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Informação e cultura

Resumo/Abstract

Imagem: Eduardo Ferreira

Regiane Miranda de Oliveira Nakagawa

Resenha do livro Que é a informação? A propagação da organização da biosfera, na simbolosfera, na tecnosfera e na econosfera. Tradução de Adriana Braga. Rio de Janeiro: Ed. PUC Rio, 2012

Resenha

Que é a informação? A propagação da organização da biosfera, na simbolosfera, na tecnosfera e na econosfera. Tradução de Adriana Braga. Rio de Janeiro: Ed. PUC Rio, 2012.

Para responder à pergunta que dá título ao seu livro, Robert K. Logan toma como base a crítica endereçada ao conceito de informação formulado, em 1948, pelo engenheiro elétrico e matemático Claude Elwood Shannon. Como é sabido, Shannon define a informação como uma variável numérica capaz de ser mensurada, com o intuito de efetuar a quantificação de uma mensagem veiculada de um polo a outro para, com isso, reduzir possíveis interferências na transmissão. Em momento algum, a conceituação feita por Shannon menciona os problemas relativos à intenção comunicativa do emissor ou à produção de significados por parte do receptor.

É justamente em contraposição a esse aspecto que Logan encaminha seu raciocínio, na tentativa de definir aquilo que ele entende por informação. Para tal, retoma o pensamento de Donald Mackay que, em 1951, apresenta um ponto de vista distinto daquele de Shannon, ao enfatizar que a informação não se dissocia do seu significado, que, por sua vez, apenas pode ser definido em correlação a um contexto mais amplo. Essa perspectiva ainda é alargada pela conceituação desenvolvida num artigo (2007) citado por Logan, intitulado “Propagating Organization: An Enquiry” (POE), de sua autoria em conjunto com Stuart Kauffman, Goebel, Este, Hobill e Shmulevich, que aborda os fluxos de informação que distinguem os sistemas bióticos. Tendo por base aquilo que Logan define ser a concepção darwiniana sobre a descendência, a modificação e a seleção das espécies (2012:77), o POE define a informação instrucional ou biótica pela capacidade que um organismo possui para propagar a sua organização. Assim, organização e informação encontram-se diretamente relacionadas, da mesma forma que, pela relação que estabelece com o seu entorno, cada organismo constrói uma maneira própria de propagar a sua informação, pela qual se torna possível apreender os seus propósitos como também os seus significados.

Mesmo que reconheça a especificidade da informação biótica, uma vez que ela não se restringe apenas a um padrão que orienta a multiplicação de um sistema, mas  também abarca um componente “material” como o DNA, Logan conduz sua argumentação com o objetivo de buscar apreender como ocorre a propagação da organização no âmbito da simbolosfera, uma esfera essencialmente abstrata que distingue o campo de ação da mente humana. Aqui, o autor retoma os preceitos já desenvolvidos por ele em sua obra anterior, intitulada “Extended Mind: the emergence of language, the human mind, and culture” (2007), na qual defende que a mente consiste numa bifurcação do cérebro, ocasionada pelo pensamento conceitual incitado pela linguagem verbal. É essa forma de cognição que Logan define como pensamento simbólico, cuja evolução pode ser apreendida pelo surgimento de outras formas de linguagem que, para ele, também são de natureza simbólica, como a escrita, a matemática, as ciências, a computação e a internet. Ainda dentro dessa linha de pensamento, também fazem parte da simbolosfera a cultura, as leis, a economia, a tecnologia, a música e as artes em geral. E, da mesma forma pela qual os organismos bióticos são capazes de se multiplicar por meio dos genes, a replicação de cada sistema que compõe a simbolosfera ocorre pelos memes, de modo que a transmissão da descendência acontece quando um meme é incorporado por uma mente individual, que o repassa a outra e, assim, sucessivamente. Dessa maneira, boa parte da obra é dedicada ao estudo do modo pelo qual cada uma dessas esferas simbólicas propagam a sua própria organização e, com isso, geram informação.

Ao longo da leitura do texto, chama a atenção o enfoque que Logan dá à linguagem verbal na constituição da cultura e dos demais sistemas a ela relacionados,  tanto que o autor chega a definir a cultura como a “informação simbólica que atua como uma ferramenta de adaptação mental e é exclusiva dos seres humanos” (2012:99). Então, como apenas os homens desenvolveram a linguagem verbal e o pensamento conceitual, logo, a cultura consiste num atributo distintivo do Homo sapiens.

Ora, sabemos que esse ponto de vista é passível de ser questionado quando contraposto a outros campos do conhecimento, tais como a etologia, a biossemiótica e a semiótica da cultura, uma vez que, apesar das suas especificidades, para todas essas áreas, o entendimento da cultura vai muito além das esferas verbal, simbólica e antropocêntrica. Assim, contrapor o enfoque de discussão proposto por Logan sobre a propagação da informação  a outras formas de compreensão da cultura que não tem por base uma matriz simbólico-verbal nos levaria, muito possivelmente, a ampliar o próprio entendimento daquilo que é a informação. Fica lançado o desafio.

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