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Os objetos pessoais e a dimensão pragmática

Resumo/Abstract

Imagem: Marina Kanzian

Tiago Kurebayashi

Resumo

Esta resenha tem como objetivo fazer uma analogia entre o ato comunicativo, comumente compreendido como fala, e a comunicação realizada através de objetos pessoais significativos, culminando na formação de uma identidade pessoal e social. Para tanto, apresenta o projeto The Burning House, introduzindo o tema da escolha de objetos para representar uma personalidade, e o analisa segundo conceitos das teorias linguísticas, a partir de Morris, Peirce e Austin. Associa então ao ato da escolha de símbolos pessoais uma dimensão pragmática, resultando em um ato de Cultivação, conforme apresentado por Csikszentmihalyi e Rochberg-Halton. Seguindo o trabalho de Dominique Wolton relembra, porém, o perigo de uma comunicação segmentada e afastada dos ouvintes e grupos sociais, e busca no ouvir e no agir em relação ao outro a possibilidade de escape de identidades construídas tanto sobre o isolamento total do indivíduo diante do social, quanto no imergir absoluto em valores de grupo.

Palavras-chave: ato comunicativo; objetos pessoais, The Burning House

Abstract

This review aims at making an analogy between the comunicative act, commonly understood as speech, and the communication made through meaningful personal objects, breeding personal and social identity. It presents The Burning House project, introducing the object’s choice to represent a personality theme, and analyzing it through the linguistic theories, from Morris, Peirce and Austin. It associates to the act of electing personal symbols a pragmatic dimension, resulting in an act of Cultivation, as presented by Csikszentmihalyi and Rochberg-Halton. Following Dominique Wolton’s work recalls, however, the risks of a segmented communication remote from listeners and social groups, and seeks in the hearing and acting related to the others the possibility to evade identities constructed over the total individual isolation, so much as the absolut immersion in group values.

Keywords: comunicative act; personal objects; The Burning House

Resenha

1. A ação dos objetos pessoais

1.1. Os objetos de uma identidade

Em The Burning House, um projeto simples, mas de grande beleza, as pessoas são convidadas a pensar e fotografar uma série de objetos pessoais e compartilhar a imagem no site, que deve responder à questão: “se sua casa estivesse em chamas, o que você salvaria?”.

A descrição do projeto destaca: “é um conflito entre o que é prático, valioso e sentimental. O que você levaria reflete seus interesses, história e prioridades”. As respostas são bastante variadas, embora alguns padrões sejam detectáveis. O primeiro deles é a quase onipresença das câmeras fotográficas e lentes. Nada que cause espanto, considerando ser este um projeto de composição fotográfica: imagina-se que aqueles propensos a respondê-lo estejam em geral alinhados a este estilo expressivo, e a câmera se mostre uma ferramenta usual de seus projetos pessoais. Soa como um tributo, sem o qual aquele desejo de responder, o desejo de expressar, o falar de si, não seria possível. Não à toa, a maioria dos respondentes atua na área da comunicação e das artes gráficas.

Um segundo padrão se manifesta em notebooks: mais uma ocorrência pouco surpreendente. Como ferramenta de trabalho, instrumento de lazer, e de contato com amigos e família, além de repositório de memórias, um computador, para um público conectado, é frequentemente um dos objetos mais utilizados, conciliando aspectos emocionais e funcionais, com uma abrangência comum a poucos objetos. Um terceiro objeto comum aparece na forma de sua versão mínima: celulares – a maioria de linha smartphones. Um quarto em carteiras e documentos.

A partir daí podemos nos distanciar um pouco mais das homogeneidades, tanto com objetos de uso prático quanto emocionais (e às vezes com parentes ou amados, que surgem vez ou outra nas fotografias): chaves, cadernos, canetas, instrumentos musicais, acessórios, retratos, livros, roupas, álbuns, filmes, pequenas relíquias pessoais, animais de estimação, animais de pelúcia, tocadores de música, quadrinhos, calçados. Alguns destes de alto valor aquisitivo; mas em sua maioria objetos que já foram ordinários, ressignificados para representar algo mais.

Creio ser possível observar dois tipos de significação atribuídos a estes objetos. Uma primeira, um valor social, fundamentado na comunidade em que a pessoa se insere: dinheiro; documentos; em certa medida mesmo o aparelho celular; são objetos que expressam respectivamente uma forma de poder e capacidade de atuação na sociedade, uma identificação capaz de garantir seus direitos, e uma forma de comunicação com pessoas e instituições. Mas seria exagero ou exclusão dizer que a sociedade influencia unicamente nestes objetos; também livros, discos, roupas, e mesmo fotografias possuem uma conotação social. Ainda assim, caso fosse este o único parâmetro de valores, faria pouco sentido salvar de uma casa em chamas um livro já incontáveis vezes reimpresso, roupas velhas, brinquedos. Certamente haveriam em muitas dessas casas objetos de maior valor.

Para explicar tais escolhas, é preciso considerar um contexto em que o objeto se insere – admitimos, algo impossível de se fazer a fundo com o simples observar de uma imagem que compreende estes objetos. Afinal, observamos um belo casaco, um belo livro, uma bela fotografia, e ainda assim, nada aparente nos diz que ele vale mais que outros exemplares que possam haver na mesma casa. Entre tantas centenas de livros diferentes, por que este? Obviamente, para aquelas pessoas, há razões para escolha de um em favor de outro, mas elas fazem parte de um contexto do qual não participamos, e portanto, podemos imaginar, mas não compreender.

Feita esta introdução, podemos passar ao tema desta resenha: o ato de eleger objetos como símbolos pessoais. Farei esta análise a partir da filosofia da linguagem, especialmente ancorada nos preceitos de Charles Morris, na Teoria dos Atos de Fala de Austin e na pragmática de Peirce.

1.2. O objeto pessoal visto como linguagem

Um primeiro ponto de partida pode ser fundamentado na clássica divisão, instituída por Charles W. Morris, dos estudos da linguagem em sintaxe, semântica e pragmática (MARCONDES, 2005). A dimensão da sintaxe corresponde aos elementos componentes da linguagem, por compartilhamento de um código comum: as estruturas que compõem palavras e frases. A semântica inclui o elemento contextual, e permite o estudo do significado da comunicação em uma dada situação. Por fim, a pragmática está associada às consequências geradas pelo que foi comunicado. Assim, quando ordeno a alguém que dê um passo à frente, os elementos compositivos desta frase são os mesmos em qualquer contexto, seja no âmbito militar, seja em uma aula de ginástica. O contexto é bastante diferenciado, porém, e a seriedade atribuída à instrução vem influenciada por ele. O resultado final, de um passo dado diante de um superior militar, ou dado no ritmo da música em uma academia, é também bastante diverso. Falamos aqui, então, de um sistema social a priori, um significado adquirido em contexto, e um resultado gerado.

Se retomarmos o raciocínio aos objetos – aqui tratados como símbolos, e não como elementos concretos; símbolos que representam um indivíduo –, podemos falar de uma sintaxe, um conjunto simbólico oferecido pela sociedade para gerar construções representativas. Oras, o computador que vejo em uma fotografia não teve origem diferente daquele que posso ter em casa, ou avistar em uma loja; um sapato, mesmo que feito à mão, é algo possível de se adquirir, e já possui consigo uma atribuição social de valores; sua diferenciação visível – ser artesanal – é passível de ser imitada, e mesmo ela possui um significado dado para um dado grupo. Existem sapatos baratos e caros, industriais ou feitos à mão; mas nada neste conceito poderá se referir exclusivamente ao seu sapato. O objeto visto aqui é tão frio quanto uma palavra sem contexto.

Poder-se-ia fazer uma observação aqui: um objeto não está disponível para qualquer um que o queira utilizar. Mas tampouco estão as palavras. Como bem demonstra Danilo Marcondes (2001), ao apresentar a Teoria dos Atos de Fala de Austin, a linguagem é só aparentemente neutra, possuindo em seus paradigmas e construções julgamentos de valor implícitos, presentes tanto neste nível básico de significado absoluto, quanto nas manifestações em enunciados e orações. Ademais, há restrições de acesso à linguagem, tanto quanto aos objetos. Há palavras e expressões pertencentes a classes específicas, como bem demonstra a particularidade da comunicação jurídica ou científica.

Assim, não indiferentes, nem igualmente distribuídos, mas ainda impessoais e descontextualizados, temos palavras e objetos à nossa relativa disposição. Partindo da ideia defendida por Austin de que comunicar é agir, e compreendendo objetos pessoais como uma forma de comunicar características de um Eu como indivíduo, ainda é preciso compreender qual ação está implícita neste ato.

Continuemos para o campo da semântica. Finalmente aqui, objetos genéricos adquirem contexto: não mais uma fotografia de um pôr do sol qualquer, mas o pôr do sol visto todas as tardes em minha cidade natal; não mais um violão DiGiorgio modelo nº 18, mas o violão herdado de meu pai, companheiro musical há tantos anos; não mais um computador caro, mas meu computador, com meus arquivos, e minhas memórias; não mais um disco qualquer, mas o primeiro disco de rock que ouvi. É somente por esta apropriação, este inscrever simbólico, que se torna possível ver em um objeto uma representação de si; se nele não houver nenhum laço contextual, seu valor é meramente social – o indivíduo não comunica, mas adota passivamente símbolos à sua disposição. Não é uma atitude diferente de utilizar palavras de alto impacto em frases vazias de significado. Apenas através da apropriação em termos pessoais que um objeto pode se tornar representativo de uma persona.

1.3. A linguagem como ação

Demos conta, assim, das dimensões sintáticas e semânticas da questão analisada. Antes de adentrar na pragmática, convém abordar os conceitos de Austin e sua Teoria dos Atos de Fala (MARCONDES, 2001). O autor descreve a linguagem como uma prática social concreta; isto é, utilizar uma linguagem é praticar atos. Para melhor compreender esta afirmação, Austin divide o ato de fala em três dimensões: locucionária, ilocucionária e perlocucionária. O ato locucionário é essencialmente linguístico, o selecionar as palavras constituintes de uma afirmação, a mobilização da linguagem para uso na comunicação. Na dimensão ilocucionária, o ato ganha força de ação, propriamente dito: falar uma promessa é prometer, dizer uma ameaça é ameaçar. Esta força ativa, para Austin, deriva de convenções sociais, da autoridade atribuída dentro de um contexto àquele que fala: uma ordem, dada de um soldado a um general não possuiria força ilocucionária, uma vez que a convenção não legitima ou atribui força ativa a uma ordem proferida nestas condições. Ainda assim, a fala tem resultados, que configuram sua dimensão perlocucionária: as consequências geradas pelo ato comunicacional. É a junção destes três elementos que permite que Austin descreva a fala como uma ação.

Consideremos então um grupo de objetos como uma fala de si, um dizer – como já afirma a descrição do projeto The Burning House – do que lhe é interessante, de sua história e de suas prioridades. Onde está o ato nesta comunicação? Certamente, não é apenas dizer a outrem: “sou isto”. Tal afirmação não teria força ilocucionária e, mesmo dotada de sintaxe e semântica, não configuraria uma ação, propriamente dita – no máximo, despertaria uma reação, que se configuraria como única consequência pragmática. Não, se um indivíduo se comunica, pelas teorias estudadas, esperamos que seja ele também o agente. Se este indivíduo pertence a um contexto, que sejam neste contexto percebidas as consequências de sua fala. Se é dentro de um ambiente pessoal que estes signos são eleitos, o resultado desta eleição deve ser sentida dentro deste mesmo ambiente – afinal, é somente dele que viria qualquer força legitimando a ação.

Não havendo nada de ativo no elencar de objetos como símbolo pessoal, estes serão apenas representações estáticas que em nada alteram o indivíduo – correspondem, simplesmente. Acredito não ser este o caso. Há uma consequência bastante visível desta ação: o direcionamento da atenção do indivíduo para estes símbolos eleitos. Este raciocínio é apresentado no livro The Meaning of Things, de Mihalyi Csikszentmihalyi e Eugene Rochberg-Halton (1981). Para os autores, objetos pessoais não são meros receptáculos de valor, mas são capazes de participar ativamente de um processo denominado Cultivação.

1.4. A ação do objeto simbólico

Cultivação é o ato de direcionar esforços (os autores utilizam o termo energia psíquica) para determinados objetivos que promovam crescimento. A ação de cultivar pressupõe um gasto de energia, um esforço para que algo se concretize e evolua, promovendo um desenvolvimento também nas habilidades do indivíduo. Assim, cultivar uma pintura não é simplesmente olhá-la, mas pressupõe um processo ativo de transformação interna, seja este o aprimoramento da capacidade de observação, da atenção aos detalhes, ou mesmo a afirmação de objetivos para si tais como ‘tornar-se um artista’. Cultivar uma foto da família é mantê-la presente em seu universo contextual, para que seus esforços – por exemplo, no trabalho – possuam um direcionamento. “Trabalho para poder educar meus filhos”, ou “trabalho para que minha família tenha conforto”.

Configurar prioridades e direcionar esforços futuros é, assim, uma das principais funções de um objeto pessoal. É esta a dimensão pragmática que acredito corresponder ao uso de ferramentas e objetos disponíveis na sociedade e à personificação destes objetos em contextos pessoais. Ao elencar um objeto como símbolo pessoal, não estou meramente fazendo correspondências com características que vejo em mim; muitas vezes, estou afirmando um traço pessoal que pretendo manter, ou mesmo conquistar com meu comportamento futuro. Minha escolha de símbolos modifica o universo contextual que me cerca e nisto consiste a ação.

Nesta analogia aos estudos da linguagem estabelecida por Charles Morris, temos assim uma sintaxe manifesta na disponibilidade de objetos e construções, oferecidas pela sociedade em que vivo; uma semântica emergente na inserção destes objetos genéricos a um contexto pessoal; e por fim uma pragmática aparente nas mudanças internas deste contexto pessoal. Na Teoria dos Atos de Fala de Austin, temos uma dimensão locucionária referente aos mesmos objetos oferecidos; um ato ilocucionário na escolha destes objetos e apropriação deles em termos pessoais (lembramos que neste caso, a convenção social que legitima a ação é o próprio indivíduo); e um ato perlocucionário na posição que estes símbolos eleitos ocupam no universo pessoal, tornando-se capazes de direcionar o esforço individual. Em certa medida, a construção do mundo material com que uma pessoa irá se relacionar é também parte constituinte de sua identidade, contendo referências não só associadas ao passado e presente, mas também ao que almeja cultivar para sua formação futura.

É relevante citar ainda uma última referência aos estudos da linguagem que influencia esta interpretação de objetos pessoais. A pragmática de Peirce consolidou verdades e fatos como objetivos processuais, inalcançáveis em sua totalidade. Não mais o ponto de partida da ciência – como em Descartes, para quem uma base absolutamente confiável é necessária para o início de qualquer atividade intelectual (compreendido em sua máxima cogito ergo sum) –, com Peirce o confiável e verdadeiro é um objetivo a ser alcançado. Partimos da incerteza em direção a verdades estabilizadas mais confiáveis. Conhecer se firma como um procedimento, não como o descobrir de um fato imutável.

É sobre estas bases que é compreensível afirmar que o objeto pessoal não é um produto acabado, de significado e ações resolvidas, mas algo processual, que pode ser trabalhado. Os autores de The Meaning of Things estabelecem a Cultivação a partir dos preceitos de Peirce (particularmente, Rochberg-Halton, que apresenta o conceito em detalhes em sua obra Meaning and Modernity:
Social theory in the pragmatic attitude
).

Podemos encaminhar neste contexto a questão contemporânea da identidade. Um símbolo pessoal não tem valor se ele não representar algo passível de ser cultivado (mesmo que experimentalmente, no sentido pragmático de Peirce). É importante desconstruir a ideia de uma identidade facilmente adquirida; símbolos devem ser comunicados, e trabalhados através da atuação. Quando compreendemos que símbolos e verdades são processuais, desaparece a ilusão de uma identidade rapidamente construída. Nada adentra o universo pessoal como por milagre, mas tudo que existe é fruto de transformações consequentes da ação do indivíduo sobre seus valores.

Não devemos cair no extremismo de afirmar que objetos industriais jamais poderão ser símbolos de identidade – o projeto apresentado no início deste artigo mostra como esta afirmação é falsa; afirmamos, apenas, que símbolos são processos ativos, que possuem influência nos hábitos pessoais, e só mediante apropriação e cultivação é que tais objetos poderiam influenciar a identidade de um indivíduo. É esta dimensão pragmática que parece ter sido esquecida nos hábitos de consumo atuais; é este elemento ativo, cujo mérito é do objeto, mas também do indivíduo que o possui, que torna as fotografias de The Burning House tão significativas.

Imagem 1: fotografia de Elaina Ellis para The Burning House. Fonte: theburninghouse.com

Imagem 2: fotografia de Matthew Zaremba para The Burning House. Fonte: theburninghouse.com

 

2. A identidade como expressão social

2.1. O particular isolado

Quando tratamos da identidade formada por um indivíduo capaz de construir seu próprio universo, convém entretanto fazer um alerta: é o risco, já anunciado por Dominique Wolton (2006), do afastamento total da identidade dita coletiva, e a imersão em valores próprios (ou mesmo tribais, relacionados ao grupo e somente a ele) incomunicáveis. O perigo visualizado aqui é o da subjetivação extrema, contraponto igualmente danoso à objetivação e uniformização total dos significados: considerando válidos a particularidade e a historicidade de cada um, corre-se o risco de admitir a possibilidade de mundos absolutos e desconectados. Cada pessoa se torna assim autoridade incontestável, e seus valores tornam-se incapazes de serem alvos de contestação e consequentemente, da crítica e da comunicação.

Mas tais procedimentos, essencialmente liberais, já se mostraram incondizentes com a vida social. O “deixe estar” já se provou excelente base para a desigualdade e a violência, uma vez que os planos pessoais tendem a se desenvolver sem levar em conta as relações com a outridade. A incomunicação, tal como denunciada por Wolton, é determinada pelo não diálogo com a alteridade e as diferenças, e torna-se um problema cada vez mais presente, não só na grande escala da política global, mas igualmente nos pequenos grupos e indivíduos que compõem uma sociedade. Em última instância, aceitar todos os pontos de vista como igualmente bons é extinguir a necessidade do diálogo, pois nenhum valor especial poderia ser atribuído ao consenso e à aprovação. Sabemos pela prática, porém, que coexistência não significa compreensão mútua, e sem a comunicação, a única via remanescente para lidar com a alteridade é aquela da violência, comumente observada nas manifestações de xenofobia ou embates religiosos. Este fenômeno é facilmente visto em regimes totalitários, em que uma grande força é conquistada ao custo da eliminação sistematizada da divergência, inicialmente interna (perseguição a artistas ou pensadores), mas que logo se espelha nas relações externas. Sem diálogo, o relativo facilmente é tomado como absoluto.

Mas há força e estabilidade naquilo que é homogêneo: deveríamos por isso dizer que a diferença é danosa, que toda a alteridade deve se encaminhar para uma cada vez maior homogeneização? Provavelmente não. É a particularidade e a diferença que promovem as mudanças de rumo e de definição em um corpo maior. Abandonar a diferença é também abandonar a mudança e, ao fim de tudo, a experimentação e a possibilidade, pois cada indivíduo que pensa de forma diferente é um protótipo para o grupo do que este pode vir a ser. É sua experiência que vai inspirar outros a seguirem ou evitarem tais caminhos, muitas vezes sequer notados até que sejam desvendados pela experiência de outrem. Uma sociedade formada por indivíduos incapazes de ressignificar os objetos e símbolos à sua disposição para além do significado social, tenderá a ser uma formação coesa e forte, mas necessariamente engessada, com suas capacidades de evolução e adaptação limitadas.

Certamente é um equilíbrio difícil de alcançar, entre a homogeneidade e a diferenciação absolutas. Até que ponto os desvios podem ser permitidos, sem comprometer a base do grupo? Até que ponto devo me conformar às tendências sociais, sem ser aniquilado no processo? Estas questões podem parecer pertinentes ao assunto debatido, mas são, em essência, problemáticas, pois vislumbram uma tensão incorrigível entre indivíduo e sociedade. Independente do lado para o qual penda nossa resposta, esta parece trágica: é como se esta exigisse que fossem elencados um perdedor e um vencedor. Mas também aqui vemos um aspecto da incomunicação, pois continuamos a tratar da alteridade, e tendemos a vê-la como antagonismo, quando poderíamos vislumbrar a possibilidade da comunicação.

O individual não deve ser suprimido pelo coletivo, e nem o contrário deve ocorrer. A comunicação não busca eliminar a diferença, mas criar a possibilidade de coabitação: conciliar interesses, e não conflitá-los. Wolton reconhece que antes de trabalhar a alteridade, é preciso que esta se torne visível. Nesse sentido, o ato comunicacional não é uma forma de impor ideias, mas de apresentá-las a outrem; comunicar é declarar a existência: de si, do seu grupo, das suas ideias, dos seus valores. É também – por que não? – pedir um retorno, uma avaliação, positiva, negativa, uma reação. Sem este retorno, a subjetividade irá sempre imperar, resultando no indivíduo isolado, no indivíduo desamparado.

2.2. A expressão em uma sociedade administrada

Em um ciclo de encontros promovido pelo Centro Universitário Maria Antônia, o psicanalista Conrado Ramos (2011) analisa a sociedade de consumo ancorado nas teorias de Jacques Lacan, para quem o indivíduo possui uma parte intangível, um “algo” que escapa à categorização, ao impulso de homogeneização da sociedade. Para Conrado, em nossa sociedade atual, ocorre um excesso de forças sociais agindo sobre o indivíduo, manifesta naquilo que o autor define como um caráter administrado da sociedade de consumo. Nesse aspecto, as forças individuais, o desejo do sujeito, encontra-se acuado e tenta encontrar formas de se manifestar; a administração ocorre quando este próprio ímpeto dispersivo é dissipado pelas vias estratégicas já programadas pelo social. Assim, a reação adversa permanece sob controle: parece que somos rigidamente e imutavelmente definidos por valores instaurados socialmente. Não há espaço para a expressão de contrariedades pois estas, quando detectadas, são rapidamente absorvidas como tendências para formação de produtos e publicidades que dão forma regulada à mensagem individual. Toda crítica toma forma de consumo e tende a perder sua credibilidade,  como pôde ser visto com o boom de produtos ecológicos ou a comercialização dos movimentos de contracultura.

Se algo resta de insatisfação com os valores sociais dentro do sujeito, transfere-se esta culpa para o indivíduo – ele que, dadas as possibilidades oferecidas para todos os gostos e necessidades, não foi capaz de se encontrar. Em uma resolução trágica, as associações à figura do lunático, do perturbado ou do desajustado tendem a ser a principal forma com que lidamos socialmente com a alteridade.

No fim, esta atitude de “calar” o sofrimento, de manter a divergência sob controle, torna-se a maior marca de nossa sociedade de consumo. Mas para Conrado é nessas experiências de inadequação que a possibilidade de mudança social reside, e o autor defende o “escutar”, o dar voz às experiências particulares dos indivíduos. A sociedade administrada e o isolamento do indivíduo são duas faces do mesmo problema, e apontam para uma impossibilidade comunicativa, uma falta de meios para o indivíduo expressar-se no social. É neste aspecto que uma atenção dirigida à capacidade de significação pessoal e individual – tal como vista em The Burning House – pode ser benéfica. Não é o aceitar o subjetivo como absoluto, mas reconhecer nele uma possibilidade, uma verdade relativa cujo valor não é nulo diante daquilo que já é consolidado socialmente.

O atribuir valores pessoais a um objeto de origem social é também uma voz, é também expressão daquilo que o indivíduo valoriza. E neste ato reside até mesmo uma contestação, uma das inúmeras formas do indivíduo comunicar seus valores, suas ideias, para o grupo que o cerca. Talvez, uma atitude saudável para trabalhar a incomunicação seja reconhecer a seriedade das significações particulares, e evitar o descaso e o desprezo por símbolos próprios, sem status social. Em outras palavras, não é desejável que toda potencialidade expressa na opinião de um indivíduo seja concretizada, mas é importante que existam espaços onde esta potencialidade possa ser manifesta. Dessa forma, o trabalhar a individualidade possui também um alcance social e, de volta ao campo da linguagem, vemos que a dimensão pragmática – ou perlocucionária – não se manifesta unicamente no indivíduo, mas tem a capacidade de gerar os mesmos questionamentos no universo mais amplo de outras pessoas.

2.3. Sobre ouvir e falar

A ação de apropriar-se de produtos genéricos e incorporá-los a um universo pessoal de significados foi aqui avaliada nos termos dos estudos da linguagem. Observamos que o resultado desta comunicação se manifesta em dois planos diferenciados. Primeiramente, o indivíduo, que toma o objeto eleito como um dos pilares de seu universo pessoal, e assim passa a reconhecer e visualizar nele um possível foco de atenção de seus esforços. Nestes casos, o objeto não representa mais o significado “puro”, social, mas sim valores pessoais do sujeito, ganhando contexto: atua como regulador e potencializador das energias pessoais desprendidas. Este ato repercutirá na sociedade, isto é, nos grupos de indivíduos em que se encontra, configurando uma segunda dimensão pragmática do ato comunicativo. Esta, vimos, se manifesta no reconhecimento da potencialidade dos valores particulares, que irão divergir daqueles consolidados socialmente. Desde que o indivíduo seja observado e avaliado, tanto em aprovação quanto rejeição, a comunicação estará alcançando receptores, e se estes responderem ao indivíduo, o diálogo de valores pode se instaurar. Não é necessário que uma única resposta vencedora possa emergir do final, mas a possibilidade de escuta da alteridade já é por si bastante benéfica para a vida social.

As ideias expressas aqui se encaminham, certamente, para um elogio da comunicação digital. A possibilidade cada vez maior da expressão da diversidade, afastando-se dos modelos de mídia massiva, parece um dos pontos fortes de nossos dias. O próprio projeto analisado, The Burning House, não seria possível sem a participação de pessoas ao redor do mundo: seu conteúdo não pertence a uma pessoa, mas a muitas, e distintas entre si, com prioridades e desejos diferentes. Blogs, redes sociais, fóruns, sites de compartilhamento de imagens e vídeos, todos contribuem para que a alteridade se mostre presente cada vez mais em nossos dias; mais que isso, ainda, há a possibilidade real de diálogo pelas ferramentas digitais. Pontos de vista diversos podem entrar em contato, sem que a violência se instaure. Claramente, porém, esta imagem de uma rede aberta ao diálogo com as diferenças é ainda uma potencialidade em poucos casos realizada.

Contemplamos em nosso estudo um primeiro passo para a comunicação: um indivíduo que “faz a si mesmo”, que atribui significado aos objetos e símbolos que o rodeiam, e que interage com estas construções, desenvolvendo-se em uma dinâmica processual. Esta experiência pessoal se amplia quando retirada da privacidade, e chega como mensagens aos grupos sociais em que se insere. O último passo é necessariamente, nos termos de Conrado Ramos, “dar voz” a estes indivíduos, o que só pode acontecer mediante a abertura a eles, o aceitar a alteridade e permitir-se ser por ela tocado. Não só observar e avaliar os valores de outrem, isto implica também em reconhecer que nossa própria identidade, o nosso próprio processo de auto-formação, não deve ser desenvolvido no isolamento. Supõe orgulho de expressar nossos valores e, por que não, nossos objetos mais íntimos: é só a esperança de que alguém os veja, e através deles pense ou fale, que justifica o esforço de se diferenciar dos valores sociais estabelecidos e permite emergir a comunicação.

Bibliografia

CSIKSZENTMIHALYI, Mihaly; ROCHBERG-HALTON, Eugene. The meaning of things: Domestic Symbols and the Self. Cambridge: Cambridge University Press, 1981.

MARCONDES, Danilo. A Pragmática na Filosofia Contemporânea. Jorge Zahar, 2005.

___________ Filosofia, Linguagem e Comunicação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

RAMOS, Conrado. Lacan e a crítica da sociedade de consumo: ciclo de encontros, 15, 22 e 29 de ago. e 5 de set. de 2011. Notas de aula. Sao Paulo: Centro Universitario Maria Antonia.

ROCHBERG-HALTON, Eugene. Meaning and Modernity: Social Theory in the Pragmatic Attitude. Chicago: The University of Chicago Press, 1986.

SILVEIRA, L. F. B. Curso de Semiótica Geral. São Paulo: Quartier Latin, 2007.

THE BURNING HOUSE. Disponível em http://theburninghouse.com/.

WOLTON, Dominique. É preciso salvar a comunicação. São Paulo: Paulus, 2006.

 

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