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Música para Abulia

Resumo/Abstract

Luiza De Carli sobre fotografia de Pedro Ungaretti

Pedro Ungaretti

Resumo

Relato sobre o processo de composição e produção da trilha sonora para Abulia, vídeo de Aimeê Ferreria, Bruno Zaitsu, Midori Motoki e Tamira Waki, baseado no quadro de Gil Vicente Homenagem a Osman Lins, realizado para as disciplinas Projeto Visual V e Tecnologias Audiovisuais do curso de graduação em design da Fauusp.

Palavras-chave: música; Abulia; Gil Vicente;

Abstract

Narration about the composition and production process for Abulia’s sound track, a video by Aimeê Ferreria, Bruno Zaitsu, Midori Motoki and Tamira Waki, based on Gil Vicente’s drawing Homenagem a Osman Lins and produced for the subject Visual Project V and Audiovisual Technologies at USP’s design course.

Keywords: music; Abulia; Gil Vicente

Vídeo/Obra

Gil Vicente, Homenagem a Osman Lins (2002, Nanquim 152 x 280 cm)

Ensaio

Pedro Ungaretti

O envolvimento com o projeto Abulia aconteceu em junho de 2009, quando meus queridos Aimeê Ferreira, Bruno Zaitsu, Midori Motoki e Tamira Waki, responsáveis pelo desenvolvimento desse vídeo, me convidaram para fazer sua trilha sonora. Abulia é um stop motion (técnica que justapõe fotos em sequência, de modo que estas constituam os frames de um filme) de imagens em preto e branco. Sua narrativa descreve a vida de uma personagem solitária tomada pela monotonia, melancolia e, fazendo jus ao próprio termo que nomeia o projeto, uma mórbida falta de vontade. Tem-se como mote, também, a dúvida, que marca fortemente o desfecho do vídeo, e o suicídio, que se faz cada vez mais sedutor com o passar arrastado e sem sentido dos dias.

Bruno Toshihisa Zaitsu

o processo

Pois bem, no momento em que me vi encarregado da trilha sonora, as primeiras ideias que surgiram utilizaram somente ecos, sons contínuos sutis. Um modo delicado de abordar a temática mórbida do vídeo. A música iria se referir mais à personagem feminina do que à depressão dos seus dias. Entretanto, os primeiros testes usando o computador e minha ignorância técnica acerca dos programas de gravação e edição de som me fizeram desistir da ideia. Talvez o melhor caminho fosse mesmo o violão, instrumento com o qual me relaciono há alguns anos, e uma música que utilizasse menos o computador.

Em seguida, testamos um fundo musical muito simples e limpo: pares de notas que ecoariam por certo tempo até que o novo par viesse. Esse eco criaria uma atmosfera intimista, ao mesmo tempo em que as próprias notas se encarregariam das variações tonais. A referência era clara e direta ao filme Diários de Motocicleta (2004), dirigido por Walter Salles, cuja trilha sonora, composta por Gustavo Santaolalla, fazia uso, em certos momentos, do mesmo recurso. Parecia-me perfeitamente adequado ao vídeo, uma vez que a personagem lida com vazios interiores (os grandes espaços entre as notas), enquanto suas emoções — ou a ausência delas — permeiam homogeneamente seus dias (os ecos das referidas notas).

Entretanto, tal recurso se tornaria exaustivo ao longo de quase três minutos de vídeo. Era também realmente necessária uma música que transparecesse melhor o interior da personagem, algo com mais intensidade e potência de interpretação.

brainstorming

Você deveria fazer esse brainstorm aí com o computador gravando.
(Aimeê, no primeiro encontro para discutirmos a trilha, dia 6 de junho)

Defendo a ideia de que o design e as artes têm muito em comum, fato responsável pela permeabilidade das fronteiras entre essas áreas. Não cabe a este relato entrar especificamente no mérito da questão. Entretanto, como durante a produção da trilha sonora de Abulia me deparei com frequência com esse fato, não posso deixar de colocar aqui um pouco desta visão.

Como primeiro exemplo, temos o brainstorm, técnica projetual que consiste na dinâmica, individual ou em grupo, de se jogar ideias conforme elas surgem à mente, sem exercer qualquer tipo de filtro crítico a princípio. A análise crítica, seguida de seleção de alternativas, é feita posteriormente, uma vez que se esvaziem as ideias.

Pois bem, essa mesma técnica pode ser aplicada no processo de composição de uma música. A diferença, neste caso, está no fato de as ideias não saírem verbalmente ou por meio de desenhos, mas sim através do instrumento musical. Trata-se de um momento de experimentação direcionado pelo problema, improvisos com uma linha guia, e o mínimo de julgamento crítico possível para a geração de alternativas. Este problema inicial é tanto o conjunto de imagens do vídeo quanto as possíveis mensagens, ou seja, os possíveis efeitos que a música pode produzir nos ouvintes. Importante ressaltar que, dada a subjetividade que cada um de nós tem, não haveria uma única mensagem, mas sim várias, uma dentro de cada ouvinte. Cabe aos diversos elementos que constituem a música (tema, harmonia, melodia, ritmo, etc.) delimitar a diversidade de teores que essas mensagens podem ter.

Retornando ao processo — de um brainstorming inicial tiram-se temas (motes dos quais são extraídas variações) e/ou melodias (notas em determinada sequência que possui sentido), que passam por uma seleção. Um novo brainstorming é feito sobre esses selecionados… e assim por diante.

De posse de uma seleção coerente de melodias, pode-se partir para a estruturação da música.

o encontro de 6 de junho

Neste dia, usando o brainstorming, cheguei a uma linha melódica que parecia ter potencial expressivo, extensivo (no sentido de poder variar pelo menos o suficiente para preencher o tempo do vídeo sem criar monotonia) e ainda agradava aos integrantes do grupo. Sobretudo, era simples — pré-requisito (mais um termo projetual) ao se lidar com uma trilha sonora. A música deve ser pano de fundo para a ação que se desenvolve na tela, dar-lhe respaldo e ajudar a delimitar o campo de interpretações possíveis por parte do espectador; e não se sobressair à imagem.

A melodia lidaria com poucas variações e o uso de alguns ligados (termo para quando, no violão, chega-se a uma segunda nota com um movimento da mão esquerda, sem atacar as cordas novamente com a mão direita, criando uma progressão contínua entre os sons). As notas viriam em um ritmo bem marcado, assim como os graves. Se estes teriam alguma variação, ainda estava em aberto.

a escolha do violino

Para que a música fizesse sentido junto ao vídeo, era importante que ambos dialogassem não somente na temática, mas em seus símbolos também. Em Abulia temos uma única personagem solitária. Sua condição, até onde podemos imaginar, é autoimposta e tem como responsável sua indisposição para se pensar, refletir e, assim, mudar. Dessa forma, seria coerente se tivéssemos somente um instrumento fazendo o fundo musical e que os ecos de suas notas fossem os responsáveis pela ambientação da música, com uma melodia que fosse alheia a qualquer andamento que fugisse da monotonia, da repetição, da rotina. Entretanto, abriu-se mão dessa coerência tão fervorosa em prol de uma música de carga emocional mais densa, que pudesse ser expressiva e eficiente nessa expressividade. Com o tema selecionado em 6 de junho, somente o violão não passaria tudo o que queríamos transmitir com a trilha sonora.

Dessa forma, chamei para participar do projeto uma velha amiga, Cecília Rosa, violinista por prazer. O violino parecia extremamente adequado: suas notas longas criariam a atmosfera que o violão, sozinho, não conseguia fazer bem. Essas mesmas notas ainda dariam um tom mais feminino à música, que estava, até então, fundamentada nas notas curtas marteladas em ritmo constante do violão. O uso do segundo instrumento ainda nos permitiria explorar possíveis dicotomias da personagem, como a monotonia da rotina em contraposição à tensão que esta desenvolvia dentro da protagonista. Além disso, nos aproximaríamos da estética preto e branco do vídeo: duas cores e seus diálogos (os tons de cinza) criando a imagem; dois instrumentos e suas interações criando a música.

11 e 12 de junho

Com o convite aceito, partimos para o brainstorming do violino. Essa dinâmica foi um pouco diferente, pois a estrutura da música já estava montada. Portanto, houve improvisação, mas dentro de um campo já bem definido.

21 de junho

Nesse dia, nos reunimos na casa de nosso segundo parceiro, Georges Boris, para gravar a música. Novamente um momento de negociação entre coerência com o vídeo e coerência com a mensagem expressiva que queríamos passar com a música.

Enquanto Cecília e eu ensaiávamos, Georges sugeriu colocarmos um novo violão fazendo a mesma melodia do original, mas alguns tons acima. A combinação de ambos tinha um efeito sonoro ótimo, entretanto entrava em choque com o conceito criado pelo dueto entre um violino e um violão. Era importante, era coerente, que fossem somente esses dois instrumentos que criassem a música de Abulia.

Após as gravações e mixagens dos instrumentos, Georges deu uma nova sugestão: colocar chiados no fundo da música para dar mais volume a ela. Essa foi acatada, pois além de um efeito ambientador eficiente, os chiados remetiam à temática e à estética do vídeo (como será mostrado mais adiante). Chiados gravados, selecionados e adicionados ao violão e violino — tínhamos nossa música.

Pedro Ungaretti

Cecília Rosa

parênteses: o prazo e a música

O tempo que tínhamos para fazer a música foi um fator crucial para o seu desenvolvimento. A rápida escolha do tema para o violão, seguida já da estruturação da música, a adição do violino e a pós-produção, fez com que nosso olhar ficasse estritamente focado no que a música tinha que ser e não no que ela poderia ser. Durante todo o processo criativo, as escolhas foram feitas de acordo com o que o vídeo pedia e o prazo que tínhamos. Portanto, sentimos que a música ainda tem muito potencial. Novas linhas de violino para acompanhar a original, um novo violão, quiçá até mesmo mais instrumentos. Mas então ela terá que se desligar do vídeo para ganhar vida como música, deixando a categoria de trilha sonora para ser fiel somente a si mesma e às mensagens que quisermos passar.

a música e o vídeo

Silêncio, tela preta, título. Um tempo curto para limpar o receptor (peço licença para denominar dessa forma aquele que assiste ao vídeo) dos estímulos que ele tenha recebido até aquele momento. Uma tentativa de esvaziá-lo para que a cena e a melodia que se seguem tenham uma recepção que se quer limpa, o mínimo possível direcionada por fatores externos.

Introdução e chiado. O violão entra apresentando o tema de uma forma singela. Duas linhas, uma de médios/agudos, outra de graves. Os graves são repetitivos (a nota Lá, sempre), martelando insistentemente, seguindo a rotina da personagem. São o tédio. A mesma atmosfera que está sempre, sempre lá. Terão somente algumas alterações de intensidade e ritmo, como veremos mais à frente.

Ao mesmo tempo ocorre a variação nos médios, de Dó para Si e, depois, de Sol para Lá. Variação que também é repetitiva, martelada.

Há a presença dos ligados, que trazem fluidez a algumas passagens da melodia — referência à água do final da narrativa. Por mais que a rotina seja repetitiva, a protagonista ainda é uma pessoa com sentimentos (mesmo que estejam esvaziados), e estes têm comportamento mais fluído do que martelado. É como a repetição se infiltrando na personagem, pouco a pouco, ligado a ligado.

O chiado entra para dar volume à música, ajudando a criar a atmosfera juntamente aos ecos dos graves. Como uma estática, a falta de sinal ou a recepção de um sinal confuso e fraco. Assim como as vontades da protagonista, seus impulsos, sua capacidade de refletir sobre si mesma, seu eu: tudo é fraqueza.

E o chiado ainda é instável, é feito de estática e silêncios, entrecortado de modo a travar diálogo com a estética do vídeo (feito em stop motion, tem um movimento “quebrado” devido ao número baixo de quadros por segundo).

Entra o violino. Sua melodia traz a melancolia presente nas imagens. Inicialmente, faz a ponte entre a atmosfera da música (os graves do violão; os chiados agora estão quase imperceptíveis) e as variações Dó-Si, Sol-Lá. O violino se apresenta de uma forma simples: duas notas longas para suprir algo que faltava ao violão: uma continuidade que envolvesse suavemente o receptor, uma vez que a melancolia age da mesma forma. Ela envolve devagar, simples, tênue, não se fazendo notar diretamente, mas sim pelas respostas que temos aos estímulos do mundo à nossa volta.

O violino desenvolve sua melodia principal, seu motivo. Uma vez instalada, a melancolia ganha força própria (00:37), como algo que, se não percebido em sua gênese, torna-se realmente difícil de ser removido por conta própria do indivíduo que padece (lembrando que lidamos aqui com uma personagem de isolamento autoimposto). Da mesma forma, o violino entra em sua melodia principal carregando consigo o violão para uma leve variação da sua base (do Dó-Si, Sol-Lá, passa para Dó-Si-Dó-Ré-Dó). É importante notar como os instrumentos ligam dois tempos, alongando certos sons: o violino com a terceira nota desta melodia, um Mi, e o violão com sua quarta, um Ré, mostrando como se sucede a vida da personagem: de minuto a minuto, de dia a dia, os elementos que ligam as frações de tempo são sempre os mesmos, os mesmos sentimentos, a mesma falta de vida, o mesmo Lá martelando ao fundo, os mesmos Mi e Ré terminando um dia e começando o seguinte.

Ao chegarmos à primeira ponte (01:09), os graves do violão dobram sua velocidade, enquanto os agudos do instrumento começam um jogo para insinuar o movimento pendular da vida da personagem:

primeiro temos
Lá e Dó

depois,
Lá e Ré

novamente
Lá e Dó

então,
Lá e Si

voltamos para
Lá e Dó

novo pico em
Lá e Ré

meio em
Lá e Dó

novo vale em
Lá e Si

Não há o novo. Sempre as mesmas emoções, os mesmos cigarros revisitados. O peso da rotina.

Ainda nesta parte, o violino vem, se me permitem a expressão, dar liga às notas soltas do violão, criar o chão sobre o qual martela o Lá e pendulam Dó, Ré e Si. Suas notas contínuas também são de grande valia à dramaticidade a que a música se propõe.

Quanto às imagens do vídeo: o cigarro é um elemento de segurança para a personagem no momento em que ela olha para fora de sua casa, para fora de seu ambiente. Talvez o cigarro seja o que a faz aguentar olhar para o mundo, para além do ciclo vicioso da sua rotina. Ou ainda, talvez ele seja o que a impede de perceber sua situação, uma vez que o tabaco inebria o desespero que poderia surgir diante do confronto com a realidade. O desespero, a indignação, a revolta, seriam estopins para uma mudança de postura. Tal tensão entre renovação latente e continuidade voluntária daquilo que não quer mudar pedia que a música se intensificasse.

Bruno Toshihisa Zaitsu

Segunda ponte. Com os graves ainda na velocidade dobrada, a linha do violão desenvolve uma relação cromática decrescente (01:38). Como essa progressão de meio em meio tom é algo com o qual não estamos acostumados, já que a maioria das músicas populares lida com outros tipos de escalas musicais, com intervalos maiores entre as notas, ou então escalas que não mantêm em toda a sua extensão intervalos curtos (de meio tom), essa sequência cria desconforto e, sobretudo, tensão. A tensão que se desenvolve dentro da personagem. Tensão entre quais elementos não sabemos — se vazios puderem criar tensão entre si, então esta será. A falta de vontade e a falta de vida se tencionando, ansiando por um desfecho, “exigindo-o”, se esta expressão parecer mais adequada.

A linha de violino endossa ainda mais essa sensação, pois tem um andamento que ora acompanha a descida de tons, ora vai na direção oposta, subindo na escala.

Como se não fosse suficiente, o violão ainda segura o último acorde da sequência, repetindo-o uma, duas, três vezes (01:59 a 02:04). É a tensão aumentando, a expectativa sendo criada ao final da frase que de repente se alonga, como que por uma vontade sádica de ver até onde pode aguentar a tensão que ela ajuda a criar.

Pronto, chegamos então ao clímax da música. Como uma corda que estoura quando ultrapassa seu limite de tensão, violino e violão voltam às suas melodias principais. O primeiro trazendo drama e amarração às horas e aos dias e o segundo, o peso da rotina e do seu vazio. É o clímax da rotina, o clímax da melancolia, o clímax da falta. Esses fatores finalmente terão seu tão esperado desfecho, uma vez que a personagem entra na banheira e se entrega à água.

Enquanto vemos seu rosto e a água brincando de escondê-lo, a música se ameniza (02:21). O violão perde a força, sua melodia volta ao tema introdutório, enquanto o violino flerta com ele — sua melodia passa a aproximar-se da de seu acompanhante, fazendo uma introdução às avessas. Quase podemos ouvir o chiado que nos recebeu ao início da música (e do vídeo).

Debora Midori Suguri Motoki

E como se tudo aquilo que viera ganhando força (a Rotina, a Melancolia, o Vazio) rapidamente a perdesse, violino e violão também se perdem (02:38). Este esquece os graves (não há mais rotina, não há mais o Lá) e se concentra somente em um Dó que se repete insistente, enquanto o violino parece indeciso entre Dó e Si e acaba por se render, em seus últimos segundos, ao Lá (o outrora tão presente Lá) em 02:53.

Enquanto entram os créditos, a personagem permanece semissubmersa e, mais importante, semiemersa.

A última nota continua pulsando, mas seriam esses os últimos momentos da personagem, sendo cada Dó uma derradeira respiração, um último batimento cardíaco? Ou essas notas marcam, na verdade, a introdução de uma nova melodia, sendo a água, então, não o elemento que finaliza, mas sim aquele que batiza e revigora? Resta-nos a dúvida e que cada um fique com seu copo meio cheio ou meio vazio para saná-la.

Referências

1. Vídeo Abulia, ficha técnica e relato de Pedro Ungaretti no link Extra do site do artista Gil Vicente.

2. Outros trabalhos de Pedro Ungaretti no Flickr e no Youtube.

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