busca no site


Diagrama como problema semiótico: a atividade do Grupo de Pesquisa Semiótica da Comunicação

Resumo/ Abstract

Imagem: Marina Kanzian

Irene Machado

Resumo

Partindo do estudo do diagrama do ponto de vista da lógica das relações que preside os modos de raciocínio no campo filosófico, o presente estudo cogita sobre a possibilidade de compreensão do diagrama na lógica da cultura. Sua hipótese fundamental é a proposição do trabalho dos sistemas de signos da cultura como operação de raciocínio da mente da cultura em que códigos, linguagens, sistemas variados de signos executam caminhos explicativos e, portanto, diagramáticos, em meios de comunicação. Esta é, igualmente, a hipótese que norteia as investigações do Grupo de Pesquisa Semiótica da Comunicação que encontrou no estudo do diagrama uma possibilidade de investigar a semiose na experiência semiótica dos sistemas de cultura.

Palavras-chave: diagrama; mente da cultura; raciocínios

Abstract

Based on the study of the diagram from the viewpoint of the logic of relationships and the modes of reasoning in the philosophical field, this study ponders the possibility of understanding the diagram according to the logic of culture. Its main hypothesis is the work of sign systems as reasoning operation of the mind where codes, languages​​, and the varied of signs systems perform the role of the reasoning of media. This is also the hypothesis that guides the investigations of the Research Group Semiotics of Communication in the searching for the study of the diagram as semiosis and semiotic experience of the sign systems of culture.

Keywords: diagram; mind of culture; reasoning

Artigo

Diagrama de raciocínio na lógica da cultura

Se, em vez de «diagrama», enunciássemos simplesmente «relações», talvez afastássemos as sombras de dúvidas sobre o problema semiótico aqui introduzido. A noção ganharia precisão e evidência se a ele acrescentássemos os apêndices «significação», «interpretação», «sentido». Nenhuma dessas coordenadas está afastada da latitude de nosso problema, não obstante sejam insuficientes para definir o papel do conceito de diagrama no entendimento semiótico da comunicação.

O conjunto de indagações que gravitam em torno da noção de diagrama nos estudos semióticos se reporta ao contexto da lógica das relações de raciocínio na mente subjacente, portanto, ao processo de comunicação. Contudo, o que se cogita aqui diz respeito ao estatuto de uma lógica de relações instauradas no trabalho de sistemas de signos definidos culturalmente. Quer dizer, indagamos sobre o estatuto das relações de sentido processadas no trabalho dos códigos, das linguagens e dos sistemas de signos, que cumprem as funções de raciocínio na mente da cultura. Por conseguinte, indagamos sobre a lógica do modo de raciocinar em um corpo cujos sistemas de signos são elaborações históricas de linguagens e de meios de comunicação em ambientes culturais. O corpo raciocinante aqui é cultural, logo, a lógica do raciocínio que nos interessa é a lógica da cultura (num diálogo crítico com Umberto Eco, 2002) explicitada no funcionamento de seus sistemas de signos.

Para investigar a amplitude do conceito de diagrama no exercício produtivo da mente da cultura, bem como dos modos de raciocínio dos sistemas semióticos, o Grupo de Pesquisa Semiótica da Comunicação vem se dedicando ao estudo do diagrama na comunicação. Trata-se, sobretudo, de vencer o limite conceitual de que diagrama de raciocínio é expressão de sentenças e premissas lógicas, muito mais próximas da língua do que da variedade de linguagens dos meios de comunicação. Com isso, trata-se, igualmente, de empreender esforços para sistematizar, em função dos interesses especulativos de projetos de pesquisa individuais, abordagens vigorosas, ainda que concentradas e dispersas.

Como estudiosos dos meios de comunicação – meios como veículos de signos e não apenas como meio transporte técnico – os membros do Grupo entendem suas pesquisas como trabalho teórico de construção diagramática. Num contato direto com a particularidade dos objetos comunicacionais, as investigações demandam, cada vez mais, condutas hipotéticas de caráter diagramático que favorecem o exercício comparativo entre possibilidades que as classes de fenômenos semióticos (re)presentam em diferentes esferas da cultura. As pesquisas podem ser, assim, incorporadas por toda sorte de conjectura que está na base da relação signo/objeto como fundação genuína da cultura. Estuda-se diagrama para construir os diagramas de pensamento dos objetos de nossas indagações, deixando, assim, claras nossas ideias e pensamentos (PEIRCE, 1975).

O foco do estudo do Grupo é a semiótica da comunicação circunstanciada pelos movimentos evolutivos da cultura explicitados, sobretudo, nas invenções de linguagem, particularmente da linguagem humana que emerge num dado momento da evolução. Nesse sentido, a orientação elementar das pesquisas em curso é a compreensão de ocorrências culturais que manifestam transformações de caráter sígnico, se constroem como linguagem e se desenvolvem em sistema de signos e processos de conhecimento.

Sabemos que, diante da diversidade das ocorrências culturais, os semioticistas da cultura ponderam sobre a emergência de diferentes linguagens (LOTMAN, 1978). Na verdade, as linguagens observadas como ocorrência de cultura traduzem diferentes modos de compreensão e de atualização da própria cultura. Chegou-se, assim, à compreensão do «texto da cultura» (LOTMAN, 1996), como síntese perceptual e cognitiva de dinamismos culturais que, num nível de abstração e generalidade, foi proposto como «mente da cultura» (LOTMAN, 1998). Justifica-se, desse modo, a busca na semiótica da cultura, de fundamentos teóricos para o desenvolvimento das pesquisas, fundamentos entendidos aqui como aportes para compreensão de funcionamentos no trabalho construtivo dos sistemas semiótico.

A semiótica da cultura desenvolveu instrumentos teóricos de direcionamento da análise das ocorrências culturais em sua empiria, vale dizer, na experiência dos sistemas. Nesse sentido, além de dialogar com conhecimentos consagrados no campo da sintática e semântica, a semiótica da cultura não pode prescindir dos conhecimentos desenvolvidos no campo do pragmatismo tal como formulado por Charles Sanders Peirce em seus estudos do pragmaticismo (PEIRCE, 1980). Afinal, o problema por excelência da semiótica da cultura não é propriamente a cultura como totalidade ou generalidade, mas o texto da cultura, ou melhor, a semiose transformadora da informação em texto, na iluminada formulação de Iúri Lótman (LOTMAN, 1979). Para examinar a semiose das transformações em textos de cultura, a semiótica da cultura propõe observar as transformações dos códigos, as modelizações dos sistemas de signos, a autorregulação da própria semiose na continuidade do ambiente que forjou a compreensão da semiosfera (LOTMAN, 1996).

Os estudos da semiosfera cumprem o desafio de examinar a dinâmica da continuidade – o continuum semiótico –, da singularização de procedimentos estruturais, da autorregulação geradora de organizações sistêmicas e de funcionamentos perceptuais e cognitivos, que Lotman define em termos de modelização, tradução, metalinguagem. Deixando de lado a controversa noção de sistemas modelizantes primários e secundários, orientamos o foco do estudo para a compreensão dos modelos de mundo e a dialética de sua compreensão. Um modelo que o conhecimento simplifica para poder dimensionar suas complexidades em termos de sua dinâmica estrutural (LOTMAN, 1979).

A sistemicidade de tais funcionamentos conduz a compreensão da semiose no campo da pragmática das experiências culturais como fenômenos comunicacionais. É como comunicação que códigos, linguagens, sistemas de signos interagem e autorregulam os movimentos da continuidade e da renovação fundamental para a geração de informação nova, que pode ser, agora, entendida num gradiente que vai do amplo processo de significação, à singularidade da interpretação e à explosividade do sentido.

Estamos, pois, desenvolvendo em nossas pesquisas caminhos especulativos dessas ocorrências de semiose no vigor de suas articulações empíricas e pragmáticas de um processo interativo-comunicacional. Este caminho desenha um diagrama de pensamento que, no campo dos estudos do pragmaticismo, Ch. S. Peirce formula como teoria dos “existential graphs”, “diagrammatical reasoning” ou simplesmente “diagram”. Trata-se de noções que apreendem o raciocínio em seu raciocinar não como atividade mecânica ou um automatismo, mas como atividade que se realiza graças ao intercurso de ferramentas lógicas em que o diagrama da tríade torna-se o ícone estrutural do edifício epistemológico em construção semiótica. Na “mágica do número três” articulam-se os movimentos relacionais de tudo que chamamos mente (MERREL, 2006). Assim, enquanto a noção de diagrama explicita proposições que tendem para a elaboração de conceptos e sínteses conclusivas formuladas triadicamente, a de grafo existencial enfatiza a experiência circunstancial das próprias relações triádicas. Já a noção de raciocínio diagramático acompanha o movimento da própria relação ou de metarrelação. Nesse sentido, as ferramentas de raciocínio desempenham um papel análogo ao de um cálculo que explora possibilidades para, a partir deles, delinear inferências.

Peirce desenvolveu um sofisticado sistema lógico para explorar e sistematizar a teoria dos grafos. Contudo, não é o aparelhamento da lógica que encontramos um elo aproximativo entre o diagrama como grafo e o diagrama como caminho explicativo da semiose dos sistemas culturais. Encontramos o ponto da aproximação no trabalho dos signos na elaboração da semiose cultural como uma mente. É como mente que a linguagem que surge num dado momento da evolução desenvolve códigos culturais, sistemas de línguas e linguagens cuja interação é o principal agente da singularidade que elabora o novo (processo, código, sistema). Se a cultura funciona como mente não há como negar a importância do estudo de suas formas de raciocínio, do papel de suas ferramentas cognitivas, dos dispositivos sensoriais de suas invenções.

Por conseguinte, no estudo semiótico da comunicação, o diagrama evoca um trabalho analítico em que a própria semiose não pode ser considerada senão por meio de inferências. Explico: ainda que nossos objetos focalizem os códigos, as linguagens e os sistemas de signos, o processo investigativo não pode prescindir das dinâmicas que estão na base da própria cultura. Encontros culturais, sistemas de trocas, modelizações, processos tradutórios e de recodificação, criação de metalinguagens, não se manifestam sem o forte recurso das inferências. Por conseguinte, como a geração de sentido, de transformação da informação em texto e mente da cultura – base do continuum semiótico na semiosfera e nos choques explosivos de sua evolução – podem prescindir da força do diagrama na edificação do entendimento semiótico onde quer que ele se manifeste? A definição da cultura a partir do trabalho da informação tornada texto contribui para o redimensionamento de seu caráter diagramático. Afinal, se não se trata de considerar totalidades, mas, sim, traços distintivos qualificados por possibilidades, não estamos falando de outra coisa senão de inferências.

Diagrama corresponde a uma estratégia investigativa que segue os caminhos especulativos do raciocínio ao mesmo tempo em que busca compreender a construção de sistemas semióticos em seu funcionamento e dimensionamento cultural. Diagrama acolhe o trabalho da mente na triangulação da atividade do pesquisador, do sistema, da cultura. Em última análise, o diagrama apreende o trabalho da semiose no pleno movimento de sua atividade. Semiose não poderia ser melhor definida senão como o exercício de inteligência (SANTAELLA, 1992) que o universo da mente se encarrega de colocar em prática (LOTMAN, 1990).

Daí considerarmos como ponto fundamental do estudo dos diagramas a proposição de funcionamentos sob forma de raciocínio e como exercício de mente. Focado na observação, manipulação e experiência, as formulações de Peirce orientam-se para a compreensão da continuidade e de sua concepção do ponto de vista dos conceitos de sinequismo e falibilismo.

O viés da lógica dos relativos

O que vem na sequência não passa de uma conjectura condizente com o estágio atual do estudo do diagrama nas atividades do Grupo de Pesquisa.

Assim, em respeito aos fundamentos da base teórica de sua formulação, conserva-se o horizonte das construções diagramáticas pensadas no campo da metafísica e da matemática, o que se torna muitas vezes um impeditivo para os pesquisadores não sintonizados com a temperatura das discussões filosóficas e lógicas que sustentam seus trabalhos. Não obstante, a lógica dos relativos levou às nossas pesquisas um mergulho nas formas de raciocínio, cujos processos de inferências, de movimento intuitivo e abdutivo, foram suficientes para sustentar atalhos da lógica associativa necessária para inserir o diagrama no campo das possibilidades de raciocínio.

Peirce conduz seus estudos do diagrama pelo viés da lógica dos relativos, sustentando as proposições que evidenciam as transformações sintáticas e as inferências. Como diagrama, Peirce examina a tipologia dos hipoícones, o gradiente distintivo da noção de similaridade e também daquela que entendemos entre conhecimento e manipulação. Isso para não dizer da importância das inferências e intuições na constituição de abduções que não podem ser descartadas na configuração do diagrama. Peirce encontra na cartografia a evidência das intuições e abduções para na construção do pensamento diagramático e do ícone gerador de diagramas. Peirce encontra na cartografia. Este nos parece um campo de estudo empírico fundamental para tudo o que a história da cultura construiu em termos de gráficos, mapas, notações, modelos, morfologia, estruturas e padrões que, modernamente, buscam alcançar uma síntese na noção de design.

Da lógica dos relativos nos interessa explorar do ponto de vista metodológico:

(1)  Linguagem como processo visual de interpretação;

(2)  Pensamento como sequência de quadros em movimento;

(3)  Construção topográfica da argumentação no contraponto das sentenças.

A lógica dos relativos opera com a representação visual das sentenças que conservam aqui a síntese lógica do raciocínio tal como proposto por Aristóteles. Contudo, quando projetamos as relações da semiose em sistemas culturais, sobretudo das linguagens que temos estudado, o que encontramos são relações topológicas de problematização icônica. O entendimento das linguagens icônicas nos meios e processos de comunicação tornam-se um problema a ser estudado, sobretudo na frequência de sua construção sensorial ambiental.

Se é certo que os processos de comunicação desenvolveram meios que não são apenas baseados na visualidade, não é difícil especular que o movimento perceptual e cognitivo que, a partir de sonoridades e tatilidades desenvolvidas pelos meios de comunicação, introduziu e elaborou uma lógica que não se traduz em sentenças. Chamemos de «padrão» aquilo que emerge do embate entre percepto e concepto, como forma de raciocínio em que as sentenças cedem lugar para estruturas gráfico-topológicas e algorítmicas baseadas no jogo sensorial Avançando na especulação, diríamos que, hipoteticamente, os meios de comunicação desenvolvem estruturas topológicas que cumprem funções semelhantes às formações que Peirce observou nas formas geométricas, base de seu estudo sobre os “existential graphs”. Um grafismo em pedra ou a topografia de feixes de luz numa tela eletrônica (de cinema, vídeo, câmera ou monitor) movimenta percepções e sensações, logo, por que não movimentaria “raciocínios” lógicos?

Formações de uma gráfica icônica

Em Peirce, o «grafo» sintetiza a força do conceito em seu desenvolvimento inteligente e autogeração (SANTAELLA, 1995). Em nosso estudo do diagrama como problema semiótico da cultura, «gráfico» representa um gesto de qualificação da semiose, seu traço e sua articulação visceral. Os códigos, aqui, cumprem a condição gráfica de gesto gerador de linguagem, de sustentação de padrão de conexão e, por conseguinte, de organização sistêmica. Se tal processamento floresce com as línguas e linguagens artísticas definidoras da condição antropológica do homem, sem dúvida elas se complexificam com os processamentos transformadores de condições tais como as ocorridas, por exemplo, no campo da eletricidade, que interferem diretamente no campo das linguagens icônicas. Emerge daí uma plasticidade semiótica marcada pelos procedimentos de transformação codificada, cuja base conectam-se diferentes estruturas, formatos e processos diagramáticos.

Tomar a dimensão gráfica do ponto de vista de um movimento explicitado sob forma de gesto ou concentrado sob forma de traço foi um passo importante que nos colocou no caminho do diagrama como formação icônica. Para isso, foram igualmente iluminadores os estudos de Frederik Stjernfelt (2000) inseridos no seu audacioso empreendimento sobre a diagramatologia.  Nas proposições de Stjernfelt, o Grupo de Pesquisa encontrou um caminho explicativo para constituição de eixos fundadores do estudo dos diagramas na semiótica da comunicação.

Sem enveredar para o campo de suas aplicações (biossemiótica, teoria da arte e teoria literária), tratamos de compreender as formulações fundadas no realismo icônico. Nele, o ícone é apresentado como condição operacional e como cálculo dedutivo em que a observação de relações entre partes se apresenta não apenas como funcionamento, mas também como mudanças experimentais. O ícone investe-se, pois, da capacidade de criar algo novo que é mais do que a soma das partes e da similaridade visual. Fora das relações entre suas partes, o ícone é reconfigurado. A relação com o objeto pode ser entendida pelo viés do movimento diagramático em relação ao índice e ao símbolo. Contudo, o caminho percorrido por Stjernfelt é longo e o que apresentamos a seguir é apenas um ramo colhido em seu artigo “Diagrams as Centerpiece of a Peircean Epistemology” (2000).

Ao examinar o papel do ícone nas investigações sobre o diagrama como operação mental de raciocínio, Frederik Stjernfelt não apenas avalia a retomada do ícone no campo cognitivo como esmiúça o campo operacional em que o ícone coloca em funcionamento cálculos dedutivos nas tramas de suas relações. Suas reflexões abrem caminho para as reflexões que procuram entender o diagrama como operação relacional de pensamento, que projeta formas de raciocínio com base num campo de forças cognitivas muito mais amplo do que a figurativização de um traço supostamente baseado numa semelhança.

Eis que nos deparamos com a fina distinção entre aquilo que designamos como semelhante e a operação mental geradora da relação de similaridade a partir da qual o raciocínio, sobretudo a dedução, se instala e se desenvolve. Enquanto a semelhança não pode prescindir da comparação entre as propriedades de objetos, a relação de similaridade não se orienta pela comparação, mas pela transformação de qualidades com base num processo que se manifesta de semiose. Assim, podemos indagar: entre os traços que desenham o mapa e o território a que se refere, existe semelhança ou relação de similaridade? Segundo todas as evidências, os mapas desenham o território a partir de relações de similaridade sem, contudo, estabelecer semelhanças. A composição de mapas explicita apenas e tão somente o cálculo dedutivo de toda operação mental baseada no pensamento diagramático icônico.

A formulação do cálculo dedutivo como critério operacional do ícone constrói o argumento de Stjernfelt sobre o diagrama como raciocínio dedutivo. Para ele, a dedução leva ao diagrama uma vez que o ícone se constitui por relações de similaridade entre partes de um todo sem, todavia, impedir as mudanças experimentais. Os mapas continuam a ser um forte exemplo de sua formulação.

Em todo cálculo há diferentes ações e circunstâncias implicadas, ou seja, o próprio cálculo é uma ação que se realiza baseada em circunstâncias. Ao ser compreendido como ícone, o cálculo dedutivo que orienta a construção do diagrama aciona as circunstâncias de similaridade, não aquelas relações que conhecemos pela experiência, adverte Stjernfelt, mas aquelas relações de possibilidades que o raciocínio elabora e formula como evidências. Assim, conclui Stjernfelt, o diagrama não representa apenas os correlatos relacionados, mas relações entre eles que dimensionam as evidências percebidas graças às generalidades.

Isso posto, Stjernfelt se pergunta: “Que tipo de signo pode comunicar evidência?”. Segundo suas hipóteses, não pode ser o índice, uma vez que este confia ao objeto a interpretação na consciência. Não pode ser o símbolo porque ele joga com a identidade e o hábito que está longe de qualquer evidência. Logo, só pode ser o ícone que permanece como inferência meramente aproximativa da possibilidade do percepto e do julgamento percetivo manifestado como cálculo de dedução. A evidência é, assim, um percepto que se mostra como inferência.

A evidência se apresenta como percepto numa mente percebedora e esta ação implica outros circunstantes que não são apenas da ordem da generalidade, mas incluem diferentes níveis de experiência, vale dizer, de mudanças advindas de experimentos, de provas, de vivências. No contracampo da evidência, se desenvolve outra operação de raciocínio que não pauta pelo cálculo dedutivo, mas sim pela intuição e indução de experiências. A intuição e indução acolhem os gestos de possibilidade não comprometidos com conclusões e generalidades, mas tão somente com a possibilidade. Também não pressupõem nenhuma atuação de julgamento apriorístico.

As relações de similaridade situam o ícone em relação tanto à evidência do cálculo dedutivo, quanto à intuição em contato com experiências. Em ambos os casos, o diagrama se constrói como abstração e, enquanto tal, se torna suscetível de transformação, sobretudo aquelas que se manifestam em função de usos. Stjernfelt deriva duas esferas diferentes de manifestação diagramática: uma orientada pela abstração do diagrama-tipo; outra, fruto do diagrama-in-actu.

O diagrama-tipo baseia-se em abstração em que a tipicalidade depende de orientações. Por exemplo, uma linha pode manifestar-se como diagrama de limite, conexão ou transporte (são vários predicados para um mesmo sujeito). É o uso que vai definir um tipo em detrimento do uso. Logo, o diagrama é uma abstração cuja evidência depende de circunstâncias definidas em uso. O diagrama-in-actu não se reporta a uma coisa, mas a uma ideia. Nesse sentido, o diagrama convoca um símbolo do diagrama-tipo. Mais importante, porém, que a classificação, está a formulação de que no diagrama se movimenta todo um campo de manifestação de forças da própria experimentação mental tornada o eixo sem o qual nenhum diagrama se manifesta como evidência ou experiência.

Chegamos, assim, ao pressuposto elementar de que não é a abstração que define o diagrama, mas o dispositivo de transformação entre um diagrama (tipo) e o seu uso diagramático. Diagrama é sempre um ato de continuidade de construção diagramática (in-actu), como toda operação mental. Graças à transformação, o cálculo dedutivo define a condição elementar do diagrama.

Em algumas circunstâncias, é possível falar até mesmo em experiência como fase a fase indutiva preliminar à transformação. Citamos, anteriormente, a linha como limite, conexão e transporte. Podemos dizer, agora, que uma ponte corresponde, diagramaticamente, a uma linha. Contudo, como eliminar desse diagrama a gravidade sem a qual a construção da ponte não se efetiva? Nesse caso, a gravidade se institui como fato indutivo prévio à fase dedutiva.

Ora, se a gravidade é a experiência que situa a indução como condição prévia, o diagrama forjado pela linha como “ponte” oscila entre a abstração e a abdução. Ou seja, nem tudo no diagrama é demonstração. A possibilidade abdutiva faz emergir o viés experimental da transformação que forja o diagrama como relação de outra natureza, longe até mesmo da forma de similaridade. Como observa Stjernfelt, a abdução emerge na dedução e durante a indução.

O caráter operacional do ícone extrapola o limite representativo em que o diagrama é presa simplificada de um objeto. Nesse sentido, o trabalho de Stjernfelt imprime na semiótica a dinâmica epistemológica em que o diagrama define um método analítico-interpretativo das operações mentais relacionais em que os processos de raciocínios forjam os ambientes de atos em circunstâncias de interação continuada.

O estudo do diagrama, segundo o realismo icônico de Stjernfelt, propõe um método diagramático baseado na lógica analógica em que o ícone se manifesta como possibilidade de manifestações de relações de similaridades.

Ainda que muito breve, esquemático e pontual, as ponderações feitas a partir do artigo de Stjernfelt nos permitiu chegar numa projeção particularmente significativa dos estudos do diagrama no entendimento semiótico da comunicação. Trata-se da ontologia da continuidade que não apenas conta com a potência, mas, sobretudo, assenta o diagrama como raciocínio – isso é, faculdade de empreender deduções ou conclusões a partir de observações.

Ontologia em continuum semiótico

Com base em que parâmetros conceituais poderíamos compreender o diagrama no processo de comunicação? – campo não coberto pela gramatologia de Sternfelt.

Sem perder de vista que o estudo semiótico parte da experiência, podemos indagar: que experiência se oferece à observação no contexto de comunição? Não é preciso muito investimento especulativo para chegar à interação em diferentes níveis de ocorrências. Logo, se buscarmos na interação o ato de sua continuidade sígnica, encontraremos o trabalho dos signos, ou melhor, dos sistemas de signos em semiose. Esta proposição é diagramática. Nesse sentido, diagrama se apresenta como conceito semiótico por excelência, fora do qual não se alcança nem o signo nem a semiose de sua representação, construção, continuidade. Se no diagrama a observação conjuga a experiência e a conclusão, então, diagrama não pode ser outra coisa senão funcionamento da ação e da mente. Aqui o diagrama promove a conexão de generalidade e continuidade como típica ação do signo em flagrante movimento da semiose.

Todavia, o funcionamento não está configurado na dinâmica de seu envolvimento se a continuidade entre ação e mente não for compreendida na sua emanação intervalar, ou seja, da mente que percebe. O intervalo entre mente e mundo se projeta como percepção igualmente como continuidade. O fato de termos nos acostumados com a ideia de que percepção e conhecimento ou cognição são duas faces do mesmo fenômeno nos afastou de pensar o intervalo em sua potência e nele situar a continuidade. Mesmo nos estudos semióticos empreendidos por Peirce, a tríade e as tricotomias já partem do pressuposto da relação percepção e conhecimento, não obstante, a apreensão da iconicidade não possa prescindir do intervalo configurado na relação mente/mundo, sobretudo quando por ícone alcançamos o próprio movimento das emanações do raciocínio na mente. Aqui, ícone extravasa aquilo que o signo explicita na relação com o mundo, visto que procura potencializar outra ordem de eventos mentais que não cabem na similitude do reconhecimento, mas acionam as latitudes do estranhamento.

A proposta aqui é entender o diagrama do ponto de vista da ontologia em que os objetos e eventos, além de se desenvolverem num horizonte comum de continuidade, atritam-se, chocam-se, e tornam-se singularidades sistêmicas abertas em sua capacidade interativa e fechadas em suas possibilidades. Este movimento define a ontologia do diagrama semiótica na comunicação e, consequentemente, na cultura. A comprovação empírica desta compreensão é dada pelo desenvolvimento da linguagem num dado momento da continuidade evolutiva da vida potencial no planeta.

Em nome do continuum semiótico que está na base do processo triádico de compreensão do signo, do processo de semiose e de geração de interpretantes, sentido e informação nova, não poderia ser alijado dos estudos de semiosfera.

Se, em Peirce, a noção de continuidade fornece a base a partir da qual é possível considerar o contiuum semiótico do ponto de vista das extensões e os limites do real, do ponto de vista da semiosfera o continuum permite considerar representação, modelização, reverberações, tradução, metalinguagem, e, particularmente, o trabalho de transformação criadora em sistemas de autorreferência. Nesse sentido, entendemos o estudo do diagrama nos estudos de comunicação na cultura de meios e sistemas autorreguladores que desenvolvem mente.

Bibliografia

DAU, Frithjoh. The Role of Existential Graphs in Peirce’s Philosophy.

ECO, Umberto. Tratado geral de semiótica. São Paulo: Perspectiva, 2002.

LOTMAN, Iuri. A estrutura do texto artístico (trad. M.C.V. Raposo e A. Raposo). Lisboa: Estampa, 1978.

_________. La semiótica de la cultura y el concepto de texto; El texto y el poliglotismo de la cultura; El texto en el texto. La semiosfera I. Semiótica de la cultura y del texto (Desidério Navarro, org.). Madrid: Cátedra, 1998.

_________. Acerca de la semiosfera; Assimetria y diálogo. La semiosfera I. Semiótica de la cultura y del texto (Desidério Navarro, org.). Madrid: Cátedra, 1998.

_________. Cerebro – texto – cultura – inteligencia artificial; El fenômeno de la cultura. La semiosfera II. Semiótica de la cultura, del texto y de la conducta y del espacio (Desidério Navarro, org.). Madrid: Cátedra, 2000.

LOTMAN, I. & PIATIGORSKI, A.  El texto y la funcion. La semiosfera II. Semiótica de la cultura, del texto y de la conducta y del espacio (Desidério Navarro, org.). Madrid: Cátedra, 2000.

LOTMAN, I. & USPENSKI, B. Sobre o problema da tipologia da cultura. In Semiótica russa (Boris Schnaiderman, org.) . São Paulo: Perspectiva, 1979.

_________. Sobre o mecanismo semiótico da cultura. La semiosfera III. Semiótica de las artes y de la  cultura. (Desidério Navarro, org.). Madrid: Cátedra, 1998.

LOTMAN, Yuri. The notion of boundary. The Universe of the Mind. A Semiotic Theory of Culture (trad. Ann Shukman). Bloomington, Indiana University Press, 1990.

_________. Discontinuo y continuo; La lógica de la explosión; El momento de la imprevisibilidad . Cultura y explosion. Lo previsible y lo imprevisible en los  processos de cambio social (trad. D. Muscheti). Barcelona: Gedisa, 1999.

MERRELL, Floyd. Chewing Gum, Ambulating, and Signing, all at the Same Time: Or, the magical Number Three. The American Journal of Semiotics. 22.1-4, 2006. p. 3-26.

PEIRCE, Charles Sanders. Como tornar clara as nossas idéias. Semiótica e filosofia (trad.O.S. da Mota e L. Hegenberg). São Paulo: Cultrix, 1975.

_________. Da apologia do Pragmatismo. In Semiótica (trad. José Teixeira Coelho). São Paulo: Perspectiva, 1977.

_________. Conferências sobre o pragmatismo. In: Escritos coligidos (trad. Armando M. D´Oliveira e Sergio Pomerangblum). São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores), 1980.

_________. Reasoning and the logic of things. In The Cambridge Conferences Lectures of 1898 (Ed. By K.L. Kremer and H.Putnam). Cambridge: Harvard University Press, 1992.

_________. Existential Graphs: MS 514 (Ed. By John F. Sowa). 2000.

PIGNATARI, Decio. A semiótica de Peirce e sua proto-estética. Semiótica e literatura. São Paulo: Perspectiva, 1974.

SANTAELLA, Lucia. Tempo de colheita. A assinatura das coisas: Peirce e a literatura. Rio de Janeiro: Imago, 1992.

_________. A teoria geral dos signos: semiose e autogeração. São Paulo: Ática, 1995.

SILVEIRA, Lauro B. Da Silveira. Caráter sinfônico das representações semióticas. Cognitio. Revista de Filosofia. São Paulo, PUC-SP, v. 7, n°2, 2006. p.303-315.

_________. Continuidade e descontinuidade nas questões de fronteira. Cognitio. Revista de Filosofia. São Paulo, PUC-SP, v. 10, n. 1, 2006.

STJERNFELT, Frederik (2000). Diagrams as Centerpiece of a Peircean Epistemology. Transactions of the Charles S. Peirce Society, vol. XXXVI, n. 3.

WALTHER-BENSE, Elisabeth. A teoria geral dos signos. São Paulo: Perspectiva, 2000.

ZALIZNIÁK, A. e outros. Sobre a possibilidade de um estudo tipológico-estrutural de alguns sistemas semióticos modelizantes. In Semiótica russa (Boris Schnaiderman, org.). São Paulo: Perspectiva, 1979.

 

Pdf

Download PDF

tamanho: 485 kb

  • RSS
  • email
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Google Bookmarks
  • LinkedIn
  • MySpace
  • Netvibes
  • StumbleUpon
  • Tumblr
  • Twitter