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Em torno da poética da pesquisa: semiosfera como epistemologia

Resumo/Abstract

Luiza De Carli sobre quadro de René Magritte

Reuben da Cunha Rocha

Resumo

Com a semiosfera os estudos de semiótica da cultura fixam em metáfora conceitual sua vocação para investigar processos dinâmicos de geração de sentidos. Uma compreensão do objeto – os textos da cultura – que altera potencialmente o proceder da pesquisa, uma vez que se passa a enxergar nos produtos textuais os processos de significação no seio dos quais está a própria investigação. A partir de alguns traços distintivos deste campo de conhecimento, este ensaio se propõe a uma revisão de pressupostos epistemológicos organizados em torno da relação entre pesquisador e fenômeno pesquisado, e de noções clássicas como as de objeto, método e sujeito da pesquisa, repensadas a partir de um pensamento assumido como poética e produção de sentidos.

Palavras-chave: semiosfera; epistemologia; semiótica da cultura

Abstract

With the proposition of semiosphere, the Semiotics of Culture settles a conceptual metaphor for its vocation to the investigation of the dynamic meaning-generation processes. Its comprehension of the object – as a text of culture – potentially modifies the conduction of research, since it becomes necessary to observe not textual products, but the processes within texts, which include the investigation itself. Beginning with some of the field’s distinctive marks, this essay proposes a revision of epistemological assumptions regarding the relation between the researcher and the researched phenomenon, and also of classic conceptions such as object, method and subject of research, re-proposed from the point of view of the research assumed as poetics and production of meaning.

Keywords: semiosphere; epistemology; semiotics of culture

Ensaio

Seria possível pensar em uma epistemologia que,
afastando-se da abstração ou do modelo científico,
se aproximasse das características do objeto?

Lucrécia D’Alessio Ferrara

No processo da comunicação dialógica com
o objeto, este se transforma em sujeito
.
Mikhail Bakhtin

O jogo elide sujeito e objeto.
Waly Salomão

A instabilidade, um princípio

Aplicar uma teoria a um objeto não é o melhor modo de relacionar-se com ela caso o espaço deste uso não sirva para alterar objeto, pesquisador e a própria teoria na situação investigativa. Sendo assim nem se trataria mais de aplicação, mas da inserção da teoria no seio de uma conversa em que se priorizem os lances de complexidade do conhecimento, em que interesse mais o desejo do conhecer que o conhecido. Aplicar uma teoria não é senão enrijecê-la, despir do conceito o processo, domesticar o território das ideias pela tentativa de torná-lo útil, quer dizer, servil. Pois pesquisar é propriamente experimentar algo fora da jurisdição do que já foi dito, fora do que a teoria já circunscreveu, e aí já não é possível submeter-se a nada que não seja ruído e risco.

É deste ponto de partida que se fala numa epistemologia, para alcançar uma poética: de rupturas incontornáveis sugeridas pelo conceito de semiosfera – para a fabricação de ideias e para a negociação com os fenômenos, em suma, para o modo de pesquisar – na direção de um pensamento assumido como produção de sentidos. Não a decifração de significados pretensamente à espera de algum detetive de sinais cujo instrumental teórico os desvele ou “domine”, mas uma investigação assumida como signos gerados a partir de signos, jogo desenrolado no mesmo território sobre o qual se debruça, ou seja, na linguagem.

O conceito de semiosfera nasce da proposição duma inversão, a de não ser o signo ou sua natureza o objeto da semiótica, mas o próprio espaço semiótico, ele que precede e torna possível a semiose, que põe signos, linguagens, textos, códigos em contato. O continuum semiótico da cultura em que cabem e coexistem os signos em atividade numa época: do último romance do mais novo autor que projeta a literatura da próxima década ao manuscrito recém-descoberto no rodapé de uma pirâmide que redefinirá o que se sabe sobre o Egito Antigo, das cores da estação às mudanças climáticas, da descoberta de uma nova galáxia à de um alfabeto perdido, qualquer signo ou sistema reconhecível (legível, interpretável) a uma cultura o é apenas por integrar o espaço semiótico chamado semiosfera.

Não parece haver uso em tratar essa ideia fora de certas implicações cognitivas de longo alcance, a primeira pista sendo que, se os sentidos são gerados nas relações entre textos, nas redes que estabelecem, nos processos que desencadeiam e por meio dos quais são desencadeados, o espaço dessas relações abriga também a pesquisa que se empreende e que as investiga. Este é o espaço de uma teoria disposta a dialogar com o fragmento, o descontexto, o ruído, o que não cabe, o que necessariamente sobra ao modelo explicativo – na trajetória do pensamento de Lotman isto é especialmente visível no arco que vai da proposição do conceito até a atenção final dada aos processos explosivos e ao sonho da imprevisibilidade como objeto da pesquisa –, e o primeiro atrito que é preciso acolher (profícua, fecundamente) é o de a semiosfera ser um conceito lançado sobre o objeto e relançado sobre o sujeito da pesquisa. Uma instabilidade fundamental, e um convite à aventura.

Da semiosfera ao texto, do texto às linguagens

A posição do espaço semiótico é a de ser a própria condição de desenvolvimento da cultura e, inversamente, o resultado de sua complexidade, do processo histórico no fim do qual os sistemas de signos se tornam capazes de autodescrição. A semiosfera é menos um modelo descritivo do que uma espécie de diagrama de funções e relações hierárquicas, os textos convivem porosamente no espaço semiótico e a dinâmica de suas relações possui mecanismos regulares de funcionamento (os fluxos entre centros/periferias, o mecanismo bilíngue da fronteira, a não-homogeneidade estrutural do espaço semiótico), mas sua regra geral é o choque e a violação/recomposição de hierarquias entre linguagens (LOTMAN, 1996: 30). Textos se perdem de seus códigos, ruídos de comunicação produzem novidade de informação, mudanças de contexto alteram os modos de leitura dum texto, fragmentos de linguagem sobrevivem sem gramática. Daí que a topografia composta por estes espaços – centros, periferias, fronteiras – só possa ser a de uma dinâmica em que os mecanismos semióticos de tradução/intraduzibilidade ponham textos em contato ativo, dialógico, responsivo.

Isso como se sabe desloca perspectivas semióticas clássicas, como as que veem no signo uma unidade atômica em cuja natureza está a chave da decifração de significados, ou as que a fim de compreender o texto investem na descrição da hierarquia de suas funções internas. Pressupostos cuja consequência é que sistemas de signos sejam vistos como precedentes às formações semióticas concretas, ou que estas funcionem como exemplares dum ideal de estruturalidade, e em ambos os casos o fenômeno é tomado como invólucro de algum conteúdo, quer o significado, quer a estrutura.

Mas no ato da leitura há o texto, a linguagem é uma abstração secundária que no limite é criada por ele próprio (e aqui penso especificamente no texto artístico, que trabalha no limite da expressão, do dizível). A noção segundo a qual a posse prévia de chaves de leitura é algo de fundamental à pesquisa pode ser posta na conta de uma precaução heurística que ignora o fato de a confecção das gramáticas estar sempre no fim do desenvolvimento da cultura (no estágio de sua autodescrição), não no início, e acaba dizendo mais sobre o campo investigativo que sobre os fenômenos. Precaução que esbarra exatamente naquilo que é mais caro à investigação, as possibilidades e deslocamentos de critérios de análise sugeridos pelos fenômenos. É com os textos que nos deparamos no espaço vivo da significação e os sentidos resultam sempre de um contato – investigar a natureza do signo isolado diz muito pouco sobre seu funcionamento real, que é afinal o que importa à semiótica, o signo enquanto significa, isto a que se chama semiose.

O texto não é nem uma amostra exemplar das leis de funcionamento da língua nem um microcosmo autônomo e fechado em suas leis internas de funcionamento. É algo composto na encruzilhada de diversos códigos e linguagens (não de um código, ou de uma linguagem) cuja estruturalidade inclui os fluxos dinâmicos que se movem entre texto e leitor, entre texto e outros textos, ou entre textos e contextos diversos, fluxos que são o próprio motor dos processos de significação, fundador do espaço de sentidos da cultura.

A realidade dessas relações é a de que qualquer dado novo ativa sentidos que estão além da mera decodificação duma mensagem, da decifração da intencionalidade do que se quis dizer. Se há uma mensagem que se emite, ela passa por todo tipo de choques, conexões, atritos, ruídos que lhe acrescentam sentido, que lhe enriquecem de maneiras imprevisíveis aos pretensos emissores e receptores.

Por isso Roland Barthes (2004) chamaria a atenção para a leitura que se faz erguendo os olhos, em que desviar-se do texto no rastro de associações, reminiscências, projeções, não é desaproveitar a leitura, mas polinizá-la: desvios por vezes vindos como que com o vento cujo contato fertiliza a ambos, ao texto e àquilo a que ele remete, e os leva para além de si. Deixar-se interromper pelo pensamento, por prazeres, leitura desrespeitosa (ela interrompe o texto, abandona-o, esquece-o) e ao mesmo tempo rica (ela responde ao texto, desenvolve-o), que participa da trama ampla da cultura como o próprio texto que lê – irreparavelmente aberto a outros códigos e linguagens com que esbarre e se ponha em fronteira.

Contra o método, o sujeito e o objeto: pesquisar é participar dos sentidos

Assim o próprio funcionamento semiótico da cultura, trama permissiva e dialógica, tecido de muitos fios desdobrado em novos fios e texturas gerados pela ação dos signos. Pois o texto é um dispositivo inteligente, mais do que o produto da inteligência de um autor. Promove encontros imprevistos que apontam para o imprevisível, funciona como espaço de relações mais do que como depósito de mensagens. Dizer que contém informação não dá conta de compreendê-lo nestes processos, não descreve mais do que uma de suas funções. Ele não só transmite algo que se quis depositar nele, tanto quanto não termina onde seu autor o pretendeu, no ponto final. A linguagem é capaz de auto-organização, a ação dos signos é criadora e os mecanismos semióticos, dispositivos pensantes (LOTMAN, 2000). A cultura funciona como um cérebro: armazena/transmite/cria informação – atributos de uma inteligência propriamente semiótica, ou seja, inteligência dos signos, libertada a noção de inteligência da ladainha de nosso antropocentrismo.

O exemplo de Lotman para a participação ativa dos textos na cognição é o da tradução poética: traduzido um texto de um idioma a outro, a tradução reversa jamais equivalerá ao original. Caso a linguagem dissesse respeito à mera transmissão de conteúdos, caso a operação tradutória dependesse do que quer o tradutor, ela resultaria em textos coincidentes. Mas ocorre de o tradutor se debater o tempo todo com escolhas, com dilemas da intraduzibilidade (pois não há sinônimos: traduzir é gerar interpretantes de um texto), com decisões de forma que rearranjam sentidos e geram portanto nova informação.

O mecanismo semiótico visto assim se complica, exibe um elemento de indeterminação que não cabe ser visto como indesejável – ruído no meio do caminho do sentido, emboscada do entendimento –, pois é precisamente o contrário, aquilo que define o texto. É o olhar que se desloca, muda a imagem que se faz do objeto da pesquisa, não um artefato, mas teia de relações exigindo uma postura de leitor não como a daquele que decifra algo, ou pior, desmascara, mas como alguém atento às possibilidades de sentido para as quais o texto aponta. Um leitor que trate com o texto, não que o disseque. O texto que se altera e amplifica a cada relação que estabelece entra no espaço da pesquisa como sujeito, consciência autônoma no processo do conhecimento. Ele participa dos processos de significação com personalidade, voz ativa tanto quanto a do leitor ou autor. Preciso é escutá-lo.

Pro pesquisador disposto à conversa, o contato com o objeto perde qualquer caráter de conversa encerrada, resolvida num ponto final qualquer, para se aproximar da ideia de ato: cada leitura ativa conexões singulares, o que por outro lado implica que não pode nunca pretender explicar o texto, caso isso signifique uma exegese, uma decifração, aquela espécie de revelação do que o texto quer dizer típica de certo comportamento religioso. Como diz Bakhtin, o mais produtivo é que ambos, leitor e texto, saiam alterados da leitura.

Tal conversa se dá no próprio território dos signos, não sendo por outra razão que Lotman se referiria às interpretações como as variantes duma obra, o mesmo a que Barthes chamaria o plural do texto. O que se espera da atividade da pesquisa, assim, é menos inquisição que participação, resposta semiótica aos signos. Ora, na semiosfera encontram-se desde os sinais dos satélites até os versos dos poetas e os urros dos animais (a imagem é de Lotman); considerar que a atividade da pesquisa esteja fora destas relações é aliená-la, propor que sua linguagem possui uma pureza que não cabe na própria definição de linguagem. No campo de estudos da semiosfera trata-se de compreender processos relacionais produtores de linguagem (MACHADO, 2007), atividade de compreensão ela própria relacional e sígnica – a semiosfera se desdobra sobre o espaço em que se realiza seu próprio estudo.

Que significa isto? No mínimo um tiro no pé duma pesquisa que se pretenda observadora, distanciada, rigorosa na intenção de “dominar” objetos. Velho paradigma de cientificidade que ainda faz a cabeça de muitos pesquisadores, num exercício de ilusionismo que ignora não só a historicidade da pesquisa, como sua poeticidade, a dimensão do seu fazer propriamente criadora. Porque falar em produção de sentidos implica referir-se à pesquisa como processo dado na linguagem, proposição e jogo de interpretantes na “cadeia semiósica ilimitada” do pensamento, emprestando a expressão de Haroldo de Campos.

Participar dos sentidos do texto é intervir no tecido da cultura, alterá-lo de dentro para dentro. Subverter a linguagem científica no sentido barthesiano – como não questionar a própria linguagem que me serve para pesquisar a linguagem? –, propor à pesquisa que ela se escreva, se critique e se contamine do objeto. Se o que o texto oferece são lições de linguagem, como não seria a pesquisa a primeira a aprendê-las?

Pensar, deslocar, criar: breve antologia sobre a produção de sentidos

Num ensaio conhecido, “Kafka e seus precursores”, Jorge Luis Borges exercita uma leitura reversa da história literária, cujo ponto de partida é identificar que ao longo dela há obras bastante heterogêneas entre si aproximadas unicamente pela existência dos textos de Kafka. Caso Kafka não tivesse escrito, diz Borges, jamais perceberíamos as afinidades secretas entre Han Yu, prosador chinês do século IX, alguns escritos de Kierkegaard e a poesia do inglês Robert Browning, entre alguns outros. Isso porque não haveria afinidade: nós a devemos a Kafka, pois cada escritor cria seus precursores, alterando com sua obra a leitura que fazemos do passado.

Mas não é Kafka quem aproxima – retomando a lista de precursores – o paradoxo de Zenão (onde estariam “os primeiros personagens kafkianos da literatura”) de um conto de Léon Bloy, é provável que parte dos autores elencados por Borges sequer estivesse no horizonte de leitura de Kafka. Reconhecemos o escritor onde Borges o aponta, e se queremos entramos com ele no jogo (eu acrescentaria à lista “O crocodilo” de Dostoiévski), mas não há motivos para acreditar que fosse assim a relação que o próprio Kafka estabelecia com a tradição literária. Afinal, investigar o que há de kafkiano na literatura anterior a Kafka não seria possível ao autor, já que só depois de sua obra ter sido realizada é que pudemos conhecer o significado de kafkiano.

Este mapa de leitura é preciso atribuir a Borges, e o que ele opera, muito sensivelmente, é uma inversão total da ideia de influência, tão recorrente nos estudos literários. Há esta leitura mais ou menos padrão, detetive de semelhanças, que investiga ecos de autores do passado no trabalho de autores do presente. Naquelas páginas Borges quer outra coisa. Trata com distinto traço a mesma questão, sem dar a menor bola para a linearidade fatal do cânone: é o presente que lança luz sobre o passado, estabelece conexões inéditas, manipula criativamente a cronologia. Em suma, um poema de Browning “profetiza a obra de Kafka, mas nossa leitura de Kafka afina e desvia sensivelmente nossa leitura do poema” (p.130). Este desvio é a própria atividade crítica, que soma ao texto lido toda uma história pessoal de leitura. Atividade que Borges exercita até o estatuto de arte, como é o caso quando o comentário se torna tão imprescindível quanto o comentado. Se a partir de Kafka é possível a Borges a tese de que o escritor elege seus precursores, podemos pensar que é somente a partir de Borges que os escritores podem experimentar conscientemente esta outra relação com a tradição literária, feita de escolhas e conexões criativas mais do que de débitos escolares.

Os exemplos dessa antologia se multiplicam em atividades nem sempre tidas como criadoras (para prejuízo delas próprias talvez), desde a epígrafe ou a citação, cujo contexto e chave de leitura já não estão no original, mas no texto que as apropria, até a atividade das Ciências Humanas, cuja realidade imediata é o grande texto da cultura. Gilles Deleuze conceberia a história da filosofia “como uma espécie de enrabada”, fornecendo uma imagem corajosa ao descrever seus comentários (a Bergson, a Kant, a Hume) como “filhos monstruosos” feitos pelas costas dos filósofos. Filhos porque “o autor precisava efetivamente ter dito tudo aquilo que eu lhe fazia dizer”, e ainda assim monstruosos, “porque era preciso passar por toda espécie de descentramentos, deslizes, quebras, emissões secretas” (1992: 14) em que residiria o caráter nitidamente autoral daqueles textos. Deslocamentos de ideias esses “filhos monstruosos”, formas de dilatar sentidos que sintetizam o que a leitura (a pesquisa) pode chegar a ousar, a criação.

Risco, ruído, invenção: por uma poética da pesquisa

Acreditar no caráter dialógico da atividade da pesquisa, tanto quanto no do texto como mecanismo inteligente, encontra consequência na abolição de quaisquer relações de autoridade ou subordinação de um ao outro. O pesquisador é o outro do texto, os sentidos nascidos de seu contato são aquilo que excede de ambos.

Enquanto se restringe aos domínios da explicação a pesquisa apenas dubla a voz do texto, repete o que ele já diz. É certo que explicar é atividade fundamental (no ensino, por exemplo), mas dá conta apenas daquilo que pesquisador e texto têm de coincidente. O diálogo supõe a diferença, e sua expectativa é a de descentramento mútuo – do texto se diz algo que o projeta para espaços de sentido não previstos, e ao pesquisador se reserva a surpresa que acompanha a leitura desapegada de certezas. Ele não subestima o texto e sabe que “se não esperamos nada da palavra, se sabemos de antemão tudo o que ela pode dizer, ela sai do diálogo e se coisifica” (BAKHTIN, 2003). A potência dessa pesquisa está noutro lugar que não o da prática que, a pretexto de rigor metodológico, produz infindáveis listas classificatórias, como jogos de encaixe em que o fenômeno se reconheça em categorias importadas de outros contextos investigativos.

A análise como reiteração de teorias não é viável no âmbito de uma prática conceitual que se pretende atenta ao movimento. Assumir o dinamismo da cultura e dos processos concernentes aos textos reivindica uma pesquisa que se esforce por similar dinâmica, ou melhor, que se inclua nessa dinâmica. Uma pesquisa que não esconda vontade predatória alguma atrás do álibi do método, este jargão herdado do positivismo (coisa que parecemos esquecer), e que não raro ainda serve à paralisia e à antecipação de todo susto.

Ao vínculo semiótico em que se dá a produção de sentidos soma-se a questão: como fixar em texto o processo? Como expor na página a dinâmica da ideia, o pensamento que se desdobra e altera enquanto desdobra e altera o objeto?

Pressupostos para a pesquisa que apontam, paradoxalmente, para uma pesquisa nua de pressuposições. Porque suas estratégias se constroem no próprio tempo da leitura, elas integram o movimento, o trato do pesquisador com o texto, sem garantias prévias. É uma exigência do campo de estudos da semiosfera que se entre nele com desconfiança da “transposição de conceitos, teorias e conhecimentos cujas bases não estejam assentadas no movimento da imprevisibilidade” (MACHADO, 2007). Dá-se o caso de um território conceitual que organiza a pesquisa a partir de um modo próprio de conceber a atividade semiótica – não é o objeto que se submete às expectativas do campo, mas o campo que a priori se desarma de tudo que não seja dúvida, e permanece aberto a exigências investigativas que só surgirão no desenrolar da pesquisa.

Uma epistemologia do saber semiótico que não ignore sua realidade sígnica, processual e impura, como a de todo gesto que se faz na linguagem. Pois acreditar na escrita como “instrumento do pensamento” é supor que há uma neutralidade que lhe é possível – discurso herdado do mito fundador da Objetividade, que talvez só possa responder a uma ingenuidade ou a uma má-fé.

Uma epistemologia não distante do que Félix Guattari (1990) imagina ao propor, noutro contexto, um paradigma estético contra o fantasma da cientificidade. Para que o pesquisador não se faça nunca valer da autoridade de um grupo ou de um corpo conceitual consolidado, para que cada acontecimento de pesquisa tenha a potência de reinventar o programa de ação da disciplina, de expandi-lo, de “inaugurar aberturas prospectivas”, desinteressado de catecismos e de jogos ganhos.

Guattari tem em mente a disposição da arte moderna (seria necessário acrescentar: de certa arte moderna, de certa noção de modernidade) para renovar sua matéria expressiva e levar a um ponto extremo “uma capacidade de invenção de coordenadas mutantes, de engendramento de qualidades de ser inéditas” (1992: 135). Assim como os procedimentos de composição de um texto artístico não possuem qualquer validade para além dele, a pesquisa necessita rearticular suas bases a cada fenômeno, despir-se duma autoridade canônica respaldada pela reiteração (que é o “argumento” de toda autoridade) – isto caso não queira correr o risco de cristalizar conquistas em vícios de análise e, pelo contrário, esteja mais interessada no risco do afrontamento sem descanso (como diria Deleuze) da invenção.

Pois entender que se trata de pôr a linguagem para trabalhar e não de observá-la implica riscos, aos quais há sempre quem oponha um discurso de prudência e responsabilidade. Só que se trata de uma curiosa responsabilidade: ela não recai sobre o pesquisador e sim sobre a autoridade constituída dum campo, duma metodologia, dum sistema. Ao contrário, abrir mão das garantias herdadas para – sem deixar de dialogar com quaisquer conquistas de campo que forem relevantes – aventurar-se a jogar o jogo proposto por cada fenômeno reserva não poucas implicações ético-políticas ao pesquisador, porque quem fala em criação “fala em responsabilidade da instância criadora em relação à coisa criada, em inflexão de estado de coisas, em bifurcação para além de esquemas preestabelecidos” (GUATTARI, 1992: 137).

Esta pesquisa leva ao limite o que podem os signos, e se aproxima mesmo é do texto artístico. Aqui remeto a Paul Zumthor (2007), que lembra haver uma natureza poética do encontro entre pesquisador e objeto e uma dimensão criadora, imaginativa e narrativa do texto que resulta da pesquisa, além de que o acontecimento desse encontro e a linguagem que se debruça sobre ele se ajustam reciprocamente numa relação de desejo (palavra tão suspeita aos olhos da estética de formulário de nossa produção textual universitária) que necessita excluir o discurso que, “pretendendo a transparência, se esvazia de toda paixão, esmaga os frêmitos da vida” (p.100), cristaliza o olhar e disfarça em rigor metodológico a falta de coragem.

Ainda um princípio, o imprevisível

É enquanto programa de ação, despido de resguardos, que o pensamento se poliniza e multiplica – sobretudo se concordamos com Lotman quando diz que a atrofia das ideias tem início quando o esforço dos que participam dela se concentra mais na conservação da pureza de seus princípios que em seu desenvolvimento (TOROP, 2003). Antídoto a isso é a investigação que se remaneja a partir do acidente, retomando ainda o que diz Guattari, que desdobra, bifurca, multiplica seu projeto inicial em função do imprevisto e refunda a cada vez a identidade do campo, pois se recusa a definir-se senão por seus critérios de indagação. Mais proposição de atritos (jamais esquecer a riqueza do ruído) que síntese, mais raridade que reiteração, produção sistemática de dissenso – como na arte, mais singularidade que verdade.

Resvala na imaginação crítica e na escritura a possibilidade de contestar e quebrar, como deseja Barthes, “a imagem teológica imposta pela ciência, recusar o terror paterno espalhado pela ‘verdade’ abusiva dos conteúdos e dos raciocínios, abrir para a pesquisa o espaço completo da linguagem” (2004: 10). Não por acaso Barthes também chama a atenção para que apenas um deslocar-se incessante é capaz de preservar qualquer discurso de ser tomado pelo poder – ou tomado como poder –, comentando em sua Aula Inaugural no Colégio de França algo que diz Pasolini, de que é preciso ter coragem mesmo para abjurar aquilo que, nascido de nossa sinceridade, foi servilizado ou manipulado.

É o imprevisível sonhado como objeto, como no sonho de Lotman, que introduz na pesquisa o elemento da arte. Um movimento dado na própria linguagem, este deslocar-se que pode ser pensado nos termos da semiosfera como um habitar permanente da fronteira, um ultrapassamento da distinção hierárquica entre os atores da pesquisa – em que metalinguagem e linguagem-objeto sejam tensionadas pela função poética da escritura, e em que esta resulte de fato de um comprometimento do pesquisador com o desconhecido.

Bibliografia

BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

BARTHES, Roland. Da ciência à literatura. In: O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

BORGES, Jorge Luis. Kafka e seus precursores. In: Outras inquisições. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

FERRARA, Lucrécia D’Alessio. Epistemologia da comunicação: além do sujeito e aquém do objeto. In: Epistemologia da Comunicação. Maria Immacolata Vassallo de Lopes (org.). São Paulo: Loyola, 2003.

GUATTARI, Félix. As três ecologias. São Paulo: Papirus, 1990.

_________. Caosmose. São Paulo: Ed. 34, 1992.

LOTMAN, Iuri M. La Semiosfera I: Semiótica de la cultura y del texto. Madrid: Cátedra, 1996.

LOTMAN, Yuri M. Universe of the mind: A semiotic theory of culture. Indiana UP, 2000.

MACHADO, Irene. Circuitos dialógicos: para além da transmissão de mensagens. In: Semiótica da Cultura e Semiosfera. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2007.

TOROP, Peeter. A Escola de Tártu como Escola. In: Machado, Irene. Escola de Semiótica: A experiência de Tártu-Moscou para o estudo da cultura. São Paulo: Ateliê/Fapesp, 2003

ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

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