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Ocupação do espaço digital para práticas educativas: na trilha do sentido

Resumo/Abstract

Adaptado de http://www.nmc.org/

Daniervelin Renata Marques Pereira

Resumo

Partindo do pressuposto de que o fato psíquico se dá na rede simbólica em que a linguagem tem lugar privilegiado, nosso foco, aqui, é a consideração dos sentidos que surgem na percepção do espaço digital em determinados discursos da prática educativa como um lugar axiologizado pelo sujeito de acordo com um conjunto de valores culturais e psíquicos. Lançamos mão de alguns conceitos da psicanálise, da linguística e da semiótica, como forma de ver o fenômeno de um ponto de vista pouco escolhido, o que poderá trazer à luz novas reflexões sobre a construção do sentido nos textos e detalhes da intersubjetividade na interação. Para isso, são apresentados alguns trechos desse contexto que evidenciam o posicionamento dos sujeitos, a relação de prazer/desprazer e os valores envolvidos na busca pela realização. O sujeito não chega, entretanto, à plenitude, mas ao motivo mesmo da existência do sujeito: a constante busca por novos valores.

Palavras-chave: ambiente digital; práticas educativas; semiótica; psicanálise

Abstract

Assuming that the psychic fact occurs in the symbolic network in which the language has a privileged place, our focus here is the consideration of sense perception that arise in the digital space in some discourse of educational practice as a place axiologized by subject according to a set of cultural values and psychological. We employ some concepts of psychoanalysis, linguistics and semiotics, as a way of seeing the phenomenon from a standpoint little chosen, which could bring out new reflections on the construction of meaning in texts and details of intersubjectivity in interaction. For this, we present some excerpts from the context that show the position of the subjects, the ratio of pleasure / displeasure and the amounts involved in the search for fulfillment. The subject does not, however, to the fullest, but the reason for the existence of the same subject: the constant search for new values.

Keywords: digital environment; educational practices; semiotics; psychoanalysis

Artigo

Eu não estou no espaço e no tempo;
não penso o espaço e o tempo.
Eu sou em relação ao espaço e ao tempo.
Meu corpo se aplica a eles e os abraça.
Merleau-Ponty

Introdução

O processo simbólico da escrita nasce, como sabido, de uma necessidade de expandir a comunicação para muito além do tempo e do espaço de propagação da fala, criando mensagens que perdurariam e que poderiam ser proferidas a quilômetros de distância. Ela surge, então, para “diminuir” a distância entre os povos, estabelecendo, por sua vez, uma relação de troca e comunhão do saber e, paralelamente, para a preservação desse saber na memória, independente da presença física dos indivíduos.

O surgimento de outras tecnologias, como a imprensa de Gutenberg, e a proliferação de obras escritas na expansão dessa tecnologia, são fatos já bem conhecidos da nossa história geral, e confirmam a progressiva diminuição da presença física do sujeito como necessidade para que a comunicação se estabeleça.

Decorreu dessa evolução a possibilidade de comunicação através do tempo e espaço, fenômeno que se insere no processo de globalização iniciado no fim do século XX. Essa dinâmica culmina em práticas cada vez mais sofisticadas de comunicação por recursos tecnológicos que implicam novos tipos de relação entre os sujeitos e também novas deficiências advindas, talvez, do desajuste entre a excessiva flexibilidade desses recursos e a manutenção, muitas vezes, de conteúdos e métodos tradicionais.

Um famoso escritor sobre o ciberespaço – cujo principal representante é a internet –, Pierre Lévy, compara esse lugar a um labirinto móvel em extensão, de essência paradoxal: “universal sem totalidade” (1999: 111), pois acredita-se que cada nó da rede leva a novas redes sempre imprevisíveis. É esse mais um sinal de uma mudança acelerada na organização do espaço que afeta, e veremos alguns exemplos de como, as relações intersubjetivas.

É nesse espaço de pluralidades, onde o sujeito se localiza, mas também se perde em busca de satisfação, que situamos nossa reflexão, especificamente naquele ocupado pelas práticas de educação a distância. Recorremos, para isso, a algumas noções, ainda que pouco aprofundadas, da psicanálise na correlação com alguns conceitos linguísticos e semióticos.

O espaço linguístico e o tópico, regularidade e ajustamento

Pessoa, tempo e espaço é uma tríplice tomada, do ponto de vista linguístico, como dêiticos (eu/ele, aqui/lá, agora/então) reveladores da presença. Embora intimamente relacionados, nosso propósito, já delineado, é lançar luz sobre a ocupação do espaço digital pelos sujeitos envolvidos em disciplinas a distância, já que a categoria espacial é de destaque na identificação dessa prática, o que se evidencia também na fala dos usuários.

Essa separação dos atores, professores e alunos, em ambientes digitais é, a priori, física, podendo os sujeitos desenvolverem estratégias que permitam maior ou menor proximidade por recursos diversos, especialmente a subjetividade na linguagem que nasce no interior de alguns espaços de comunicação, com destaque para os chats (bate-papos), que permitem o diálogo síncrono. Vemos, pois, que o “universal sem totalidade”, o continuum concebido por Lévy, pode sempre, na prática, ser delimitado por escolhas espaciais feitas pelos sujeitos e ser circunscrito pelo hábito que é estabelecido em uma disciplina, como no exemplo de ambiente a seguir:

 

Figura 1: exemplo de um espaço digital em formato tradicional. Tradicional aqui é tomado em relação aos gêneros habituais usados no ambiente (fórum, chat, perfil etc.) e também quanto à configuração de AVAs (Ambientes Virtuais de Aprendizado) mais comuns, como Moodle e Teleduc. Nesse exemplo, é usado o segundo software como plataforma.

O ambiente digital é um cenário em que se dá, entre outras, a prática educativa, e que se torna discursivizado como um aqui ou lá, precisados aspectualmente e recortados de acordo com a percepção do sujeito. Fiorin (1996), baseado em Greimas (1973) e Fontanille (1989), acrescenta que esse espaço linguístico pode ser ainda topicalizado por um afastamento ou proximidade (relação direcional) e extensão ou concentração (relação de englobamento), complexificados como transposição (entrada e saída) e difusão (dispersão e reunião).

Considerando o ambiente digital como um aqui, ponto de referência do enunciador na realização de uma atividade didática, por exemplo, podemos notar uma topicalização enunciativa, quando os sujeitos se aproximam dos enunciados, após uma entrada no espaço que concentra as informações necessárias. As noções de concentração ou extensão, de dispersão ou reunião suscitam, por exemplo, a organização das informações, se é preciso consultar outros lugares para a atividade e também a organização entre os sujeitos para o fazer. Essa é uma situação típica, mas que compreende diferentes percepções por sujeitos que comparam, relativizam e simbolizam os espaços e outros tópicos envolvidos, bem como sua modalização por um querer/dever, poder/saber fazer. A axiologização como bom ou ruim vai depender, sobretudo, dos valores socioculturais que compõem as formações ideológicas a que os sujeitos se filiam.

A natureza sensível do espaço é mencionada por Greimas e Courtés ao tomarem o sujeito como produtor e consumidor de espaço, o que envolve a participação dos sentidos (visuais, táteis, térmicos, acústicos etc.). São eles também que fazem uma observação importante: “(…) como convém considerar os sujeitos humanos que são os usuários dos espaços, os seus comportamentos programados são examinados e relacionados com o uso que fazem do espaço” (1979: 156).

Essa noção do uso que interfere diretamente no comportamento, e vice-versa, permite constatar que, ao lado de uma noção de estabilidade, um fazer “programado”, está também a de escolha, variação, a forma como ele adapta o espaço para sua satisfação ou mesmo se adéqua para esse uso. Esse espaço do sensível está já previsto na multimodalidade do espaço que afeta os sentidos humanos.

Nesse contexto, o espaço pode ser tomado como próximo ou distante e como eufórico ou disfórico, isto é, quanto à sua gradação e afetos, de acordo com os mecanismos de ajustamento e os fatores psíquicos que conduzem esse ajustamento entre o querer e o dever numa tentativa de realização do sujeito.

Avançamos um pouco mais ao conceber as percepções que variam, o que nos permite concluir que o sujeito pode preferir determinado espaço a outro levado por peculiaridades na satisfação de seus desejos. Dessa forma, embora a finalidade seja sempre a satisfação, o objeto e formas dessa realização podem variar. Caminhamos, pois, para a introdução de determinados postulados da psicanálise freudiana e lacaniana que podem nos auxiliar nessa discussão.

Algumas posições no cenário digital

Ao tomar “pulsão” como fenômeno não apenas somático, mas também psíquico, Freud introduz o termo no campo da psicanálise. A pulsão está ligada, para o austríaco, ao estímulo aplicado à mente, mas com origem interna ao organismo. É “um conceito que se acha na fronteira entre o mental e o físico” (FREUD, 1972: 171). Caracterizado pela necessidade, o estímulo poderia ser eliminado por uma satisfação adequada da fonte interna de estimulação de acordo com um objetivo.

Lacan, baseado na linguística estruturalista, privilegia o simbólico no estudo da pulsão por acreditar que o inconsciente é estruturado como linguagem, o que fica nítido neste trecho: “mesmo que não comunique nada, o discurso representa a existência da comunicação; mesmo que negue a evidência, ele afirma que a fala constitui a verdade; mesmo que se destine a enganar, ele especula com a fé do testemunho” (1998: 253). Dessa forma, o espaço da letra ganha relevância enquanto deciframento das questões psíquicas. Mesmo que o conceito de significado tenha sido depreciado por esse autor em prol do significante, ele estava e está presente nesse exercício de dar conta do discurso, como observa Beividas: “é a própria exigência da estrutura global da língua que impede que a estrutura do significante substitua ou invada a região da estrutura do significado, onde se alocam os lexemas, os morfemas, a frase e o discurso” (2005: 21).

Essa constatação torna-se importante na tarefa que assumimos de ver na escrita dentro do ambiente digital a voz dos sujeitos e alguns sinais aí do que se encontra em seu inconsciente quanto à percepção da distância e, paralelamente, empregar outras teorias, como a semiótica, que se propõe à investigação da construção do sentido.
Interessa-nos a articulação feita por Freud e retomada por Lacan entre a atividade do aparelho mental e os sentimentos atinentes à série prazer-desprazer, destacada nos relatos a que temos acesso. A dominação dos estímulos ocorreria, então, na ligação entre sentimentos desagradáveis ligados a um aumento desse estímulo e sentimentos agradáveis a uma diminuição do estímulo. Isso porque, como bem prevê a semiótica, o que impulsiona o sujeito ao objeto é a busca de valores que sempre estão no fim de um caminho de combate a antiobjetos e antissujeitos.

No contato com o ambiente digital usado para o ensino, há pelo menos duas situações recorrentes no relato dos alunos, e observadas em nossa pesquisa anterior (PEREIRA, 2010): 1) sentimento de “falta” manifesto pelos alunos, ligado à ausência ou escassez de feedback do professor e à maior necessidade de autonomia do aluno (diante das flexibilidades possíveis, em alguns casos, nos prazos e no uso do espaço). 2) uma abertura maior à participação de todos independente do tempo e da inibição de alguns sujeitos à exposição face a face.

Percebemos aí dois movimentos de deslocamento em sentidos opostos: um em direção ao presencial (visto por eles como a solução), pela existência de um “olhar” (o Outro) que organiza e concretiza as atividades e um em direção ao ambiente digital, pela expressão irrestrita. Ambos envolvem a isotopia da liberdade, disfórica no primeiro caso e eufórica no segundo. Ocorre, assim, um aumento de estímulo, ora no ambiente digital ora no presencial, dependendo da finalidade do sujeito, que pede uma ação no sentido de diminuir o desprazer. Dessa maneira, um mesmo ambiente pode se tornar fonte de prazer ou desprazer conforme o valor desejado consciente ou inconscientemente pelo sujeito. Como notamos, a relação de implicação: se há reunião em um mesmo espaço físico, há afetividade, há eficiência ou, se há extensão de informações num espaço, há otimização do ensino-aprendizagem, não é tão evidente, embora seja comum no discurso didático, que busca regularidades.

Refletindo um pouco mais sobre esse sentimento de “falta” de alguns sujeitos, observamos que é reconhecido entre alguns estudiosos da educação a distância (BEURLEN et al, 2006; COSTA, 2010) o valor do feedback ainda mais que no presencial; a escrita, que ocupa o espaço digital, apresenta-se como a reificação do sujeito. Assim como a reificação como procedimento da linguagem pode levar ao efeito de conforto de que existe uma realidade, aqui também a ocupação do campo pela “voz” torna a interação mais presentificada. A ocorrência de encontros presenciais fixos deve ser, segundo esses estudiosos, substituída por uma participação frequente que motive. No trecho a seguir, retirado de uma apresentação em evento virtual, o apresentador ressalta esse valor da “palavra” como aquilo que impulsiona o ensino-aprendizado e torna o curso ativo:

(…)
[18:55] <Dani_Re> MARTINS et ALL (2006) enfatiza o feedback dado ao aluno, pois “o retorno dado no momento certo pode proporcionar a maior interatividade entre professores e alunos”.
[18:55] <Dani_Re> como pedagogo, qual momento seria esse?
[18:55] <Dani_Re> ou eh dependente?
[18:56] <clebermarques> Bem, como pedagogo e tutor a distancia, percebo que este retorno deve ser dado no prazo máximo de 24 horas.
[18:56] <clebermarques> Pois fora deste prazo, comprometerá a motivação do aluno.
[18:57] <Dani_Re> 24h?
[18:57] <Dani_Re> vc ja observou isso na sua pratica?
[18:57] <Dani_Re> qd eles ficam sem retorno tendem à evasao?
[18:57] <clebermarques> Mas, caso o aluno não realize atividades, o tutor deve sempre emcaminhar mensagens, criar discussões para motivá-los.
[18:57] <clebermarques> Com certeza.
[18:57] <Dani_Re> hummm
(…) (2009).

Essa presentificação pela palavra se intensifica na “teatralização” dos sujeitos na cena enunciativa que simula a sala de aula em três dimensões:

figura 2: imagem de uma aula no jogo Second Life.

 

Chegamos, assim, à ocupação do espaço digital da maneira mais especular possível, pela mistura e condensação de características do modelo presencial e do que é próprio do digital.

O desejo, puro desprazer, de um lugar ideal para o ensino-aprendizagem, leva a caminhos em que a tecnologia se apresenta como, cada dia mais, o meio de satisfação e gozo. A satisfação é sempre mencionada aqui em termos simbólicos. Podemos dizer também que esse gozo já se dá no super poder que subjaz a ela, como uma caixa mágica. Entretanto, esse desejo se alimenta da sua própria insatisfação, o que explica a busca por novas(os) formas/espaços de ensino e a deficiência que eles sempre carregam em relação a um outro modelo abandonado ou idealizado. Daí, o postulado do desejo como relegado a um constante porvir (LACAN, 1998).

Essa observação pode explicar a insatisfação vivida pelos sujeitos (uma das situações citadas acima) em contato com um novo espaço, embora vejam qualidades nele e o tenham procurado justamente porque o tradicional apresentava problemas:

É impressionante como os conceitos, com os exemplos explicados e explicitados, ficam mais claro. As atividades práticas são muito importantes MESMO! Essa disciplina poderia ser ofertada sem ser à distância… Apesar de os slides serem ótimos e muito didáticos, o tema é muito abstrato. Fiquei perdida sem os exemplos! (Aluna 13)

Tb acho que poderia ser ofertada presencial ou semi. É muito bom este acesso que temos aqui as questoes e duvidas dos alunos. Mas acho que pessoalmente tb teríamos muito a ganhar. (Aluna 2 em resposta à primeira)

Relaciona-se, de certa forma, a complexidade e abstração da teoria a uma dificuldade pressuposta em se cursar uma disciplina que estabelece a distância espacial entre os sujeitos. De forma contrária, os exemplos tornam a relação com a teoria mais fácil e o contato presencial parece agregar também o valor de segurança e afetividade que os sujeitos podem considerar ausentes naquele ambiente. Em esquema, essas palavras podem ser sintetizadas assim:

figura 3: esquema da relação estabelecida na fala das alunas

Não se trata de uma disforização do ambiente digital nesse posicionamento das alunas, já que os argumentos em favor das práticas educativas tidas aí são realçados, mas sim de uma busca por um lugar que reúna aspectos desejados e euforizados, pouco detalhados no texto.

Paralelamente a essa percepção, um outro tipo de sujeito encontra no espaço digital facilidade para obter valores considerados desejáveis no contexto educacional:

(…)

aluna diz Mas queria lhe dizer que tenho gostado muito das dinâmicas e que as colocarei em dia essa semana!
professora diz isso… nao deixe pra depois porque senao vc nao aproveitara tudo q o curso tem a oferecer
professora diz nas turmas anteriores varios fizeram amizades legais entre si… se ajudaram, precisa ver q bacana… as vezes eles mesmos tiravam duvidas uns dos outros via chat e eu daqui da plateia so assistindo e curtindo esse compartilhamento q acho o maximo!!!

(…)

aluna2 diz Estou bem e mais confiante que posso dar conta. Como é a primeira vez que faço um curso à distância estou um pouquinho estressadinha mas à medida que consigo vencer os obstáculos sinto-me mais a vontade e segura.
professora diz eheheh… normal… ja estou acostumadinha com marinheiros de primeira viagem… adoro isso, e um prazer infinito dar-lhes minhas maos pra q entrem nesse mundo maravilhoso q é a EaD de qualidade.

(…)

Trata-se de uma maior interação (extensidade), percebida pela professora como mais colaborativa e proveitosa (intensidade). Aparentemente, as práticas no espaço digital são axiologizadas nessas falas como eufóricas, mas podemos identificar aí o problema da organização do tempo (para acompanhar as atividades e ficar “em dia” com os conteúdos) e o ajustamento como estratégia necessária à “viagem” proposta no “mundo da EaD”. Destaca-se no discurso do professor a forma subjetiva de ocupação do espaço digital: as amizades encadeiam o compartilhamento, por um lado, e a qualidade garantida pelos bons resultados, que assegura o objetivo.

Lacan (1998) alerta para o valor não do que é dito conscientemente, mas para o que ele esconde por trás de interjeições, lapsos, suspiros, silêncios e outros sinais que poderiam, num primeiro momento, ser banalizados. A semiótica sabe bem lidar com marcas no discurso que levam às estratégias de produção do sentido, daí a relação proveitosa entre as abordagens. A isotopia do gozo, como uma leitura possível na fala do sujeito professor, pode, na verdade, esconder a surpresa de ver o processo de ensino-aprendizagem se concretizar favoravelmente num ambiente que impõe a distância física e as necessidades sofridas, muitas vezes, de adaptação, organização, dos sujeitos já acostumados às práticas do presencial. É o que podemos perceber na escolha, talvez inconsciente, de termos e expressões que indicam o caráter de novidade do evento como: “precisa ver q bacana”, “máximo”, “marinheiros de primeira viagem”, “mundo maravilhoso”.

Percebemos aí a maior empolgação do professor em relação aos alunos, já que aquele precisa convencer estes, em alguns casos, de que o espaço digital é eficaz ao que se propõe.

Participando da correção das redações do vestibular da UFMG em janeiro de 2010, especificamente da questão que pedia um posicionamento dos estudantes quanto aos cursos em EaD, percebi que a maioria era contra a prática com justificativas como “o curso a distância impede a formação prática do sujeito”, “não é possível aprender tendo apenas o computador diante do aluno”, “a convivência presencial com os colegas é essencial para o aprendizado”, entre outras. São questões que alguns professores de EaD poderiam apontar como preconceito e dar como provas alguns exemplos de práticas que permitem objetivos parecidos e positivos. O que percebemos nesse tipo de posicionamento dos alunos é a presença de uma ideologia calcada no modelo presencial e uma tradição de valorização da convivência física entre mestres e alunos, o que os professores que adotam essa nova modalidade podem rebater com outras experiências de falha do modelo presencial.

Baseados no quadro encontrado por nós na pesquisa supracitada, a escolha do espaço e situação de ensino-aprendizagem parece ser decidida pelo conjunto de valores e um impulso determinado por outros fatores além do contato com o conhecimento. Embora esse contato apareça como argumento e esteja presente como dado importante, o que prevalece são as relações intersubjetivas e o confronto dos objetivos de cada um com as dificuldades apresentadas em cada meio para sua realização.

A negação da plenitude, considerações

É própria do sujeito a busca constante por novos objetos e a paixão da insatisfação que, segundo Barros (2001: 64), decorre da disjunção com o objeto-valor desejado. É a satisfação que nunca dura que direciona o sujeito na busca do sentido.

Uma direção determinada pelo desejo precisa ser barrada por “paradas” para que haja um aumento desse desejo que orienta para a constante busca do agradável (demanda de uma presença ou ausência). Busca-se uma plenitude, mas essa é uma impossibilidade, pois o sentido está no desejo de novos objetos, que só fazem garantir a existência do sujeito.

Essa perseguição de novos objetos garante a “parada da parada” e o retorno à continuidade, como podemos colocar em termos semióticos:

O ambiente digital investe bastante em estratégias que criam o efeito de instantaneidade, de proximidade, de afetividade, ou seja, formas de garantir a identidade e subjetividade, que, ainda assim, não são as mesmas do presencial. É certo, pois, que ela interfere no estilo de vida e exige, por isso, ajustamentos entre práticas que preveem uma ruptura do comportamento programado, pois do contrário só pode haver desajustamento entre prática e meio, e insatisfação dos sujeitos diante do objeto buscado.

Embora o sujeito almeje um lugar perfeito, que atenda a todas as suas necessidades, as pulsões, como Freud explica no trecho seguinte, não objetivam estabelecer a realização completa e definitiva, a não ser, talvez, as de morte:

(…) as pulsões de vida têm muito mais contato com (…) a percepção interna, surgindo como rompedoras da paz e constantemente produzindo tensões cujo alívio é sentido como prazer, ao passo que as pulsões de morte parecem efetuar seu trabalho discretamente. (FREUD, 1996: 84-5)

É preciso ainda aprofundar essas reflexões e confrontar outros posicionamentos, o que poderemos verificar pelos dados que estamos coletando para nossa pesquisa atual. Também a operacionalização de categorias de uma interface entre as abordagens pela psicanálise e semiótica nos parece interessante para um estudo que visa às estratégias de construção do sentido.

Bibliografia

BARROS, Diana Luz Pessoa de. Teoria do discurso: fundamentos semióticos. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP, 2001

BEIVIDAS, Waldir. Psicanálise do sentido. Semiótica do inconsciente. Pulsional. Revista de Psicanálise (São Paulo), São Paulo, v. 184, n. Ano XVIII, p. 16-27, 2005. Acesso em 17 de maio 2011.

BEURLEN, Carla; COELHO, Maria Flávia; KENSKI, Julia. Feedback em e-learning: possibilidades e desafios. In: 4º SENAED – Seminário Nacional ABED de Educação a Distância. 15 de fevereiro de 2006. Acesso em 11 de agosto de 2010.

COSTA, Patrícia da Silva Campelo. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL. Feedback em ambiente digital: um processo interlocutório de leitura e produção escrita. Dissertação de mestrado. Porto Alegre, 2010. Acesso em 11 de agosto de 2010.

FIORIN, José Luiz. As astúcias da enunciação: as categorias de pessoa, espaço e tempo. São Paulo: Ática, 1996.

FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Edição Standard Brasileira. Vol. VII, Rio de Janeiro: Imago Editora, 1972 [1915].

FREUD, Sigmund. Além do Princípio de Prazer. In: Obras psicológicas completas. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996 [1920].

GREIMAS, Algirdas Julien, COURTÉS, Joseph. Dicionário de semiótica. Tradução de LIMA, Alceu Dias e outros. São Paulo: Cultrix, 1979.

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Jahar Editor. 1998.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

PEREIRA, Daniervelin Renata Marques. Atividades didáticas para ensino de português em ambiente digital. Uma análise semiótica. (Dissertação de Mestrado – Linguística Aplicada). Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2010.

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