, e também o jogo nos encaixes, que faz nossas linguagens, por descuido ou, como aqui, por intenção, oscilarem, instáveis.

não ignoraremos, porém, esta leitura. há grande interesse no descaramento de um pintor em dizer que seu trabalho é apenas pintura, na irreverência, especialmente em um meio tão propenso a mesuras e reverências. há um saudável revigoramento que advém deste rebaixamento do elevado, desta zombaria à seriedade. e é especialmente neste registro, paródico, cômico, carnavalesco até, que os ataques se mostram profícuos. duchamp diz que poderia, em lugar de jogar seu metro de barbante para colher seus sistemas aleatórios de medidas, quebrar barras de madeira de um metro, numa atitude mais próxima ao comportamento destrutivo dos dadaístas literários, mas que seu objetivo era abrir caminhos para o humor (1978: 205).

bakhtin, em seu livro sobre rabelais (1987), mostra a potência crítica do baixo material e corporal (a sexualidade, as comilanças, as bebedeiras, os excrementos), a força destas imagens, tão presentes nas festas, no vocabulário e demais manifestações da cultura popular da idade média, na subversão da concepção sombria do mundo, então vigente. o baixo material e corporal dessacraliza o mundo medieval, transforma seus monstros e infernos terríveis em inofensivas e alegres figuras da festa, fantasias. não bastaria a duchamp enviar um objeto qualquer à exposição (e este, não sendo o primeiro dos readymades, foi o primeiro motivado por esta intenção provocativa). o objeto não apenas é um utensílio banal, como, pior, tem uma destinação baixa, indigna do olimpo em que se empoleirara a arte. e assim seu ato grosseiro, bufão, carnavalesco, de mandar um urinol para uma mostra de arte, para além de contestador, se converteria em potencial renovador e ampliador das práticas artísticas, ao acrescentar-lhes esta peça que, então, não se podia definir nem como arte nem como não-arte.

e é próprio do humor não se resolver nos conflitos de que decorre. no humor a tensão é anulada numa afirmação ambígua dos dois lados, numa não resolução das questões propostas. não há solução, não porque não haja problemas, como diz duchamp, mas porque os problemas, aqui, não são defeitos ou insuficiências; são configurações problemáticas, que persistem em suas possíveis respostas, como o arranjo que as possibilita. duchamp não cria nem soluciona um problema, ele evidencia a natureza problemática do sistema das artes, desde que as obras se desvincularam da esfera religiosa (e, de alguma forma, cotidiana, embora em espaços sagrados), para integrar uma outra, de exceção – pedestais e molduras para isolar das demais estas coisas especiais, detentoras de especial valor (mesmo já não investidas da sacralidade de seus referentes e contextos anteriores), guardando-as de se contaminar de qualquer contexto que não este, dos espaços especialmente a elas destinados.

duchamp evidencia o problema por explorá-lo de forma a potencializar caricatamente sua constituição, agindo de forma deliberadamente errada (pois que se inscreve num contexto cujas normas não observa), o que nos faz notar, nestas inadequações, o que não notamos quando tudo corre conforme o esperado. o sistema que o readymade nos devolve não é, portanto, o mesmo, porque pensado, criticado, exposto; e muito dos complexos e infindáveis debates sobre as artes visuais das últimas décadas, seus processos, o papel de suas instituições, sua significação social, as acusações, defesas, desconfianças e louvores à produção dita contemporânea, bem como à que não se enquadra nesta categoria, produz-se a partir deste problema em ação.

este mesmo arranjo ambíguo de contradições encontramos em a traição das imagens. magritte, de saída, opõe o privilégio perceptivo da imagem, pois prontamente reconhecemos um cachimbo (e quem não leia francês apenas dirá que a tela consiste em um cachimbo e uma frase qualquer), ao privilégio que atribuímos às informações que nos chegam pelas palavras (e quem não leia francês é um pobre coitado). opõe uma informação instantânea a uma informação desdobrada no tempo (que, não tendo, por um lado, o mesmo impacto da imagem, tem, por outro, a última palavra – o que é reforçado por a imagem estar em cima; antes, portanto, em nosso padrão de leitura de imagens, fortemente informado pelo verbal).

a oposição, porém, é garantida apenas por um frágil isto. frágil, pois sem um texto pregresso, sem contexto, ou sem o gesto que habitualmente faríamos acompanhar tal palavra, sem algo, enfim, que aponte para que isto este isto aponta (aqui, por exemplo, a palavra este, e a variação tipográfica), estamos incertos de sua referência. supomos, pela proximidade, e por pensarmos em uma imagem próxima àquela que paira acima da frase ao lermos cachimbo, ou por pensarmos a palavra cachimbo ao ver aquela imagem, que é a ela que se refere o isto da frase. e, assim, um problema se instala: isto não é isto.

supomos, também, esta associação, por já termos visto outras deste tipo. isto é uma casa, isto é uma mitocôndria, isto é uma metáfora. (e até nos esquecemos que primeiro vemos uma bola, por exemplo, para juntar b e o, bo, l e a, la, bo-la, bola, claro, tínhamos reconhecido a figurinha). a tela de magritte parodia uma lição de coisas, um manual, uma cartilha, uma configuração típica de determinadas situações de ensino, transmissão da maneira correta, e única, de se fazer algo, de uma informação inquestionável, inabalável, como a atribuição dos nomes às coisas, por exemplo.

a tela arruína uma estrutura cara ao nosso mundo, ao mostrar a abertura possível em nossas linguagens. (e se a frase fosse isto é um cachimbo? e se a frase fosse isto é um desenho de cachimbo? ou, ainda, isto é um elefante? ou isto não é um elefante?). é a estabilidade de um mundo de coisas fechadas em si, às quais correspondem nomes definidos, numa organização conhecível, mapeável, controlável, portanto, que parece, por um momento, balançar sob os pés da modernidade, cuja razão, àquela altura, já não parecia tão digna de crédito.

a palavra, a palavra clara, a boa linguagem, o bom senso, é isto que é aqui posto em questão. a palavra que pretende jogar luz, mostrar, explicar, ao mesmo tempo em que se pretende neutra, transparente, nesta necessidade que temos de recortes, de definições (e valéry tem razão em dizer que só apreciamos as belas paisagens, ignorando tudo o mais que se apresenta aos nossos olhos por não levar esta marca), como molduras. com o que reencontramos um parentesco entre as linguagens.

e este parentesco, tematizado, também se deixa arrastar pela dúvida que a tela de magritte abre. pelo não da frase, por sua negação ostensiva, mas já pela simples associação entre os sistemas verbal e visual de signos (desconfiaríamos menos se a frase fosse afirmativa?). como se a tela tocasse um tabu, um princípio formativo de nosso estar no mundo que, apreendido, não se deveria alterar, sob pena de pôr em desordem todas as nossas representações deste mundo.

esta questão também foi trabalhada por magritte em outra obra deste período, os encantos da paisagem (1928), que mostra como a palavra mostra algo (ainda que nada, trata-se, já, de um certo nada), recortando-o, por uma moldura, ou por um isto é n, nomeando-o, fixando-lhe uma etiqueta, num processo cuja arbitrariedade, instabilidade e precariedade serão compensadas por estruturas coercitivas externas (de volta à cartilha). a operação de nomear, e todas as suas consequências (todo o enorme conjunto de desdobramentos possíveis que uma palavra pode carregar; alguns, por força do hábito ou de lei, muito mais frequentes que outros) perfaz o título. se assim está escrito, aquilo é uma paisagem, sendo, consequentemente, encantadora, como devem ser as paisagens emolduradas.

 

René Magritte, Os encantos da paisagem, 1928.

o mictório: isto é um mictório, não há dúvidas; é absolutamente idêntico a um mictório de banheiro; embora seja outro, e se leia nas notas da caixa-verde, de duchamp, que um intervalo infra-leve (infra-mince, ideia construída por duchamp ao longo de várias de suas anotações) separa sempre dois objetos idênticos, mesmo que moldados pelo mesmo molde – e melhor seria, ainda segundo duchamp, tentar passar por este intervalo que aceitar as generalizações verbais que sob árvore põem as mais diferentes espécies vegetais, e sob mictório, eu acrescento, põem objetos tão díspares quanto a fonte e um mictório de banheiro, desses que se compra em lojas de louças sanitárias. o nome nos faz esquecer as coisas, não olhar para elas, pois que faz as contabilizarmos como já conhecidas, reconhecidas (já que corretamente identificadas por seu nome), e, assim, desinteressantes.

duchamp quer que olhemos para as coisas. em visita a um salão de aviação, duchamp pergunta a léger e brancusi se eles eram capazes de fazer algo melhor do que uma hélice, ali exposta (TOMKINS, 2005: 157). ele – que pintara máquinas como os moinhos de café e de chocolate, num desenho que se aproximava da linguagem dos desenhos técnicos, e que, mais tarde, faria uma série de experiências com pintura sobre placas em movimento, pintura sobre discos, e ainda filmagens destas obras em funcionamento – ao defender a fonte e questionar a organização do salão dos independentes, num artigo publicado na revista the blind man (o homem que não olha para as coisas) intitulado o caso richard mutt, com sua habitual irreverência, escreve: “as únicas obras de arte que a américa já produziu são seus aparelhos sanitários e suas pontes”.

Marcel Duchamp, Moedor de chocolate nº2, 1914.

uma das muitas leituras que podemos fazer dos readymades é a de que duchamp estava atento a uma nova sensibilidade que se poderia construir com o mundo industrial, a despeito de seu humor e de sua poética do acaso (e ele chamava os readymades de acaso em conserva) colocarem-no muito distante das pesquisas sistemáticas que as vanguardas construtivas então começavam a empreender a fim de desenvolver uma estética da produção industrial e uma metodologia de projeto que considerasse as novas técnicas sem que isto implicasse o abandono das questões formais ou a imitação de estilos pregressos. o próprio duchamp, ao comentar as razões que o levaram a fazer a roda de bicicleta , o primeiro readymade, deixa entrever que suas escolhas não eram tão gratuitas quanto depois ele gostava de fazer supor: “foi uma coisa que aconteceu como diversão (…) algo para se ter num aposento assim como uma lareira, um apontador de lápis; a diferença é que ela não tem qualquer utilidade. era uma engenhoca agradável, agradável por causa do movimento que faz” (TOMKINS, 2005: 155). e não me parece de todo absurdo pensar que as superfícies brancas e perfeitamente polidas do mictório, suas curvas, a estabilidade de seu volume, e a disposição rigorosa de seus furos circulares tenham algo de escultórico.

mas duchamp não quer que olhemos apenas para estas coisas, coisas-coisas. o readymade nos faz olhar também para a noção de arte, de obra de arte (e é neste intervalo, entre o gesto do readymade, e a noção de obra que a recusa do salão tenta se justificar). o readymade nos faz pensar no ato de atribuir ou não a algo o nome arte. assim como nos faz olhar para nossas representações do mundo com seus padrões métricos aleatórios (o seus cabendo aos dele e ao nosso), linguagens que assumimos sem questionar, sem, portanto, conhecer.

Marcel Duchamp, Roda de bicicleta, 1913.

para isto é preciso desmontar os mecanismos que nos fazem não olhá-las, combater a inércia do cotidiano. e não por acaso duchamp dedica-se amiúde aos jogos de palavras. também as palavras são para ser estranhadas, também as palavras são para ser deslocadas, também elas são capazes de produzir novos sentidos, se ultrapassadas suas funções corriqueiras e banais. são frequentes, em seus escritos e entrevistas, as menções de duchamp à poesia, destacadamente à de mallarmé, seu lance de dados, partitura de palavras, palavras já-feitas, porém estranhadas, rearranjadas, descontextualizadas. palavras-coisas.

a poesia é um cachimbo, lê-se no décimo segundo número de la revolution surréaliste (15/12/1929), contribuição de magritte (2005: 36) a uma compilação de frases sobre a poesia, organizada por breton e eluard. a traição das imagens também apresenta, em sua construção, procedimentos comuns ao poema, como a presença da ambiguidade e da contradição, a afirmação de contrários (não apenas nas referências do texto, mas em seu caráter, simultaneamente concreto e generalizante), a exploração das possibilidades das linguagens para além de suas formas cotidianas, para além da comunicação, o tensionamento da linguagem e a construção do sentido como produção do texto, não como soma de referências a uma realidade prévia, supostamente não linguística.

magritte identifica a poesia a um pensamento inspirado, um pensamento cujos termos seriam, por exemplo, um cachimbo e a inscrição isto não é um cachimbo (2005: 402). (note-se que esta formulação evidencia que, para o pensamento – e para as linguagens em que ele se forma – aquilo, o desenho, é um cachimbo. e algo só pode ser um cachimbo ou não para o pensamento; e nas linguagens, portanto). magritte afirma que não teria feito nada de interessante se pintasse, por exemplo, um sapato e escrevesse em baixo: sapato (2005: 376). a redundância da informação apagaria ainda mais as linguagens (já tão apagadas em nosso cotidiano), para reforçar a referência a um objeto externo, sem nada nos despertar. magritte quer usar as linguagens para que as estranhemos, e para que estranhemos nosso mundo.

a tela parece figurar um desses momentos em que subitamente nos damos conta da existência de algo, e nos detemos em sua forma, repentinamente estranha, abandonando o raciocínio que desenvolvíamos e em que esta coisa, que bem pode ser uma palavra, entraria maquinalmente, em sua forma familiar, apagada pelo hábito, já quase desconhecida pelo constante e apressado reconhecimento, para nos entregar a uma demorada, e não raro perplexa, descoberta. a operação dos readymades. na tela de magritte vemos esta proeminência do objeto estranhado, que se destaca do espaço-tempo em que estávamos, num recorte que é a recuperação e a negação do nome (e, talvez, de toda representação), como se víssemos tal objeto pela primeira vez. e a pintura, aí, talvez equivalesse a um exorcismo, a esta frenética repetição da palavra estranhada a que nos entregamos, à espera de que o que nos sobressaltou se desgaste. um caráter ancestralmente mágico da pintura pode nos espreitar sob esta aparência de anúncio comercial.

nesta leitura, a frase bem pode ser o reconhecimento de uma pintura como pintura (desmontando nosso hábito de apressadamente identificar o significado de uma mensagem, esquecendo-nos de olhar para ela, para sua matéria), como pode ser decorrência de uma incômoda sensação de que as coisas, nomeadas, nos escapam, pois, uma vez catalogadas, prontas para arquivar, já não nos despertam qualquer interesse, apagando-se tão logo nos lembremos de seu nome. cachimbo é a palavra cachimbo. isto é isto, e os nomes não dão conta de o dizer.

mas quando vemos um isto chamado de aquilo também nos detemos. como um mictório chamado de fonte. no já referido artigo em defesa de seu trabalho, duchamp mostra a importância da nomeação para o readymade. o nome é o que evita que o objeto cresça desmedidamente e nos esmague com sua estranha presença. o nome devolve a um campo verbal o trabalho e previne que ele seja tomado como resposta aos problemas levantados. “ele [mutt] pegou um objeto comum do dia a dia, situou-o de modo que seu significado utilitário desaparecesse sob um título e um ponto de vista novos”. o título, parodiando o ato solene da nomeação, da entrada das coisas em nosso mundo, inscreve o objeto em sua nova e inesperada situação, perfazendo o readymade.

estes movimentos foram na contramão da maioria dos experimentos que se fazia, então, com a associação de signos verbais e visuais. do cinema aos letreiros das fachadas da arquitetura do construtivismo soviético, passando pelo design gráfico e pelas artes plásticas, bem como pela utilização de imagens em romances (nadja, de breton, por exemplo) e pelos poemas-objetos dos surrealistas, palavra e imagem se complementavam, na construção de um discurso que se valia dos diferentes sistemas numa tentativa de consonância. poucas obras caminhavam neste sentido, que duchamp e magritte adotaram radicalmente, de tensionar uma linguagem pelo contato com outra, criando trabalhos de grande interesse para as pensarmos, como também para pensar as formas que elas criam de estarmos no mundo (e com uma notável economia de elementos).

a esse respeito, compare-se a traição das imagens com esta é a cor de meus sonhos (1925), desenho de joan miró. a irredutibilidade de uma linguagem a outra, a explicitação de uma função comunicativa ao assumir e incorporar à obra a existência de um enunciador e de um público (presente na publicidade – e magritte trabalhou com anúncios comerciais, o que também influenciou seu trabalho – mas também em manifestações artísticas de vanguarda, como, por exemplo, no teatro brechtiano), o cruzamento de linguagens e a adoção de formas até então restritas a manifestações não artísticas mostram-se muito mais potentes na obra de magritte, pelo jogo que propõe, pela fragilidade de suas afirmações, pela dúvida permanente que instauram, pela provocação que magritte nos faz a pensar sobre aquela obra, sua construção e seus sentidos possíveis.

Joan Miró, Esta é a cor de meus sonhos, 1925.

pois se à primeira vista parece, como era frequente, por exemplo, na arte então dita abstrata, que um título como roda de bicicleta seja mera redundância, podemos pensar que uma roda arrancada de uma bicicleta e fixada, de cabeça para baixo, a uma banqueta, não é uma roda de bicicleta. ou não apenas. e deixamos de ver a roda para pensar numa vaga bicicleta, imagem esfumaçada, que nos faz perder o interessante jogo de formas e cores da obra (o círculo do aro rebatido no assento, o centro da roda no furo do banco, os tirantes da roda e as pernas do banco, branco, em oposição à roda preta, objeto de mexer preso a um objeto de parar, num objeto parado que não para de se mexer). o título nos mostra como direcionamos pela palavra nossas leituras, assim como em escorredor ou porta-garrafas ou ouriço, cujos ou bem poderiam ser lidos como e, direcionando a leitura para a identificação de uma possibilidade de uso, ou para o reconhecimento de um objeto funcional, cujo nome e destinação sabemos, ou para um jogo de associações formais. a instabilidade das coisas. melhor dizendo, de nossas relações com as coisas.

o que vemos? quanto as palavras e os demais sistemas simbólicos de nossa cultura informam nossa visão? como nomear a coisa? esta já é uma operação interpretativa, claro. mas podemos pensar que a percepção (ou, ao menos, o que fazemos da percepção, a forma por que percebemos) já o seria, e as variações da nomeação se inscreveriam num quadro de variações anterior ao ato de nomear. é na nomeação, porém, que isto se intensifica, pois este é o papel que lhe atribuímos, e é sob sua generalidade que usamos guardar as coisas. e a coisa não é um escorredor ou um porta-garrafas ou um ouriço, a coisa é a coisa, mas é, também, tudo o que se fizer com ela, tudo o que dela se disser.

Marcel Duchamp, Escorredor ou porta garrafas ou ouriço, 1914

assim, o mictório, receptáculo para o espectador-fonte quando instalado no banheiro, aqui, de cabeça para baixo, neste mundo de cabeça para baixo, mundo carnavalizado, mundo do espelho, este estranho mundo que duchamp nos propõe, torna-se fonte para o espectador-receptáculo. o deslocamento do objeto, a inversão de sua posição, a anulação de seu uso inicial, tudo se pode ler neste título, que também recupera a ambivalência do baixo material e corporal, identificada por bakhtin. o mictório é fonte e o espectador recebe seu jorro degradante e renovador de seu repertório artístico, mas também o mictório recebe os sentidos que o espectador nele projeta. duchamp sempre insistiu na importância do espectador para a obra de arte, importância para ele tão grande quanto a do autor.

e fonte é um nome que já utilizamos habitualmente, mas para um outro objeto. esta nomeação equívoca é de grande importância, pois evita a impressão de que se apresenta um nome novo criado para um objeto novo (pois o readymade não quer ser uma obra, no sentido então convencional), o que devolveria a paz aos espectadores. nesta abertura, a obra recupera esta ambivalência do nome, que ao mesmo tempo em que recorta o continuum do mundo apontando para uma determinada coisa, fazendo-a saltar ao primeiro plano de nosso pensamento, esvanece-a, numa referência a algo para além dela, pois o nome implica os outros mictórios, as outras fontes, os outros cachimbos, e ainda as outras acepções, expressões idiomáticas de que faça parte, os textos em que possa entrar. nunca as coisas mesmas.

estas coisas, porém, produzidas em série, anônimas, desimportantes, já não são as coisas mesmas. porque, funcionais, vemos nelas não coisas mas usos, meios para realizarmos nossas tarefas. e também por as sabermos pertencentes a uma série de iguais (sem estarmos habituados a considerar a possibilidade de haver entre elas a diferença infra-leve de que fala duchamp), em que sua diluição lhes tira a singularidade, a identidade a si, a aura.

e converter um objeto comum (comum como um nome é um nome comum) em obra de arte, ao mesmo tempo em que sinaliza a paixão moderna de superar o caráter único das coisas e aproximá-las das massas – como disse benjamin (1996: 101), faz surgir a aura em torno de um objeto que não a possuiria, posto que absolutamente destituído de unicidade, no mágico aqui e agora do espaço do museu, rescendente a aura. duchamp, como sempre, é ambíguo, e ao satirizar o culto aos objetos únicos, cria a possibilidade de um culto a objetos produzidos em série, com o que mostra que a aura não está nas coisas, mas em como as vemos; e se a máquina permite fazer milhares de monalisas idênticas à original (e elas sequer são idênticas – aí estão as filas do louvre que não nos deixam mentir), duchamp faz bigodes em sua reprodução da monalisa, muda-lhe o nome (em nova zombaria, l.h.o.o.q, que soa como elle a chaud au queue, ela tem fogo no rabo, trocadilho que desestabiliza a linguagem, como a obra desestabiliza um sistema de valores culturais), e depois a apresenta barbeada, mostrando como variação de seu readymade um objeto que poderia ser tomado pelos incautos (e pelos incultos) como uma reprodução barata da obra de leonardo.

Marcel Duchamp, l.h.o.o.q., 1919.

quem é o autor daquele cachimbo? quem escreveu aquela frase, quem a compôs? magritte esforça-se por se apagar atrás de sua pintura. não por apagar o fato de que alguém a pinta, e de que ela é uma coisa posta num dado mundo (o que, aliás, é de grande importância para entender sua obra). mas por apagar-se como autor, como artífice. não é seu aquele desenho, nem de ninguém. é um desenho anônimo, uma frase feita, cujas influências são mais os manuais de botânica, os desenhos técnicos e a publicidade do que a tradição da pintura ocidental (particularmente da pintura do impressionismo em diante, tão centrada na invenção e exploração de técnicas pictóricas).

como duchamp, magritte vale-se de um repertório de coisas dadas, cotidianas, para, em seu arranjo, permitir que seu trabalho produza novos sentidos. magritte e duchamp pretendem, seguindo seus escritos e entrevistas, como a arte religiosa do renascimento, uma pintura que construa ideias plásticas (agora não mais de um deus, mas das artes, das linguagens), uma pintura feita com o cérebro, cosa mentale (como queriam michelangelo e leonardo). nas palavras de duchamp: “uma pintura que se serve do tubo de cores como um trampolim para saltar mais longe. (…) a pintura pura não me interessava em si nem como finalidade. para mim a finalidade é outra, é uma combinação ou, ao menos, uma expressão que só a matéria gris pode produzir” (PAZ, 2002: 48-9).

quase se é tentado a pensar que a tela de magritte não é para ser vista, pois nada nela nos detém os olhos, nenhum detalhe, nenhuma sutileza na pintura – e cortázar utilizou-a, descrita, como epígrafe do conto ahí pero dónde, cómo, como sequer precisássemos de vê-la alguma vez. bastaria que soubéssemos que duchamp enviou um mictório de louça branca assinado r mutt para uma exposição para que conhecêssemos a obra. mas esta leitura trai o verbalismo de nossa cultura, pois, ao nos depararmos com uma pintura – nas palavras de magritte (2005: 278-282), uma construção visível do pensamento (pois, para o pintor, este se manifestaria em imagens) – de forte caráter metalinguístico, e poderia mesmo se dizer discursivo, ou com os gestos de duchamp igualmente permeados por esta crítica de caráter metalinguístico, pensamos poder reduzi-los a uma mensagem verbal. aliás, pensamos o mesmo de qualquer manifestação não verbal, como se a este sistema todos os demais pudessem ser reduzidos.

não podem. do contrário, e é ainda magritte quem diz, seria desnecessário pintar. bastariam as palavras. não há dúvida sobre o papel central da palavra na construção de nosso pensamento, e não apenas por um capricho da história de nossa cultura, mas pelas características deste sistema (sua extensão, alcance, maleabilidade e transmissibilidade, entre outras). mas o pensamento está lá, nas telas de magritte, pintado. e escrito seria outro, como são outros os que se constroem neste texto, que partem das obras, e que podem dar em inúmeros outros lugares.

magritte demonstra a necessidade de que sua obra seja pintada, seguindo seu jogo de contrários, ao ressaltar a interpenetração dos sistemas verbal e visual, num desenho tão genérico quanto possível, que se aproxima de um cachimbo-tipo, algo como a ideia visual de cachimbo, a imagem do nome comum, sem nada que a pudesse especificar, sem uma mancha, um adorno, algo que o marcasse como o cachimbo de meu tio, como um produto da loja do fulano, como um objeto velho, ou novo. flor é a palavra flor, e o cachimbo de magritte quer ser a palavra cachimbo.

ainda mais porque este cachimbo está como que em estado de dicionário (ainda uma vez as semelhanças com as cartilhas e com os manuais), pois que flutua num espaço vazio, sem contexto, sem uma cena onde ele faça papel de cachimbo, timidamente inserido num texto que lhe confere valor e apara as arestas, costurando-o numa determinada luz, num espaço, numa cena. o cachimbo não se apóia em nada, sequer faz sombra. paira, num espaço neutro.

diz valéry que ao figurarmos uma árvore, vemo-nos forçados a figurar um céu, um fundo que a sustente (2006: 15). magritte descontextualiza o cachimbo, e esta descontextualização lhe impede a funcionalidade. o cachimbo perde sua função de representar um cachimbo, pois não o envolve uma cena em que caiba um cachimbo. os readymades deixam de ser os objetos que eram, pente, pá, mictório, pois, neste novo contexto, não podem ser usados como o seriam normalmente, quando sob estes nomes perdidos. para que não restem dúvidas, duchamp apresenta o mictório de cabeça para baixo, o que também é uma forma de nos forçar a prestar atenção à forma da peça. assim, ela não é o que conhecemos, um mictório, algo que instalamos em banheiros masculinos para urinarmos. as coisas fazem sentido em contextos, e se duchamp e magritte mudam o contexto de coisas que sempre vemos, elas não podem seguir dizendo-nos as mesmas coisas de sempre.

o readymade é uma coisa estranha, como a tela de magritte é uma tela estranha. as coisas, quando inscritas em seu contexto habitual, o contexto previsto para sua inserção, entre outras coisas que lhes contêm, apenas cumprem discretamente suas funções, sem que as notemos. abandonadas, no meio da sala de exposições, no meio de uma tela sem fundo, elas emergem, coisas, agigantando-se espantosamente, até que um novo sentido, produzido neste novo contexto, as detenha e inscreva num processo que possamos minimamente controlar.

(o desenho de um cachimbo é um cachimbo em relação ao desenho de uma banana, e não é um cachimbo em relação ao objeto cachimbo – que se for usado para plantar flores não é um cachimbo em relação a um objeto idêntico usado para fumar). duchamp faz, a mão, um cheque, idêntico a um cheque impresso (sempre o jogo, a reversibilidade: se a máquina pode fazer objetos de arte, como os readymades, porque o artista não faria manualmente um objeto industrial?), que, no entanto, não vale como cheque. como obra, porém, vale, e muito. diferentes valores, diferentes sentidos, são atribuídos à mesma coisa, conforme ela deslize de um contexto a outro, de um sistema de valoração (de leitura) a outro.

e o único elemento de contextualização do cachimbo é a frase escrita, que não fazia parte do repertório da pintura ocidental até então, fazendo-nos tomá-la (também por atribuirmos ao verbal a função de explicar, de dizer o que uma coisa é) como um comentário à pintura, não como parte dela. e a frase, sua referência, entra em conflito com o desenho, dificultando ainda mais que se entenda a obra como uma composição não hierárquica destes dois elementos.

também a palavra pipe não é um cachimbo. não apenas porque pode ser tomada por barril (ou pela medida de volume equivalente) ou por um tipo de embutido defumado, mas porque não se pode fumar nela, e ela nem se parece tanto assim com um cachimbo. e isto nos diz o desenho. a tela, no entanto, não se resume a nenhum destes dois comentários, nem mesmo à afirmação da irredutibilidade de uma linguagem à outra. a tela é um pensamento sobre as linguagens de que se vale, um pensamento sobre as linguagens, sua natureza, sua autonomia e sua relação equívoca com as demais coisas. e este caráter metalinguístico de a traição das imagens está em seu todo, na composição daquele fundo pintado com aquelas palavras pintadas com aquela pintura de cachimbo.

cachimbo que, comparado ao de um trabalho de 1926, o cachimbo, é quase imaterial. a tela de 26 parece querer, pela reiteração (rose is a rose is a rose is a rose), aqui dada no acúmulo de tinta, única experiência deste tipo em toda a obra de magritte, materializar a coisa referida pela linguagem. o cachimbo de 28, mais próximo do desenho, do esquema, aproxima-se da ideia (a imagem mental) de cachimbo.

René Magritte, O cachimbo, 1926.

ideia de cachimbo que aparece para além da pintura, num trabalho posterior, os dois mistérios, de 1966 . mas esta ideia, por mais que o cachimbo que paira na sala, para além da tela de 28 aqui retratada, apresente dimensões inusitadas e pareça-se, por ser um jogo de luzes e sombras no mesmo tom da parede, com algo como uma escultura de ar, não deixa de ser uma imagem, uma pintura. e se dissermos que a pintura apenas representa a ideia, estaremos dizendo, “words, words, words“.

René Magritte, Os dois mistérios, 1966.

como dizer que um nome comum, ou este tipo de desenho, representa a ideia de cachimbo? como houvesse uma ideia sem matéria, um pensamento sem palavras ou sem imagens, como se as linguagens sobreviessem a um pensamento prévio, para traduzir-lhe ou codificar-lhe. como o pensamento não fosse um emaranhado de processos intersemióticos, não apenas por relações entre sistemas estanques e isoláveis, mas pela própria natureza intersemiótica de nossas linguagens.

natureza que o desenho ressalta, assim como a frase, que traz, em sua caligrafia (também uma alusão à lição de coisas, em sua correção formal, caligrafia de professor), um mesmo tipo de desenho que o cachimbo. uma mesma mão desenha e escreve o cachimbo, com as mesmas curvas e as mesmas tintas, e é preciso não esquecer que a frase também é uma imagem, apenas um desenho, diriam. desenho que ostenta, e mesmo explicita, a natureza imagética da escrita. a frase figura uma frase escrita, como a assinatura do mictório figura uma assinatura, pois é preciso que vejamos na tinta escorrida sobre a louça a mão do artista, numa paródia de assinatura, zombaria ao artista fabbro e seu gesto heroico, agora restrito a assinar a peça. e duchamp, que não fez o mictório-mictório, mas que fez o já-feito mictório, assina sua obra, mas não com o seu nome, e sim com outro, que remete ao fabricante da peça (mott), trazendo para esta mancha de tinta toda a ambiguidade que permeia a obra. a imagem da escrita, seu desenho, também produz sentido; não serviria um r mutt em relevo, ou a frase de magritte em caracteres tipográficos.

a identidade de traço reforça que, na tela de magritte, desenho e palavra se equivalem. e além de equivalerem, interpretam-se. são signos de um mesmo objeto, objeto que não é uma coisa, mas uma noção que diz respeito a certas coisas. são partes de um processo de construção da ideia de cachimbo, ideia que implica aquela forma ali representada (com uma grande quantidade de variáveis de que o desenho não pode dar conta, pois tem que assumir uma forma determinada; mas de que também o nome não dá conta, pois, em sua generalidade, as descarta), um determinado uso (com outro uso ainda seria um cachimbo? tendemos a pensar que sim, por a ideia de cachimbo já nos ser conhecida e sabermos identificar um cachimbo, sabendo que ele foi feito para fumar, ainda que não esteja sendo usado para este fim. para criar uma tal ideia de algo que não conhecêssemos, porém, o uso seria determinante), e aquele nome.

e neste nome, pipe, a arbitrariedade do verbal é relativizada, novamente apontando para uma natureza intersemiótica das linguagens, pela mímica do ato de pitar, na dupla explosão labial dos ps da palavra. palavra em que foucault identifica uma grande facilidade de pronúncia; palavra que escapa da boca, e que acaba por convocar uma elaboração secundária que a negue. um cachimbo! digo: isto não é um cachimbo. como quando, ao sonharmos, pensamos: isto é apenas um sonho, após uma imagem particularmente impactante, que a censura de nosso aparelho psíquico percebe que não deveria ter deixado passar (FREUD, 1987: 451).

a facilidade da palavra, ainda seguindo foucault (2002: 19), se faz notar na utilização de nom d’une pipe, em lugar de nom de dieu, locução blasfema. nom d’une pipe, expressão corrente em língua francesa, e que não quer dizer nom d’une pipe. isto não é um cachimbo. as duas linguagens estão sob suspeita.

contribui para isto o verbo ser, o verbo por excelência na tradição clássica (tradição ainda bastante presente em nosso aprendizado das línguas – em nossas leituras, portanto), para a qual todo verbo poderia ser reduzido a este (assim, ele canta vira ele é cantante). verbo central de uma noção da linguagem como algo neutro, transparente, que distribui os nomes às coisas, recortando em objetos (substantivos) um continuum de sensações, a que o pensamento (tido como anterior à linguagem) atribui, por meio do verbo, suas propriedades (adjetivos).

mas esta linguagem já traz uma evidência de sua opacidade, na ambiguidade deste verbo ser, expressão de existência, indicação de igualdade, indicação de equivalência, atribuição de características, e, também, verbo central da nomeação (wittgenstein define o nome como o que se pode aprender pela forma isto é n). verbo da ontologia – donde decorre sua enorme importância para esta pretensão de transparência e funcionalidade da linguagem (que diria o ser da coisa, o que ela é) – mas também verbo da representação, onde se cria um hábito de linguagem, calcado na predicação analógica: o que é este desenho? é um cachimbo. e este alargamento da predicação montado a partir do verbo ser, neste caso, é ainda mais amplo, por frequentemente aprendermos conceitos e nomes a partir de representações gráficas.

no mais, na pintura, aquilo é um cachimbo. embora não seja, pela apontada intenção de generalidade, tão um quanto pudesse ser um desenho mais detalhado, que apresentasse um objeto específico (e a palavra cachimbo não será nunca um cachimbo, nem nunca se referirá a um cachimbo). se não o que é? em os dois mistérios até se poderia dizer que o cachimbo da tela de 28 é apenas o desenho de um cachimbo (mas aí se trata da tela retratada, não a que se encontra no museu, para não incorrermos numa confusão de níveis – confusão que as telas de magritte promovem, a fim de nos perturbar, em sua busca por uma pintura de ideias, pintura que constitua uma reflexão e assim estimule outras). mas isto apenas nesta outra tela, que o diz através de um outro cachimbo, que, no entanto, também é o desenho de um cachimbo. pois o pintor só pode dizer na pintura, ainda que pinte palavras. e a pintura é pintura, linguagem, que abre a possibilidade de efeitos de verdade e de mentira sem neles se resolver. com o que magritte nos abandona, perplexos, sem nos deixar um lugar seguro, de onde possamos nos decidir sobre a tela, sobre qual destes designares tem razão, o desenho ou a designação.

não se trata, porém, de decidir. e a paródia da lição de coisas é particularmente importante para esta indecisão, pois alude a um momento, o de isto é aquilo, em que a identificação que está prestes a se criar (e a partir dela isto será aquilo) não vale, pois neste momento da associação a substituição não pode ser efetuada sem que se incorra numa tautologia (isto é isto), nem pressuposta sem que se crie uma contradição (isto é aquilo. isto é não-isto).

o jogo se joga, e não se resolve em dualismos. este não é um jogo de par, um ganha, ou ímpar, ganha o outro. este jogo abre inúmeras possibilidades e todas elas se produzem, sem que nenhuma sobressaia, e, principalmente, sem que nenhuma feche o jogo. por isso a tela de magritte nos interessa, pelas perguntas que abre, por esta explicitação da natureza problemática de nossas linguagens, de sua relação com as demais coisas, de nossas relações com elas e através delas.

isto é um cachimbo e isto não é um cachimbo. isto é um mictório e isto não é um mictório e isto é uma fonte e isto não é uma fonte e isto não é arte e isto é arte. ao mesmo tempo. duchamp e magritte afirmam as muitas pontas da linguagem, e todos os seus intervalos, as muitas possibilidades que ela, como o jogo (e como jogo que é), abre, sem nelas se resolver. uma pintura pode ter palavras, e uma pintura com palavras pode criar uma tal situação de indefinição, ambiguidade e tensão, como se pode chamar uma coisa qualquer por outro nome, e se pode mandar esta coisa para uma exposição de arte. por isso duchamp e magritte jogam, para conduzir as linguagens para um além de nossa utilização cotidiana, utilitária, rasteira e empobrecedora.

e por que um cachimbo? para além do fato já apontado da semelhança de seu contorno com o da caligrafia de certas letras (podemos ver vários cachimbos insinuados na frase, ou uma grande letra no centro da tela), das inúmeras associações simbólicas que se pode fazer ao objeto (que vão de certos tipos sociais a conotações sexuais), de seu nome (a mímica labial do ato de fumar um cachimbo) e sua utilização em expressões idiomáticas (nom d’une pipe, já referida, e casser sa pipe, literalmente: quebrar seu cachimbo, usada em lugar de morrer), o cachimbo é um objeto funcional. um objeto para fumar, cuja forma decorre deste funcionamento e desta utilização prevista, o que o torna um objeto mais eficaz para a operação.

isto porque, em que pesem as particularidades, as variações de medidas e materiais, e mesmo os adornos, tão comuns em objetos de uso pessoal (para que não sejam um cachimbo qualquer. para que fujam à generalidade do nome e do objeto comum, para se tornar o cachimbo de alguém, impregnando-se de uma ideia de identidade que este alguém quer conservar e desenvolver), um objeto funcional não é para ser visto, é para funcionar. e é preciso considerar que, se hoje vemos frequentemente exposições e museus tanto de design quanto de objetos anônimos e sua inserção na vida cotidiana (isto para não falar do enorme alargamento do campo de possibilidades das práticas artísticas ao longo do século xx, por obras como as aqui estudadas e as que elas inspiraram), à época, uma tal intrusão de um objeto banal no espaço consagrado às formas humanas, às belas paisagens e aos grandes temas, haveria de parecer altamente provocativa. mesmo após duas décadas de vanguardas modernistas – e, no mais, magritte não pintava apenas para seus pares, tendo afirmado, inclusive, que a pintura havia de estar nas revistas, em reproduções de larga tiragem, não nos museus. o que ressoa, também, na questão da linguagem dos anúncios publicitários, e na forma pela qual ele perturba e parodia as redundantes mensagens deste tipo.

por isso nada funciona em suas obras. porque funcionar é ater-se ao bom uso, ao bom gosto, ao bom senso, a um sentido único e determinado, que, desta forma, apaga todos os outros possíveis. os objetos funcionais precisam de não funcionar para virarem readymades (o urinol invertido, sem encanamento, fora do banheiro), com nomes que também não funcionam, pois apontam para coisas que não aquelas a que estão associados, como não funciona a assinatura, pois não apenas não indica nem o autor da obra nem o da peça, como aponta para um sujeito inexistente. e, por fim, temos a obra, que também não funciona, posto que não só não diz nada, pelo menos nada de muito claro, como sequer é reconhecida como obra de arte.

nada funciona na tela. o cachimbo não funciona porque não podemos usá-lo para fumar, e ele tampouco integra uma cena em que alguém o possa. não se pode, nele, ler uma história, ou sua inserção num dado contexto cultural (como nas botas pintadas por van gogh, na leitura de heidegger ). a pintura não funciona, pois nem nos convence de que aquilo seja um cachimbo, e não apenas o desenho de um cachimbo, como não aponta para cachimbo nenhum, em sua generalidade, sem chegar, no entanto, à generalidade da ideia de cachimbo. o ceci não funciona, já que não podemos precisar a que se refere, assim como o est, ambíguo (e mesmo o pipe, que não sabemos se deve ser tomado em sentido literal ou figurado – e há, nestas expressões, uma evidência dos diferentes valores que nossa cultura atribui às diferentes linguagens). o ne pas, desmentido pela imagem, também não funciona (e trocarmos valores positivos e negativos em atos falhos, bem como a identidade de termos contrários em muitas línguas ditas primitivas, e no inconsciente, segundo freud, já poderiam nos pôr em alerta sobre esta negação). se, ainda assim, juntarmos as palavras tentando superar, na frase, os maus funcionamentos de suas partes, veremos que ela também não funciona, pois ou nos diz uma obviedade (que um desenho é um desenho – e não precisamos de uma frase para sabê-lo) ou uma incongruência (que um cachimbo não é um cachimbo – com o que não fazemos nada). ou, ainda, e pior, as duas coisas. a obra, a traição das imagens, também não funciona, pois apresenta elementos conhecidos numa organização que nos é estranha. não sabemos bem o que a tela quer dizer, nem sequer onde encontrar esta resposta, o que nos leva a muitas e variadas (algumas contraditórias) leituras, todas escorregadias e inconclusivas.

nada quer funcionar nas obras. o jogo com as linguagens, o estranhamento de suas formas cotidianas, o estranhamento das coisas cotidianas, a ambiguidade, a possibilidade de construção de diversos sentidos, a poesia, o caráter paródico, tudo isto implica este aparente não funcionar. há que criar ruídos e indefinições que nos detenham a inércia da leitura que persegue a mensagem das obras, o que elas querem dizer, para que pensemos o que se pode dizer com elas.

la trahison des images, a traição das imagens. novamente a mensagem verbal apresenta-se aberta, indefinida, criando uma sensação (a rigor, incorreta, mas as linguagens nem sempre seguem as suas próprias leis) de ambiguidade, pois parece possível entender tanto que as imagens traem (a leitura correta, pela norma culta), quanto que são traídas. esta indefinição é possibilitada por uma outra, que não especifica a que as imagens traem (ou por quem são traídas, admitindo-se a outra leitura). pode-se supor que à escrita, pela relação dos termos na tela (assim como supomos que o isto se refere ao desenho do cachimbo), mas nada nos dá certeza. não há certezas para nos serem dadas.

para além desta indefinição, outro, e mais decisivo, elemento de construção da ambiguidade do título é a própria palavra traição, que pode ser tomada, entre suas muitas acepções possíveis, por enganar, falsear e descobrir, revelar. seja a que for que as imagens traiam (e lembramos a tradição do trompe l’oeil – enganar o olho), refira-se esta traição a uma generalização da natureza das imagens, ou das relações entre palavras e imagens, ou entre imagens e coisas, ou traição se refira à relação entre aqueles elementos específicos, naquela tela, com aquela composição (aquele desenho de cachimbo e aquela frase, escrita daquela maneira), magritte afirma que as imagens enganam e revelam. dizem a verdade e mentem, ao mesmo tempo.

todas as interpretações são válidas, a obra cria sentidos, tantos quantos seus elementos suscitem em seus espectadores, e esta multiplicidade é enfatizada pelo título, que ainda ecoa a palavra tradição, derivada do latim trado (entregar, transmitir, narrar, ensinar), como traição, o que, parece-me, reforça a paródia de uma lição de coisas, base de nossa tradição cultural, e reforça o caráter metalinguístico da obra, decisivo para sua constituição.

obras de arte sobre a arte, sobre as linguagens que as constituem, numa explicitação de seus mecanismos de funcionamento, na consciência de linguagem que exibem e elaboram, assumindo-se e mostrando-se como linguagem que são (uma linguagem que não se restringe a mostrar o que lhe é externo, uma linguagem espessa, opaca, que mostra, antes do mais, a si, que se diz). obras que constroem um discurso crítico sobre si, sobre sua inserção num estado da arte, num estado de coisas, através de sua contextura e de sua elaboração e reflexão dos códigos. obras que não dissimulam sua existência alheando-se num espaço outro, pois que convidam o espectador a pensá-las, a olhar-se olhando para elas, e a lê-las em seu contexto. obras que se sabem incompletas se não lidas, se não integradas ao mais das coisas, obras que reclamam uma participação ativa do espectador para que se realizem, como máquinas de produção de sentidos.

a própria noção da obra como gesto mais do que como coisa já é decorrência disto. a obra não é aquele produto final que se vê no museu, apartado da realidade. a obra é a forma de uma coisa incluir-se num dado mundo, um enunciado que se produz no fluir do espaço-tempo da cultura e a ele se destina. a obra, que é um objeto que saiu de repente do nada, não é um objeto que saiu de repente do nada (fetiche e antifetiche), inscreve-se (como todas, mas estas o fazem conscientemente) num determinado contexto.

e a obra não é apenas o mictório, mas sua escolha (e é a escolha de mutt que duchamp defende em seu artigo como o ato de criação, não importando se a peça foi feita ou não com as mãos do artista), seu envio a uma exposição, o fato de não ser exibida, o artigo na the blind man, a publicidade gerada, os debates, etc. o cheque tzanck se insere no sistema das artes para realizar sua ambivalência; a série perspectiva, de magritte, se vale de pinturas preexistentes; a traição das imagens, para além de pressupor manuais, cartilhas e anúncios publicitários, vale-se da tela o cachimbo, e é depois utilizada na tela os dois mistérios. l.h.o.o.q apropria-se de uma obra anterior, de sua significação para seu tempo, bem como da significação de sua reprodução e de sua apropriação, para depois ser reapropriada em l.h.o.o.q rasée.

ambiguidade, instabilidade, reversibilidade. duchamp joga novos lances, como ao criar o readymade recíproco – originalmente proposto, em uma nota da caixa-verde, pela utilização de um rembrandt como prancha de passar roupas, mas, posteriormente, e com maior interesse (pois o rembrandt-prancha seria tomado por um ataque dadá à tradição), na instalação de uma das cópias de fonte na posição e altura de um mictório. duchamp usa um duchamp como mictório, num novo espelhamento, que revela o truque, mas que soa igualmente como truque. duchamp zomba de si e do sistema que o aceitou, neste novo lance, que mostra que o jogo é sem fim.

participam deste jogo, ainda, a caixa-valise, museu reprodutível, com réplicas artesanais de seus objetos industriais e reproduções industriais de suas pinturas, assim como as cópias dos readymades nos anos 60, na fabricação manual de cópias de objetos industriais já fora de catálogo (objetos, portanto, tornados raros – e aqui é um lance involuntário que complica o discurso sobre o valor), que reintroduzem questões que os readymades supostamente haviam excluído dos debates sobre as artes visuais (e até do próprio sistema das artes, para algumas leituras), questões como a competência artesanal e como o fetiche das peças únicas, e que aqui são apresentadas numa referência às peças que as tinham descartado, numa operação que afirma, ao mesmo tempo, o veneno e o remédio.

tudo é matéria para os jogos de magritte e de duchamp: suas obras anteriores, a tradição, a linguagem comum, as frases feitas, os clichês, as coisas banais. tudo pode ser incorporado em seus jogos de linguagem, pois tudo isto é linguagem. e quanto mais estes elementos estiverem assentados, quanto mais fixos forem sua posição e seu significado, tanto melhor, pois maior será o efeito de sua perturbação, maior será sua capacidade de produzir novos sentidos quando alterados seus contextos, suas constituições, seus nomes.

e este é um dado fundamental para que as obras aconteçam, este estar na vida cotidiana, referir-se a ela, sem participar completamente de sua organização, sem abrir mão de assumir para si uma outra lógica, uma outra organização e uma possibilidade de fazer outros sentidos. as obras se casam com suas linguagens, com seus sistemas, e não param de desnudá-los. perturbam seu mundo, desmontam seus esquemas, mas não o destroem. sua arma é o humor, a instabilidade e a dessacralização pela piada, não a reverência da destruição. ainda aqui o jogo não se encerra em oposições. as obras não pretendem a fábula da tábula rasa. duchamp e magritte não sofrem do complexo de épico.

Bibliografia

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Referências

1. A íntegra da dissertação que deu origem ao artigo está disponível na biblioteca digital da USP.

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