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Olhares

Resumo/Abstract

Detalhe do vídeo Olhares

Amanda Mota Almeida

Resumo

Este trabalho tem como objetivo levantar questões sobre o signo na comunicação não oral, em que o contexto e as expressões humanas ganham importância e evidência. Parte-se de conceitos da semiótica para a análise do vídeo Olhares, realizado por Amanda Mota, Carina Missae, Pedro Câmara e Samuel Cruz para a disciplina Tecnologias Audiovisuais, do curso de Design da Universidade de São Paulo.

Palavras-chave: comunicação; expressões humanas; Olhares

Abstract

This essay aims to raise questions about the sign at non-oral communication, in which the context and the human expressions acquire relevance and evidence. It starts with a discussion of some concepts from semiotics in order to analyze the video Olhares, produced by Amanda Mota, Carina Missae, Pedro Câmara and Samuel Cruz, for the subject Tecnologias Audiovisuais, at USP’s Design course.

Keywords: communication; human expressions; Olhares

Vídeo

Ensaio

O olhar como foco

O vídeo Olhares produz comunicação sem diálogo. Nele, um homem e uma mulher se olham pelo espelho de um carro que está em movimento, e é nesse espaço que se dá toda a história.

A escolha do vídeo foi motivada pela possibilidade de aplicação dos conceitos semióticos em expressões humanas, no caso, nos olhares. A todo momento as pessoas estão lendo as expressões umas das outras com o intuito de interação.

Dessa troca de signos a partir das expressões é que se dá a comunicação, todos os gestos humanos somados à língua e ao contexto completam esse processo. Tudo se integra. A importância do contexto surge, por exemplo, quando alguém fala que está feliz, mas mostra a expressão de um rosto triste. Se a interpretação se desse apenas no nível da fala, teria uma interpretação da conversa (talvez achasse que realmente a outra pessoa está feliz); se fosse levado em consideração apenas o semblante, a interpretação seria outra (poderia achar que está triste). A interpretação apresenta uma leitura global, portanto ao ouvir alguém falando que está feliz com um rosto triste a leitura fica mais complexa, e podem surgir algumas diferentes interpretações. Nesse caso uma leitura provável seria que a pessoa está sendo irônica, por exemplo. Conforme afirma Santaella, “(…) a semiótica é apenas uma parte e, como tal, só se torna explicável e definível em função desse conjunto” (SANTAELLA, 2008: 23).

A comunicação sem fala

No vídeo, por utilizar apenas olhares, o contexto foi mais bem explorado para dar a intenção desejada: uma ideia de monotonia, tristeza e desentendimento. A soma de um ambiente aos gestos e expressões faciais se alia aos olhares dos personagens a fim de conseguir o efeito pretendido.

Para criar esse clima escolheu-se um tom pálido para o ambiente, utilizando cores menos contrastantes. O som é um som ambiente, ouve-se o carro andando, já que não há diálogos. Os olhares entre os personagens são sempre intermediados pelo espelho, e os rostos não demonstram expressões felizes.

Essas expressões também devem ser analisadas no contexto do tempo e das reações entre os personagens. A personagem feminina começa com um olhar baixo, com pálpebras semifechadas, olhando para a rua com a cabeça virada para o vidro do carro.

A seguir há um corte e vemos o espelho do carro, nele aparece o personagem masculino dirigindo, com um semblante aparentemente neutro e de vez em quando olhando para o espelho como se olhasse para ela. Novamente há um corte e voltamos a vê-la com o olhar baixo, um tempo depois ela apenas olha em direção à câmera, no caso como se fosse para ele, e volta à posição anterior.

A cena se repete, e ele fixa novamente o olhar sobre ela. Há mais um corte e ela aparece na posição inicial, olhando em direção ao espelho e fazendo um olhar de reprovação ao virar os olhos para cima. A seguir, volta a olhar para fora do carro e assim termina o vídeo.

Uma visão abrangente do signo

A partir dessa construção com diferentes intenções, partiu-se para a análise com base nos conceitos de Charles Sanders Peirce. A decisão por esse autor se deve ao fato de que possui um olhar mais amplo da semiótica, e classificações mais facilmente aplicáveis aos objetos materiais e abstratos.

Peirce considera que tudo o que vemos pode ser um signo, ideias, sonhos, pessoas, todos podem ser compreendidos semioticamente: “o ponto de partida da teoria peirceana dos signos é o axioma de que as cognições, as ideias e até o homem são essencialmente entidades semióticas” (NÖTH, 1995: 63), como se “(…) Peirce considerasse toda e qualquer produção, realização e expressão humana como sendo uma questão semiótica” (SANTAELLA, 2008: 23).

Peirce concebe três categorias universais que pretendem abranger todos os fenômenos do mundo, são elas primeiridade, secundidade e terceiridade.

A primeiridade é o instantâneo, o novo, sem pensamentos: “primeiridade é a categoria do sentimento imediato e presente das coisas, sem nenhuma relação com outros fenômenos do mundo”. A secundidade seria formada pelas coisas físicas, um fenômeno relacionado a outro: “é a categoria da comparação, da ação, do fato, da realidade e da experiência no tempo e no espaço”. A terceiridade é uma convenção, uma lei: “é a categoria da mediação, do hábito, da memória, da continuidade, da síntese, da comunicação, da representação, da semiose e dos signos” (NÖTH, 1995: 65-6).

Para Pierce, signo não é um tipo de objeto, mas sim algo que o objeto incita. “O signo não é uma classe de objetos, mas a função de um objeto no processo de semiose” (NÖTH, 1995: 68). Ele existe apenas na mente do receptor. Além disso, Peirce separa a análise dos fenômenos em três relações: signo, signo-objeto, signo-objeto-interpretante, onde o primeiro é a relação que ocorre entre o objeto real (representamen) e o signo, o segundo entre o representamen e o objeto (a ideia ou coisa que pretende representar) e o terceiro é a relação entre o representamen e o interpretante (o que o receptor interpreta, a significação do signo).

A importância de um recorte

A partir desses conceitos básicos, serão descritas duas principais leituras do vídeo escolhido: a primeira, uma análise mais abrangente e genérica, levando em consideração o conjunto geral de signos explorados no vídeo, uma análise como sendo o representamen da semiose. A segunda é uma análise focada apenas nas expressões dos personagens, que na realidade são uma tentativa de, pragmaticamente, entender o que o ser humano faz diariamente sem perceber. Nesse caso o representamen seria a expressão de um personagem.

Na primeira situação, temos como representamen o próprio vídeo, ele visto em conjunto está no lugar de algo, representa algo. O representamen é, segundo Peirce, “o veículo que traz para a mente algo de fora”. O objeto é a narrativa, é uma história, uma ideia. “(…) o objeto corresponde ao referente, à coisa (prágma) ou ao denotatum em outros modelos do signo, numa correspondência que é só aproximativa” (NÖTH, 1995: 69). O intérprete do signo é o espectador que assiste e o interpretante, o que ele interpreta em sua mente. “O terceiro correlato do signo, que Peirce denominou interpretante, é a significação do signo”, e ainda: “(…) efeito do signo, podendo também ser algo criado na mente do intérprete” (p. 73-4).

Aplicando a teoria de Pierce das três categorias universais, primeiridade, secundidade e terceiridade, em cada uma das três relações da semiose, teremos: um legissigno simbólico argumentativo. Legissigno porque o vídeo, as ações realizadas pelos personagens e o conjunto de imagens seguidas mostrando um casal com expressões infelizes são uma convenção da ideia de desentendimento, de relação ruim, de algo que não está bem. Sendo assim a relação entre o representamen que é o vídeo como um todo e seu signo, que é a ideia de monotonia do casal, são ideias já formadas previamente na mente das pessoas em geral, o que a torna uma espécie de “lei”, e essa lei nada mais é do que um tipo geral de desentendimento entre pessoas.

“Um legissigno é uma lei que é um signo (…). Todo signo convencional é um legissigno. Não é um objeto singular, mas um tipo geral sobre o qual há uma concordância de que seja significante” (NÖTH, 1995: 79).

A relação representamen-objeto, nesse caso, é simbólica, porque apesar de parecer indicial e icônica, ela virou um hábito. Novamente a ideia de convenção, de terceiridade, aparece.

“São, portanto, categorias da terceiridade – como o hábito, a regra, a lei e a memória – que se situam na relação entre representamen e objeto” (NÖTH, 1995: 85). A argumentação acontece na relação representamen-interpretante porque, da mesma forma que as anteriores, é uma questão de repetição do acontecimento de memória de um todo conhecido. Ou seja, o fato de que os personagens estão tristes e que o clima é de desentendimento leva o intérprete a fazer uma dedução lógica, que no caso pode ser “os personagens brigaram”. Não aparece isso no vídeo, mas por haver um conhecimento anterior, uma espécie de lei, há essa possibilidade de deduzir. “O argumento é, portanto, o signo de uma lei” (NÖTH, 1995: 91).

Na análise das expressões é importante destacar o tipo de classificação que Peirce faz, ele não faz classificações engessadas, pelo contrário, elas podem ser feitas dependendo do recorte. Um mesmo signo pode ter pontos de vistas e análises diferentes. “O que Peirce descreve não são classes aristotélicas de signos, mas aspectos de signos. Por isso, um mesmo signo pode ser considerado sob vários aspectos e submetido a diversas classificações” (NÖTH, 1995: 86). Dessa forma um mesmo signo ou relações de semioses podem possuir características de primeiridade, secundidade e terceiridade ao mesmo tempo, nesse caso isso só acontece numa hierarquia seguindo a ordem decrescente: terceiridade pode ter elementos de secundidade e primeiridade, secundidade pode ter elementos de primeiridade, e primeiridade só terá de sua mesma categoria.

Nesse caso a análise das expressões dos personagens pode ser feita sob esse ponto de vista. Ao mesmo tempo em que virou uma convenção inferir que o olhar baixo e fixo da primeira cena é desinteressado e monótono, podemos achar características de primeiridade, se pensarmos por exemplo que aquele exato olhar é único e diferente de todos os outros. Também podemos considerar secundidade se levarmos em conta sua existência num dado momento e espaço e sua repetição ao longo do vídeo.

Analisando sua relação objeto-representamen pode-se considerar que, de certa forma, o vídeo em que há essa ação da personagem não deixa de ser uma imagem e sendo assim uma espécie de ícone. “Iconicidade, como vimos, inclui ‘similaridade’ entre relações abstratas e homologias estruturais”. E ainda: “o iconicismo tem sua base nas convenções culturais e ‘similaridade não diz respeito à relação entre imagem e objeto mas entre imagem e um conteúdo previamente compactuado pela cultura’” (ECO apud NÖTH, 1995: 82).

Mas partindo do ponto de vista segundo o qual quando as pessoas estão tristes e desanimadas expressam no rosto esses sentimentos, ou quando os outros estão com essa expressão em geral estão se sentindo assim, chegamos a outra possibilidade: a indução, que é explicada pelo exemplo básico de que onde há fumaça há fogo, ou seja, um é indício do outro.

Há, portanto, uma relação de causa e efeito: “o índice participa da categoria de secundidade porque é um signo que estabelece relações diádicas entre representamen e objeto. Tais relações têm, principalmente, o caráter de causalidade, espacialidade e temporalidade” (NÖTH, 1995: 84).

Por fim, é interessante analisar outra relação: a do interpretante. Além das anteriores, o interpretante das expressões dos personagens pode ser, como já foi dito antes, um argumento pela questão das convenções. Prova disso é que o ser humano se comunica com gestos e expressões corporais e, ao ver uma delas, já é capaz de tirar diversas conclusões.

Porém, antes de ser “lei”, convenção ou hábito, ela foi praticada várias vezes e sempre que as pessoas faziam determinada expressão, por coincidência estavam tristes, com isso podemos dizer que o interpretante pode ser indutivo. Ainda considerando a possibilidade de numa primeira vez em que isso aconteceu alguém ter sugerido o interpretante de que a pessoa estava triste, tendo depois provado que sim ou não, podemos ter uma abdução.

A abdução é uma forma de ir além do que está ali, mas possui um caráter de primeiridade, ou seja, é no fundo tentativa e erro. Como exemplo, temos Sherlock Holmes: “diz-se frequentemente que a ciência não é senão um refinado senso comum. Sherlock por certa concordaria com essa afirmação, pois ele declara que sua abordagem é ‘uma simples arte, que é apenas o senso comum sistematizado’ (BLAN). Seu ponto de vista, no entanto, não é uma visão simples e mecânica do processo, uma vez que, em outra passagem ele observa que ‘a base de minha arte é… uma mistura de imaginação e realidade’” (TRUZZI, 1991: 65).

Apesar dessa declaração, de um misto de intuição e senso comum, ele diz: “trata-se, eu admito, de pura imaginação” (TRUZZI, 1991: 66). Portanto há essa outra possibilidade de abdução e um posterior teste.

É exatamente daí que podem surgir novos sistemas de semiose, pois, no caso do vídeo, se fosse feita a abdução de uma coisa nova, como por exemplo o interpretante ser que o casal estava triste e desanimado porque não se amam mais, seria uma intuição pois não daria pra saber o que realmente aconteceu.

Para isso seria necessário um teste, e assim, por tentativa e erro, se confirmado, aos poucos um novo signo poderia se formar. Com a sua repetição se transformaria em uma secundidade e posteriormente, com o hábito, em convenção e terceiridade.

“Peirce era um evolucionista de tipo muito especial (…). O que Peirce na realidade postulava, como base do seu pensamento, era a teoria do crescimento contínuo no universo e na mente humana. (…) Os princípios científicos, por seu turno, não chegam a ser senão fórmulas rigorosas, mas sempre provisórias, no sentido de estarem sujeitas a mudanças continuas” (SANTAELLA, 2008: 25-6).

Dessa forma, percebe-se como se formam e se transformam os signos com o tempo, e vê-se que apesar de haver uma linha que parece mais clara de análise semiótica, como no vídeo que era um legissigno simbólico argumentativo, podemos, dependendo do recorte, entender mais a fundo outras relações que estão por trás.

E até mesmo entender como ao longo do tempo, das comunicações e interferências humanas, os signos vão tomando forma e se modificando. Demonstrando que esse processo está longe de ser estático e que, principalmente, há uma importância tremenda da primeiridade. E é ela que no fundo dá origem para que o signo tome forma e se torne uma convenção numa dada sociedade.

Bibliografia

NIEMEYER, Lucy. Elementos da semiótica aplicados ao Design. Rio de Janeiro: 2AB, 2007.

NÖTH, Winfried. Panorama da semiótica: de Platão a Peirce. São Paulo: Annablume, 1995.

SANTAELLA, Lucia. O que é Semiótica. São Paulo: Brasiliense, 2008.

TRUZZI, Marcelo. Sherlock Holmes. In: O signo de três. ECO, Umberto; SEBEOK, Thomas (org.). São Paulo: Perspectiva, 1991.

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