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O ciclo da comunicação científica na semiosfera

Resumo/Abstract

Imagem: Luiza De Carli

Maria do Carmo Avamilano Alvarez

Resumo

Este ensaio apresenta a construção de um objeto de pesquisa com base na teoria da semiótica da cultura. São feitas reflexões sobre os sistemas modelizantes envolvidos no ciclo da comunicação científica em grupo de pesquisa de universidade, desde a busca da informação até a publicação dos resultados dos estudos. As linguagens naturais (idiomas) e artificiais (linguagem de busca em computadores e vocabulários controlados) são identificadas. A partir disso, o objeto se delineia como o conjunto de textos da cultura e a própria semiosfera, representada pelos diálogos dos sujeitos da cultura e o processo de comunicação envolvido. Alguns desafios se apresentam, como: a necessidade de aprofundamento na teoria da semiótica da cultura, a participação do pesquisador também como sujeito da pesquisa e o trabalho com a interdisciplinaridade para estudar um objeto com as vertentes da ciência da informação, biomedicina, semiótica e outras disciplinas a elas relacionadas.

Palavras-chave: semiótica da cultura; semiosfera; sistemas modelizantes; comunicação científica

Abstract

This essay presents the construction of an object of research on the theory of semiotics of culture. Reflections are made about the modeling systems involved in scientific communication cycle in the university research group, from the search of information through the publication of study results. Natural languages (languages) and artificial (query languages on computers and controlled vocabularies) are identified. From this, the object emerges as a set of texts and their own culture semiosphere, represented by the dialogues of the subjects of culture and communication process involved. Some challenges are presented: the need for deepening the theory of semiotics of culture, the researcher as a subject of research, and the interdisciplinary work in order to study an object from the point of view of information science, biomedicine, semiotics and other disciplines related to them.

Keywords: semiotics of culture; semiosphere; modelling systems; scientific communication

Ensaio

No cenário da cultura

O cenário é uma grande cidade, crescendo rápida e desordenadamente, e abrigando complexas redes de relacionamentos, reais ou virtuais. Fluxos intensos de pessoas, veículos, objetos se entrecortam e desenham o perfil desse ambiente. Para alguns, a percepção desse cenário é de medo, por considerarem impossível decifrar os signos que se apresentam, para outros é de descaso, por não perceberem informação nova.

Algumas instituições procuram explicar os fenômenos da natureza e da cultura de forma mais sistematizada e regulamentada. São elas as universidades com seus institutos de pesquisa, faculdades, cuja comunidade acadêmica gera conhecimento a partir da informação para tentar entender a vida e seus processos.

Dentro das universidades há também divisões culturais na aquisição do conhecimento. Há tempos é explorado o fato de não haver comunicação efetiva entre as ciências e as humanidades: “essa dialética complexa entre ciência pura e ciência aplicada é um dos problemas mais profundos da história científica” (SNOW, 1995: 92). Trata-se da discutível dicotomia das ciências puras e aplicadas.

No mundo acadêmico, as implicações referentes a informação, pesquisa e conhecimento se desenvolvem crescentemente e se inter-relacionam com os estoques de informação institucional ou sistemas de informação ou, ainda, bibliotecas.

As bibliotecas nas universidades seguem o padrão cultural das unidades a que estão ligadas. A área da biomedicina, por necessidade de acompanhar o desenvolvimento tecnológico em diagnósticos e tratamento de doenças, demanda informações atualizadas para seus pesquisadores. Desse modo, profissionais da informação tiveram que acompanhar o desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação que ocorreram acentuadamente a partir do pós-guerra, culminando com a internet.

A internet é um sistema aberto que proporcionou que os estoques de informação se comunicassem entre si, funcionando interligados em sistemas de rede. As interfaces de comunicação entre os sistemas e os usuários da informação estão se tornando cada vez mais amigáveis e interativas (ROWLEY, 2002).

Os sistemas de informação e comunicação estão transformando a sociedade, impactando na globalização, nas mudanças nos padrões de emprego, na responsabilidade pelo custo da informação, nas questões de direito autoral e propriedade intelectual, na segurança e proteção dos dados e nos padrões e controle bibliográfico (ROWLEY, 2002).

O cenário acadêmico torna-se mais complexo com as transformações tecnológicas e conceituais, levando a questionamentos sobre conceitos de ambiente e cultura.

Problemas e questões

Focando um pouco mais no ambiente acadêmico, observamos os conflitos dos pesquisadores por terem que lidar com a grande quantidade de informação científica, as divergências culturais, as cobranças de produção acadêmica, as dificuldades em entender as linguagens tecnológicas e as bases de dados bibliográficas, e conviver com a interdisciplinaridade.

Trabalhando como bibliotecária no serviço de atendimento aos pesquisadores de bibliotecas acadêmicas por quase três décadas, tive a oportunidade de conviver com esses conflitos e junto aos pesquisadores tentar buscar saídas para tornar o desenvolvimento de pesquisas mais ágil e tranquilo. Meu envolvimento em grupos de pesquisa foi se tornando cada vez mais intenso, a ponto de acabar sendo convidada a participar de pesquisas junto a alguns desses grupos.

Uma das etapas da pesquisa é a recuperação da informação científica em bases de dados, que tem sido objeto de trabalho do profissional bibliotecário ou cientista da informação. Os sistemas de recuperação da informação compreendem as etapas de indexação, armazenamento e recuperação (ROWLEY, 2002). As responsabilidades pela indexação e armazenamento nos sistemas de informação ainda são quase que exclusivas do profissional da informação, mas a recuperação da informação propriamente dita pode também ficar a cargo dos pesquisadores.

A internet possibilitou ao próprio pesquisador realizar as buscas nas bases de dados disponíveis online, sem a intermediação de profissionais de bibliotecas, o que é considerado por Mirim (2004) uma inovadora e revolucionária forma de pesquisa, uma vez que nem sempre é possível traduzir as necessidades de informação do pesquisador ao profissional. Antes da internet, o acesso às bases de dados era feito por intermédio de discos óticos como CD-ROM, que eram adquiridos pelas bibliotecas, e as buscas eram executadas normalmente pelo bibliotecário a partir da entrevista com o pesquisador.

Com a implantação dos repositórios institucionais, a participação dos pesquisadores nas etapas de indexação e armazenamento nos sistemas tende a aumentar também. E mais recentemente estão sendo divulgadas novas ferramentas disponíveis na internet, que contribuem para que o próprio pesquisador, além de realizar suas buscas, possa armazenar e organizar a informação para utilização quando necessário. São programas conhecidos como Endnote Web, Zotero, Connotea, entre outros. Segundo Hull e col. (2008) o desenvolvimento desses instrumentos é importante para tornar as bibliotecas digitais mais acessíveis e úteis para os pesquisadores.

Nessa trajetória, tenho convivido com pesquisadores e estudantes em busca de informações relevantes para ensino e pesquisa e tenho me deparado com satisfações e insatisfações com o que a biblioteca lhes oferece. Antes da internet, a oferta de informação se resumia a acervos impressos de livros e revistas científicas e a busca era feita em fichários e bibliografias impressas. Após a internet, as publicações impressas como livros e revistas se transformam em suporte digital e as bibliografias estão representadas em várias bases de dados bibliográficos, oferecidas intensamente à comunidade universitária, normalmente por intermédio das bibliotecas.

Outra mudança significativa para a recuperação da informação foi a disponibilidade de buscadores livres na internet, possibilitando a busca de informação no ciberespaço.

Com tantos instrumentos oferecidos com o advento das novas tecnologias de informação e comunicação, os problemas na recuperação da informação pareciam ter sido solucionados. Porém ainda se presencia pesquisadores frustrados ou com a falta de informação relevante ou com o excesso de informação recuperada. É um paradoxo da comunicação: pouca ou muita informação levando à insatisfação.

Algumas vezes observo usuários das bibliotecas consultando o resultado de pesquisas em bases de dados, tecnicamente bem elaboradas, e verificando que do total de itens recuperados somente uma pequena porcentagem interessa realmente para sua pesquisa. Observo também algumas mudanças de foco nas pesquisas devido aos resultados encontrados nas buscas bibliográficas.

As falhas na recuperação, segundo Saracevic (2008), na maior parte das vezes, decorrem de responsabilidade humana: como as questões foram formuladas e interpretadas, como a indexação foi feita e como a recuperação foi conduzida. Esse autor comenta sobre pesquisa, coordenada por Lancaster em 1969, que analisou a base de dados Medline, cujos resultados apontaram duas falhas: de revocação (documentos importantes não foram recuperados) e de precisão (documentos recuperados que não foram importantes).

Para Saracevic (2008), as sugestões levantadas por Lancaster ainda são importantes. As buscas e a interação humano-computador envolvem grande quantidade de decisões humanas, mesmo em sistemas sofisticados e automatizados. Saracevic lamenta que não estejam mais sendo feitos esses tipos de estudo, devido à complexidade envolvida, o tempo consumido e a impossibilidade de serem feitos automaticamente por computador.

A base do sistema de recuperação de informação é prover o usuário com informação o mais relevante possível, e relevância é uma noção humana. A relevância estabelecida por humanos está carregada de problemas e inconsistências no julgamento. A determinação da relevância é frequentemente um processo incerto, e a representação da informação é normalmente inadequada e incompleta (RATZAN, 2004).

Assim, algumas questões se colocam: por que nem todos os registros recuperados são relevantes? Por que alguns pesquisadores preferem consultar buscadores na internet, como o Google, ao invés de bases de dados especializadas? O que a internet transformou na relação entre o profissional da informação e o usuário da informação?

Outra etapa da pesquisa é a escrita do trabalho científico para sua divulgação, fechando o ciclo da comunicação científica. Também nessa etapa, conflitos são levantados por pesquisadores, como dificuldades em definir:

  • a estrutura do trabalho – que modelo usar? IMRD (Introdução, metodologia, resultados e discussão), trabalho discursivo, ensaio?
  • a metodologia – de natureza qualitativa, quantitativa?
  • o referencial teórico;
  • as normas bibliográficas e de citação – que modelo usar? Na área da saúde predominam duas principais: Vancouver (grupo de editores de revistas biomédicas) e ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).

No serviço de atendimento da biblioteca, o profissional bibliotecário tem como meta esclarecer sobre os padrões adotados na instituição para a escrita do trabalho, bem como oferecer as possibilidades de títulos de revistas convenientes para a submissão do artigo científico. Nesse momento, devem ser observadas todas as questões relacionadas às políticas de produção acadêmica, como: qual revista tem impacto maior quanto à citação pelos pares? Se eu publicar em determinada revista a faculdade terá melhor nota nas instituições de avaliação do país?

À procura de um referencial teórico

Para buscar explicações ou, pelo menos, desvendar algumas das questões que surgiram na minha carreira profissional, referentes à comunicação científica e acadêmica, e à participação da ciência da informação neste processo, era preciso ter como base um referencial teórico, um dos dilemas dos pesquisadores. O referencial teórico da ciência da informação ainda está em construção. Seu objeto de estudo tem se desenhado como a “informação como coisa”, como define Buckland (1991), ou a “informação como processo para chegar ao conhecimento”. Esse refinamento do objeto é necessário para evitar seu compartilhamento com todas as áreas do conhecimento, uma vez que informação é objeto de toda a ciência.

A complexidade das questões levantadas aponta para a área da comunicação. Para que a comunicação se efetive entre os sistemas de informação e os usuários é necessário que os critérios que nortearam a transformação da informação pelos sistemas sejam disponibilizados para os receptores (usuários). De outro modo, podemos dizer que o conhecimento dos códigos e linguagens é fundamental para a efetivação da comunicação.

Outra observação é a forte presença de características culturais nos grupos de pesquisadores em contato com os grupos de profissionais da informação, que atuam numa mesma cultura institucional. O contexto onde se processa essa comunicação chama a atenção e parece ser fundamental para se entender o objeto da pesquisa.

Nessa ocasião houve um contato com a semiótica da cultura numa disciplina, cujo objetivo era apresentar campos de estudo semióticos, com ênfase na semiótica da cultura, desenvolvida por semioticistas da Escola de Tartu-Moscou, que propõem o estudo da semiótica com base nos vários sistemas de signos da cultura.

A cultura, neste ponto, passa a ter um conceito diverso do até então apresentado, ou seja, cultura é o conjunto de sistemas semióticos, guarda a memória não-hereditária da coletividade de forma dinâmica, ou ainda, pode ser representada por um conjunto de relações de expressão – signicidade – e conteúdo – signo (LOTMAN; USPENSKII, 1971). Esse conceito é diferente do conceito antropológico ou sociológico, apesar de serem inter-relacionados.

A cultura como dinâmica transformadora e processadora da informação trouxe-me novas ideias e percebi que fazer parte dessa cultura que pretendo estudar, interagindo e participando das transformações, era uma possibilidade de método de estudo para a sua interpretação.

Assim, percebi que o complexo objeto que se desenhava na minha pesquisa poderia ser estudado por esse referencial. Nesse ensaio pretendo descrever o ciclo da comunicação científica a partir do referencial da semiótica da cultura, ou seja, experimentar a teoria, uma vez que se caracteriza como em desenvolvimento.

Sistemas modelizantes e textos da comunicação científica

Quais os sistemas modelizantes envolvidos na comunicação científica?  Antes de tentar responder essa questão, faz-se necessário compreender alguns conceitos. Sistema modelizante é o eixo central da semiótica da cultura. Os sistemas modelizantes são códigos da cultura, estruturados hierarquicamente. O conjunto de códigos na cultura é transformado a partir dos diálogos entre as culturas. As novas informações, que, a princípio, podem causar estranheza em dada cultura, com a repetição, transformam-se qualitativamente, estruturando-se num modelo na cultura, uma espécie de algoritmo.

Os textos na cultura podem ser criados com base nos sistemas modelizantes e podem também criar modelos apoiando-se em determinados sistemas. A informação estruturada na cultura transforma o texto em linguagem para armazenar e criar a memória da cultura.

A linguagem e o sistema modelizante estão indissoluvelmente ligados. Para linguagem usaremos uma definição resumida de Lotman (1978): todo sistema de comunicação que utiliza signos de modo particular.

O conceito de texto é bastante complexo e pode ser exemplificado como uma escultura, um quadro, um livro, uma música, um objeto industrial, uma dança, um trabalho acadêmico-científico a até mesmo uma cultura (“texto no texto”). Um texto não precisa ser necessariamente linguístico, é uma criação para significar. A descoberta da possibilidade de um texto preceder a linguagem causa estranheza para os que defendem a ideia de alguns linguistas de que a linguagem é a matriz de todo texto, porém Lotman (1998) argumenta essa possibilidade com o fato de ocorrerem manifestações culturais que podem ser observadas e percebidas mesmo sem um contato com a linguagem.

O texto é material para reconstruir a realidade e, por isso, pode ser analisado semioticamente antes de uma análise histórica (LOTMAN; USPENSKII, 1971).

Os sistemas modelizantes envolvidos no processo de comunicação científica, desde a fase da busca de informação científica em bases de dados bibliográficas até a escrita de trabalho científico, são vários. Vamos tentar explorá-los.

O primeiro modelizador é a própria linguagem natural, o idioma de domínio dos sujeitos envolvidos no processo de comunicação. Para Lotman (1998) todo texto é codificado pelo menos duas vezes: uma pela linguagem natural e outra pelo sistema modelizante de códigos. Portanto, os textos envolvidos na comunicação científica têm como base a linguagem natural, que é dinâmica por sua essência (LOTMAN; USPENSKII, 1971). No espaço semiótico, a língua natural encontra-se no núcleo da cultura e se desenvolve mais lentamente que as outras estruturas ideológico-mentais.

O problema é que no processo de comunicação científica estudado, outro idioma é utilizado para a elaboração de linguagem: o inglês. O idioma inglês é considerado a “língua franca da ciência”, citação muito polêmica por envolver questões sobre o domínio cultural (FORATTINI, 1997). A cobrança pela utilização do idioma inglês é justificada para oferecer maior visibilidade da produção científica em todo o mundo, mas, por outro lado, oculta a influência de uma cultura sobre a outra, chamada por Forattini de “imperialismo científico”.

Entretanto, a existência de outro idioma para a semiótica da cultura parece não ser tão problemática assim. A justificativa é que como há a possibilidade de tradução, o conteúdo pode não apresentar modificações nas suas características. Mais importante que esse argumento anterior, é que no idioma inglês a linguagem cumprirá seu papel ontológico da “hipótese de comunicabilidade” (LOTMAN e USPENSKII, 1971), caso em dada cultura haja domínio da mesma, como nas das ciências naturais.

Outro sistema modelizante é a linguagem de busca dos programas de computação, utilizada para recuperação de informações em bases de dados. Trata-se de linguagem artificial, utilizando combinações lógicas (operadores boleanos), índices de palavras, ordenação, entre outras ferramentas, construídas com o objetivo de proporcionar a comunicação humano-máquina. Essa linguagem não pode ser considerada de máquina, uma vez que é produto criado pelo ser humano, e caracteriza-se por não ser dinâmica como as linguagens naturais. A transformação dessa linguagem é controlada por seres humanos que a retroalimentam.

Apesar dessa linguagem ser pouco dinâmica, na esfera da cultura, ela interage com outras linguagens e passa a ser importante para o estudo do objeto em questão. Ouso chamar de cibercultura, apoiada em teoria ainda em desenvolvimento, as relações entre o processamento dos códigos pela digitalização e a “contaminação entre sistemas de diferentes linguagens”, os discursos criados pelo diálogo universal e toda a problemática da diversidade de idiomas, que dão suporte a esse diálogo (MACHADO, 2001).

Outra linguagem artificial envolvida na recuperação da informação científica, talvez ainda mais complexa que a citada anteriormente, é a linguagem documentária. Trata-se de um sistema modelizante, representado pelos vocabulários controlados de termos, assim chamados em ciência da informação. Algumas áreas do conhecimento criaram listas hierárquicas de termos por assunto, relacionados entre si, com a finalidade de evitar interpretações variadas. Ao contrário de um texto artístico, que promove a diversidade interpretativa, os vocabulários controlados pretendem unificar os conceitos dos termos para auxiliar na recuperação da informação. Em alguns aspectos, podemos considerar esse sistema modelizante um paradoxo na comunicação por limitar as possibilidades de interpretações ou efetivação ampla da comunicação.

No caso da área da saúde, há dois vocabulários principais (textos), também conhecidos pelo nome de thesauri, utilizados por pesquisadores da área da saúde: o thesaurus Descritores em Ciência da Saúde (DeCS) e o Medical Subject Headings (MeSH). São sistemas controlados, porém relativamente dinâmicos, uma vez que agregam sugestões dos interlocutores (pesquisadores) e também se ampliam e modificam, acompanhando o desenvolvimento da área da saúde, caracterizada pelo dinamismo inerente à temática (descobertas de novas doenças, medicamentos, intervenções). Esses thesauri são estruturados em forma de árvore, com os descritores (termos) distribuídos em galhos e ramificações, representando a hierarquia entre eles.

Há que se destacar também o sistema modelizante envolvido no processo da escrita científica, uma estrutura ideológico-mental. Pesquisadores da área de saúde exploram há muito tempo a melhor forma de divulgar suas pesquisas, os padrões a utilizar para simplificar a comunicação dos dados e achados.

Na área da biomedicina, um modelo amplamente divulgado em cursos e entre os pesquisadores é o IMRD (Introdução, Materiais e Método, Resultados e Discussão). Esse formato é considerado prático e eficaz para divulgação das pesquisas científicas atualmente. Porém essa ideia não é unânime entre os pesquisadores, sejam de outras áreas, como as humanidades e exatas, e até mesmo entre os pares de um mesmo grupo de pesquisa. Esse sistema modelizante é mais periférico na cultura e por isso mais sujeito a transformações.

Esses são alguns dos sistemas modelizantes envolvidos na comunicação científica e os textos elaborados a partir deles podem ser estudados. Podemos descrever alguns exemplos: um artigo científico da área da saúde, os thesauri DeCS e MeSH, slides apresentados em cursos sobre estrutura do trabalho científico, entre outros. Contudo, um estudo como esse parece não cumprir o fundamento da teoria da semiótica da cultura que são as relações da natureza com a cultura. Somente explorar os textos e sistemas modelizantes não é suficiente para descrever um processo tão complexo de comunicação.

Pela comunicação se conjugam novos signos na cultura, sendo interessante desvendar quais são os novos sistemas modelizantes que se formam. Para Lotman (1978) cada sistema de comunicação pode realizar uma função modelizante e cada sistema modelizante pode desempenhar um papel de comunicação.

A comunicação e a significação pertencem à natureza e à cultura e os sistemas de comunicação são dinâmicos e adaptativos, segundo Sebeok (1997). Nesse caso, o estudo passa a ser também um estudo do “texto no texto” ou uma meta-cultura. É necessário completar o estudo, experimentando como a cultura está se interpretando; em outras palavras, estudar o diálogo da cultura.

Comunicação e contexto – amplitude e delimitação do objeto

Além de procurar compreender o processo da transformação da informação em texto (modelização de seus códigos e linguagens), a semiótica da cultura também leva em consideração a dinâmica do texto com o contexto, o ambiente interpretativo. O contexto ajuda a decodificar a mensagem e a recodificá-la.

Dependendo do contexto, os signos são interpretados diferentemente. Uma dada cultura pode ser representada também como um contexto onde se processa a comunicação ou semiose (intercâmbio de mensagens).

A semiose da informação e comunicação é um problema semiótico que leva em conta o contexto do pensamento evolutivo na perspectiva sistêmica. O contexto é o ambiente da interpretação da comunicação e inclui uma gama de sistemas cognitivos. O contexto pode ser crucial para resolver a significância da mensagem e pode causar a desconsideração da forma e do conteúdo na comunicação (SEBEOK, 1997).

Quando se fala de texto no contexto e semiose na cultura estamos desenvolvendo o conceito de semiosfera na teoria da semiótica da cultura. Lotman (1998) comentou sobre o perigo de se estudar isoladamente os sistemas, porque o funcionamento dos mesmos está submerso num continuum semiótico, que o levou a chamar de semiosfera por analogia ao conceito de biosfera de Vernadski.

A semiosfera ou espaço semiótico é o objeto de estudo da semiótica, uma metaciência que procura descrever as relações dos sistemas de signos ou um conjunto de distintos textos e linguagens fechados uns com respeito aos outros. Pode ser também definida como uma rede processual de semioses, a esfera da comunicação na cultura. A cultura gera estruturalidade pelos processos modelizantes e suas relações com o homem formam a semiosfera.

A semiosfera pode ser além de um objeto de estudo (KULL, 2007), um método para estudar a cultura, a “semiosfera é estudada por meio da semiosfera”, como colocou Torop (2007), um diálogo entre o objeto e a linguagem que o descreve.

Sendo assim, o objeto comunicação científica pode ser estudado na semiosfera e, ao mesmo tempo, ser esta o método para seu estudo. Devido à complexidade primordial de se estudar a semiosfera na semiosfera, faz-se conveniente delimitar as fronteiras do espaço semiótico e conhecer suas características teóricas.

A primeira delas é seu caráter delimitado. Entender a semiosfera implica em traduzir os textos e linguagens que estão fora dos limites da semiosfera dada. A fronteira da semiosfera tem como função controlar, filtrar e adaptar o externo no interno. Como um grupo de pesquisadores traduz a comunicação científica e interpreta as linguagens externas?  Como o grupo se autodefine culturalmente e traça a fronteira comunicacional entre si (sujeitos) como processo de construção do outro (não pertencente ao grupo)? A transmissão da informação, cruzando as fronteiras internas orientadas pelas estruturas semióticas, gera sentido e promove o surgimento de informações novas. Ora, se produzir informações novas é o objetivo de grupos de pesquisa, podemos inferir que o grupo precisa ter contato com outras linguagens e traduzi-las para dar sentido à sua existência como grupo de pesquisa.

A segunda característica a ser destacada da semiosfera é sua irregularidade semiótica. No núcleo da semiosfera estão os sistemas semióticos dominantes e, na periferia, as transformações. O encontro dialógico na semiosfera demonstra a irregularidade dos textos em constante movimentação. Como o grupo de pesquisadores convive com a diversidade de linguagens internas?

A simetria e assimetria também caracterizam a semiosfera. O diálogo entranha a reciprocidade e a mutualidade no intercâmbio de informação, desde as conexões dos hemisférios cerebrais até o intercâmbio entre culturas e, por isso, pode-se dizer que o diálogo precede a linguagem e a gera (LOTMAN, 1990). Como no cérebro humano, no qual há uma interconexão entre os hemisférios direito (classificação, língua natural) e esquerdo (tendência criadora, mundo interior), na semiosfera as informações novas emergem no espaço das relações assimétricas. No cérebro da cultura há momentos de estabilidade e de desestabilidade, num contínuo diálogo. A interconexão dos elementos na semiosfera é uma realidade. O grupo de pesquisadores é um coletivo inteligente, ou uma “persona coletiva”, como disse Lotman (1998). A inteligência coletiva se manifesta na capacidade de transmissão de informação, geração de informação nova e memória.

A imprevisibilidade na semiosfera também contribui para a geração de uma informação nova. Em alguns momentos, na situação semiótica, ocorre o fenômeno da explosão, que são ações e interações dentro da semiosfera que desenvolvem aceleradamente os sistemas modelizantes. Esse fenômeno conhecido como explosão não destrói a cultura, mas extravasa os limites e interrompe a cadeia causal previsível, levando à imprevisibilidade e a um aumento da informação.

Como se observa, a comunicação na semiosfera deve ser pensada não somente como transmissão de mensagens de um emissor a um receptor. Na semiosfera os sistemas de linguagem são complexos, incluindo as línguas naturais, artificiais e os sistemas modelizantes da cultura (poliglotismo). Todo esse processo tem que ser descrito e analisado para contextualizar a comunicação.

Somente heuristicamente podemos isolar a estrutura semiótica, como um texto, por exemplo, porque na realidade ela só pode funcionar em condições de impulsos externos e internos pelo intercâmbio de textos na semiosfera.

Isso gera um problema epistemológico neste estudo: como explorar a semiosfera (comunicação científica) na semiosfera? Encontro algumas soluções nos diálogos dos sujeitos da cultura.

Como Hipócrates, considerado por historiadores médicos como o mestre da semiótica, distinguia a mensagem convencional (signos subjetivos) da mensagem natural (signos objetivos) e fazia diagnósticos a partir das entrevistas com os pacientes (SEBEOK, 1997), neste trabalho serão levadas em consideração as entrevistas dos sujeitos na semiosfera.

A delimitação do espaço semiótico torna-se necessária para servir como ponto de partida no desenvolvimento do trabalho. Estudar os textos das entrevistas será estudar textos da cultura.

Os textos das entrevistas são resultado de uma relação dialógica. É mais conveniente estudar o criado no dado nas relações discursivas da comunicação (BAKHTIN, 1982). Neste estudo o dado será o texto das entrevistas, onde está presente o criado (informações dos entrevistados). Para a compreensão do texto se junta uma terceira entidade, que estudará os textos.

Qual cultura, qual natureza?

Pensando na competência da semiótica da cultura, outra questão é apontada: qual o lugar da cultura na natureza? Como o grupo de pesquisadores interpreta o ambiente da cultura?

Nesse contexto, outro conceito pode se relacionar à semiosfera, ampliando a área de abrangência. Trata-se da teoria de Umwelt, de Uexküll, desenvolvida por Kull (1998), com raízes na ecologia semiótica, que designa significação a partir do modelo interpretativo da percepção no ambiente. Em outras palavras, Umwelt é como a natureza é percebida pela cultura, ou ainda, a representação pessoal do espaço semiótico. A relação humano e natureza está conectada aos processos culturais.

A princípio, Umwelt pareceu ser uma ampliação sutil do conceito de semiosfera por englobar a natureza biológica. Entretanto, para Vieira (2007), a semiosfera é um produto evolutivo do Umwelt biológico original por meio de processos não-lineares em sistemas vivos afastados do equilíbrio, contendo hoje em dia as dimensões psíquicas, sociais e culturais.

A semiosfera pode compreender o ambiente de modo mais complexo, não físico, e incluir a natureza cultural, ambiente interpretado pela cultura. A natureza é construída pela cultura a partir da natureza zero, que está fora do Umwelt. No Umwelt está a natureza 1, que é como a vemos; a 2, que é a interpretada, traduzida, e a 3, que é a virtual, construída pela arte e pela ciência (KULL, 1998).

Como o grupo de pesquisadores, sujeito desta pesquisa, entende as relações culturais do grupo e interpreta o ambiente também é um caminho de análise para se estudar a semiosfera.

Conclusão: definição do objeto

Um objetivo para o trabalho se desenha a partir da teoria da semiótica da cultura: descrever os textos da cultura (comunicação científica) e a cultura como texto ou semiosfera (interpretação dos sujeitos nas entrevistas).

O desafio é grande e exige um aprofundamento e interação minha como participante na cultura estudada. Tenho como apoio a possibilidade de desvendar novas linguagens e melhor aproveitar o fluxo de informação. Como disse Lotman (1978) “quanto mais linguagens houver, melhor aproveitaremos o fluxo da informação e é o homem o agente que transforma a informação em linguagem para que ela não se perca na cultura”.

Outro desafio é trabalhar com a interdisciplinaridade e tentar estudar um objeto com as vertentes da ciência da informação, biomedicina, semiótica e outras disciplinas a elas relacionadas. Nesse caso, também encontro apoio em Lotman (1978: 50), quando diz:

A transcodificação de uma linguagem noutra, extremamente produtiva na maioria dos casos e que surge em ligação com os problemas interdisciplinares, descobre num único objeto, tal como parecia antes, os objetos de duas ciências ou leva à elaboração de um novo domínio do conhecimento e de uma nova metalinguagem que lhe é própria.

A comunicação entre as disciplinas é complexa porque existem universos semióticos diferentes envolvidos nesse processo, mas essa diferenciação é importante para promover a inteligência e a memória coletivas porque abre o canal para o diálogo. Como disse Lotman (1981) sobre o confronto entre as “disciplinas” arte e ciência: “Quanto mais a arte for arte e a ciência ciência, tanto mais específicas serão suas funções culturais e tanto mais o diálogo entre elas será possível e fecundo”.

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