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Processo de produção de sentido na transmissão radiofônica “Guerra dos Mundos” (1938)

Resumo/Abstract


Imagem: Patrícia Campinas

André Munzlinger

Celso Luiz Ogliari

Jéssica Galhotto

Richard Perassi

Resumo

Tradicionalmente, o rádio é um veículo de comunicação de massa que propõe aos ouvintes o exercício da imaginação. Isso decorre especialmente do fato de suas informações serem exclusivamente sonoras, requerendo a participação imaginativa do ouvinte, como o complemento visual das informações. Por outro lado, assim como ocorre em outros meios de comunicação, a produção de sentido a partir dos sinais informativos das mensagens do rádio é influenciada por diferentes aspectos estruturais e contextuais. Mas, em última instância, o teor desse conteúdo é determinado de acordo com o repertório e com o foco de interesse dos ouvintes ou dos indivíduos componentes do público receptor de qualquer mensagem. Esses argumentos servem de base para uma interpretação semiótica do amplo fenômeno social decorrente da transmissão radiofônica da obra Guerra dos Mundos de H.G. Wells (1898), que foi realizada por Orson Welles em New York no dia 30 de outubro de 1938.

Palavras-chave: Semiótica, Comunicação de Massa, Informação Radiofônica

Abstract

Traditionally, the radio is a vehicle of mass communication that proposes to the listeners the exercise of imagination. This occurs mainly because the fact that its information is entirely sound, requiring imaginative participation by the listener, working as the increase of visual information. On the other hand, as already happens with other media, the production of meaning from the information signals of radio messages is influenced by different aspects like structural and contextual ones. But, in the last, the content is determined according to the repertoire and the focus of interest from the listeners or by the individuals receiving public components of any message. These arguments are the basis for a semiotic the broad social phenomenon interpretation of  which resulting from the work of radio broadcast War of the Worlds by HG Wells (1898), executed by Orson Welles in New York on October 30, 1938.

Keywords: Semiotics, Mass Communication, Information Radio

Paper

O PROGRAMA “GUERRA DOS MUNDOS” E SUA REPERCURSÃO.

No dia 30 de outubro de 1938, Orson Welles (1915-1985), personalidade estadunidense que se destacou como cineasta, ator e produtor, divulgou através da rádio CBS de Nova York, um programa decorrente da adaptação do livro “Guerra dos Mundos” (1898), que foi lançado anos antes no mercado literário, como parte da obra de Herbert George Wells, escritor de romances científicos.

O formato do programa radiofônico simulou uma reportagem jornalística e o resultado de sua divulgação provocou pânico em milhares de radiouvintes e pessoas em geral. Houve congestionamento das linhas telefônicas e do trânsito de automóveis em três cidades americanas, porque as pessoas acreditaram ser verdadeira a invasão marciana anunciada e retratada no programa radiofônico.

O programa marcou o “dia das bruxas” ou Halloween nos Estados Unidos. Em princípio, tratou-se da transmissão radiofônica de um jantar-dançante. Porém, a partir de determinado momento a transmissão é interrompida por sucessivos boletins pseudojornalísticos que, de maneira cada vez mais dramática, descreviam o ataque de naves marcianas sobre diferentes pontos do país. Ao final da transmissão foi revelado que a menção aos seres marcianos relacionava o programa de rádio ao universo fantasioso do “dia das bruxas”, “se a campainha de sua porta tocar e ninguém estiver lá, não era um marciano… é Halloween! (WELLES, 1938).

Primeiramente, foi informado que um disco voador havia aterrissado perto de New York, numa pequena fazenda em Grover´s Mill no estado de Nova Jersey. Logo após, foi informado em tom dramático que outras naves teriam pousado em várias partes do país. Inclusive, foi transmitido o pronunciamento de alguém designado como secretário do Interior, que estaria falando diretamente de Washington. Essa suposta autoridade admitia a gravidade da situação, pedindo calma aos moradores. Tudo isso produziu um sentido de realidade nas mentes do público radiouvinte.

No Brasil e em outros lugares, além dos Estados Unidos, os jornais da época repercutiram o caos social decorrente do evento. Por exemplo, em 01 de novembro de 1938, o jornal Correio do Povo apresentou a manchete: “Os Estados Unidos eram invadidos pelos marcianos – um programa radiofônico que estabelece verdadeiro pânico entre os ouvintes Yankees”. O mesmo jornal divulgou ainda no corpo da notícia que: “O programa radiofônico, admiravelmente organizado sob o ponto de vista artístico, dava em detalhes o desenrolar de uma invasão de habitantes de Marte na Terra, citando o local e outras informações. Centenas de pessoas tomadas pelo pavor corriam pelas ruas, pedindo socorro, sem saberem para que ponto se dirigir”…

Além de ser manchete no jornal citado, o programa de rádio e o fenômeno social decorrente de sua transmissão foram amplamente divulgados pela mídia, tornando-se um evento memorável, especialmente, por ser um fenômeno exemplar do poder dos veículos e da cultura de massa.

O contexto histórico e sociocultural no momento de ocorrência do evento foi favorável à reação de pânico das pessoas, sendo que a amplitude da comunicação radiofônica propiciou a ocorrência do fenômeno de massa. Porém, neste texto, a ênfase recai sobre a disposição dos ouvintes em aceitar como verdadeiro o conteúdo da transmissão de rádio, apesar de avisos recorrentes informarem que se tratava de obra de ficção.

O SENTIDO DO SENTIDO.

O que está em questão é o processo coletivo de produção de sentido, o qual propôs a transmissão radiofônica de uma obra de ficção do passado como registro de um conjunto de fatos simultâneos e verdadeiros. Para tanto, foi requerido o uso da imaginação por parte do público ouvinte, considerando que as pessoas podem associar imaginativamente lembranças de elementos e eventos distantes entre si, no tempo e no espaço. Assim, imaginando, as pessoas relacionam memórias de sensações, sentimentos e ideias (PERASSI, 2005:2).

De acordo com Greimas “um quadro, um poema são apenas pretextos, o único sentido que eles têm é aquele – ou são aqueles – que lhes damos”. (GREIMAS, 1975:7), Assim, a mente atribui sentidos e significados aos sinais sensorialmente percebidos. De maneira geral, as características perceptíveis dos sinais devem promover sensações que suscitam lembranças específicas na mente que os percebe.

Um sinal é associado a uma lembrança quando sua aparência é semelhante a algo que já foi percebido anteriormente. (1) Isso caracteriza a associação por analogia. O sinal também pode ser associado a uma lembrança devido à sua relação habitual com outra coisa. Assim, a fumaça é associada à lembrança do fogo porque essa é uma relação recorrente na natureza. (2) Isso caracteriza a associação por hábito. O sinal pode ser, ainda, associado a uma lembrança por convenção. Assim, diante do retrato do menino recém-nascido a mente associa a lembrança do nome que, convencionalmente, foi arbitrado a ele. (3) Isso caracteriza a associação arbitrária por convenção (PERASSI, 2005:3).

As associações decorrentes de analogia ou hábito caracterizam o “signo motivado” em oposição ao signo não motivado, que é o “signo convencional” ou “signo arbitrado” (SAUSSURE, 1969). Assim, a cultura estabelece o conjunto de associações possíveis, sejam decorrentes dos signos motivados ou dos signos convencionais. Na percepção de um sinal ou de um conjunto de sinais a mente atua como filtro cultural, selecionando e ordenando as lembranças possíveis de ser associadas para a produção de sentido. Assim, o sinal percebido como signo. “Quer se situe imediatamente atrás das palavras, antes ou depois das palavras, a questão do sentido permanece” (GREIMAS, 1975:8).

Para Saussure (1969), as palavras não têm um sentido próprio, o que existem são oposições ou relações que lhe sugerem a aparência do sentido. O signo linguístico resulta da convenção cultural entre os membros de uma comunidade para determinar a relação entre significante (sinal) e significado (signo). Ao contrário da língua, que é proposta como um conjunto de convenções precisas, a fala é constituída por atos individuais conotativos (COSTA, 2008).

Privadas de sentido próprio, as palavras e outros sinais são elementos de relação entre percepções e lembranças ou somente entre lembranças, caracterizando-se como metalinguagem do mundo percebido. Pois, para Greimas “o homem vive num mundo significante” onde o sentido não se coloca e sim é colocado, compondo-se como uma evidência que leva à compreensão. O significado é a “transposição de um nível de linguagem para outro” e o sentido é apenas a “possibilidade de transcodificação” (GREIMAS, 1975:8).

O lugar de instauração do sentido e de sua suspensão é o campo da denotação, onde as palavras ou os sinais substituem os objetos do mundo ou da mente. No que tange à significação, pode-se avaliar que esse espaço permite o conhecimento de como e onde se manifesta o sentido e de que maneira esse se transforma, convergindo para um elemento que impõem um significado à linguagem. Entre as diferentes possibilidades de sentido, a leitura ou a interpretação é a tentativa de decodificar o sentido do sentido, diante das múltiplas formas presentes em cada informação (GREIMAS, 1975:16).

A NECESSIDADE DO SILÊNCIO.

Orlandi (1995) afirma que o silêncio é necessário para que o sentido faça sentido, indicando que o sentido pode sempre ser outro. O autor lembra que, etimologicamente, silêncio (silentium) significa mar profundo. Assim como no mar, o sentido real está na profundidade do silêncio.

Balsebre (1994) infere os múltiplos aspectos significativos do silêncio, os quais demonstram existir algo mais que a não verbalização. Assim, os silêncios constituem um sistema expressivo-significativo também na mensagem radiofônica. O silêncio serve de parâmetro no processo de produção da “imagem” sonora com dimensões semelhantes ao tom e ao timbre da palavra, além de também propor conotação afetiva.

Na programação do rádio, o silêncio inserido entre as sensações acústicas pode atuar como elemento distanciador que permite a reflexão, levando o receptor a uma atitude mental ativa que preencha o vazio. A chave da criação radiofônica é conseguir a conexão eficiente entre a imaginação do emissor e o imaginário coletivo dos ouvintes. Assim, seduzidos pela evocação do imaginário radiofônico, os ouvintes se apropriam da mensagem, incrementando-a com sentidos e significações (BALSEBRE, 1994).

A linguagem radiofônica é expressa como sequência de signos sonoros e silêncios. Entre os efeitos musicais e de sonoplastia, destacam-se os signos verbais, sendo emitidos com entonações variadas que vão dos gritos aos sussurros. Porém, também é preciso estar atento aos sentidos e aos significados do silêncio. Para López-Vigil (2003),  a radiofonia propõe imagens sem visão, odores sem olfato, toques sem mãos, funcionando na obra de Welles como uma cortina de um teatro, permitindo a construção e desconstrução de imagens mentais.

COMUNICAÇÃO JORNALÍSTICA DE MASSA.

Há um coeficiente de desconfiança acerca dos meios jornalísticos. Mas, no geral, essa desconfiança não é maior que o coeficiente de credibilidade. Para o senso comum, a desconfiança decorre da constante possibilidade de manipulação das informações, que é decorrente de interesses diversos. Por sua vez, a confiança decorre da crença popular generalizada de que o jornalismo distorce, mas não inventa as notícias. Portanto, acredita-se que há uma imprescindível base factual na matéria jornalística.

Os meios de comunicação oferecem fragmentos da realidade, que são interpretados de acordo com os referenciais culturais e individuais. Porém, o público receptor nem sempre dispõe do espírito crítico necessário para fazer uma avaliação acurada das notícias. Assim, os emissores da informação jornalística são reconhecidos como detentores da verdade. Tannus (2004) informa que, no início da década de 2000, pesquisas realizadas no Centro de Estudos Internacionais da Universidade de Ohio indicaram que 60% dos entrevistados estadunidenses acreditavam na veracidade dos fatos relatados na mídia.

Para Santaella e Nöth, (2004), em seu discurso, o falante escolhe no repertório de sua memória imagens e palavras que acredita ser também parte do repertório de lembranças do ouvinte. Isso configura as convenções que estabelecem o acordo social, em torno do sistema de expressão e comunicação verbal. Assim, de modo geral, as informações são lembranças associadas a sensações (PERASSI, 2005).

Cada palavra falada produz no ouvinte um conjunto específico de sensações auditivas, permitindo sua distinção sonora no acervo geral das palavras. A cultura propõe as ideias que são associadas a cada sonoridade específica, assinalando seu significado. O sentido emocional da palavra decorre da mescla entre as sensações sonoras e o significado das ideias associadas.

Ao falar-se a palavra “perigo”, por exemplo, sua conformação sonora produz um conjunto específico de sensações auditivas. Isso permite a identificação da palavra e, além disso, o peso cultural das associações determina seu significado e deixa o ouvinte em alerta. Porém, quando a palavra “PERIGO” é emitida com um grito, além do peso de seu significado, há um acréscimo do apelo emocional da emissão e o ouvinte pode até entrar em desespero. Os aspectos cognitivos, significativos ou referenciais da mensagem caracterizam a informação semântica, enquanto os aspectos afetivos, emocionais ou poéticos da mensagem caracterizam a informação estética (PERASSI, 2005). Assim, a comunicação humana se estabelece na conjugação ou interação desses dois tipos de informação que estão contidos na mesma mensagem. Sob o aspecto semântico, trata-se mais especificamente sobre o que se fala e, sob o aspecto estético, trata-se sobre como se fala. Entretanto, em sua totalidade, a semântica ou a significação final da mensagem é decorrente da relação entre a informação estética e a semântica, porque o modo de falar influencia e determina parcialmente o conteúdo da mensagem.

A comunicação de massa considera a premissa proposta na teoria matemática da comunicação (SHANNON e WEAVER, 1975), que trata da relação entre o repertório da mensagem e a sua audiência. A teoria propõe que quanto maior for o repertório menor é a audiência.  Assim, de modo geral, a comunicação de massa atua com um repertório reduzido, comunicando palavras e expressões de uso comum no acervo linguístico do amplo público atingido por suas mensagens. Além disso, o interesse da audiência deve ser alimentado e mantido por meio de recursos mais ou menos sensacionalistas, cujo apelo emocional é mais contundente no sentido geral das mensagens. Isso contradiz a ética jornalística, entretanto, a comunicação jornalística de massa não consegue escapar inteiramente da estética e da pragmática que predomina na comunicação de massa e, portanto, padece em um constante dilema.

A PRODUÇÃO DE SENTIDO, EXPRESSÃO E COMUNICAÇÃO.

As consequências decorrentes da transmissão do programa “Guerra dos Mundos” (1938) podem ser parcialmente explicadas pela tensão histórica do momento imediatamente anterior à deflagração da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), duas décadas depois do encerramento da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Portanto, havia um alto grau de belicosidade entre as nações ou entre mundos diferentes.

Do ponto de vista semiótico, entretanto, o interesse recai sobre o processo de construção de sentido na transmissão radiofônica, que possibilitou a crença sobre a veracidade de um ataque de extraterrestres. Segundo Ortriwano (1998), pelo menos 1,2 milhão da população estadunidense acreditou nos fatos narrados durante o programa de rádio naquela noite.

A primeira estratégia que deve ser destacada foi estabelecida pela associação analógica entre o discurso jornalístico e o discurso do programa “Guerra dos Mundos”. Portanto, o programa se constituiu como um signo do jornalismo, por meio de uma associação analógica (PERASSI, 2005) entre a linguagem do programa e a linguagem jornalística. Pois, apesar de ser um programa de ficção, o mesmo foi formatado e comunicado como uma série de intervenções noticiosas sobre uma pretensa transmissão de um jantar-dançante no dia das bruxas.

Outro processo associativo menos evidente foi indicado na relação entre os tempos de guerra e o momento do programa. A proximidade do momento com as guerras mundiais indicava a associação habitual (PERASSI, 2005) entre a situação mundial e a guerra, compondo um contexto favorável para a leitura da simulação como realidade.

Houve (1) a associação analógica, estético-formal, entre o formato do programa e, também, a formatação jornalística e (2) a associação recorrente entre a situação sóciopolítica e a guerra. Mas, além disso, houve ainda (3) a associação simbólica, convencional e arbitrária (PERASSI, 2005), entre certas palavras e as lembranças relacionadas com a situação de guerra. Por exemplo, durante a transmissão radiofônica produzida por Orson Welles (1938) foram verbalizadas em diferentes tonalidades de voz as seguintes frases: “Esses sinos alertam o povo para evacuar a cidade”; “Chamas pulam do espelho em direção aos soldados”; “A fumaça negra sobre a cidade está se dissipando”; “Estão tentando atingir o avião com seus raios! Pulem!”.

O formato do programa foi jornalisticamente estruturado na intermitência de sucessivos boletins de notícias, compondo um discurso eficiente de sons e silêncios. Assim, na produção do programa, Welles (1938) corta a linearidade do texto, instalando rupturas e abrindo espaços para ação imaginativa e complementar do público ouvinte.

No intervalo dos pretensos boletins de notícias produz a situação propícia ao recurso imaginativo, nos momentos em que as notícias silenciam o público ouvinte complementa o noticiário com os recursos da imaginação. O mesmo ocorre nos momentos em que a voz do narrador é suspensa seja de maneira brusca ou titubeante. Nesses momentos, é produzido o efeito de que a narração foi composta no momento da ação, sem o apoio do roteiro e do texto que, na verdade, foram previamente produzidos.

A partir do conjunto de “fragmentos de verdade” que, de fato, resumiu-se à voz do narrador e dos pretensos entrevistados, criou-se o universo imaginativo produtor do sentido da guerra e da invasão extraterrestre. Isso foi propiciado: (1) por aspectos estéticos analógicos, decorrentes das entonações vocais do narrador e dos pretensos entrevistados, também, dos efeitos de sonoplastia e, ainda, da semelhança estrutural entre o formato do programa e o formato tradicional de um evento radiofônico jornalístico; (2) por aspectos simbólicos arbitrários decorrentes do uso de palavras que foram escolhidas por serem convencionalmente associadas a situações de guerra e de invasão; (3) por silêncios e interrupções, que atiçaram o medo coletivo, permitindo também o espaço necessário para a atuação imaginativa do público ouvinte.

CONSIDERAÇÕES FINAIS.

Primeiramente, a comunicação trata da transmissão de sinais entre um emissor e um receptor. Na comunicação falada, entre seres humanos, essa transmissão ocorre entre um ou mais falantes e um ou mais ouvintes.

No caso de os potenciais ouvintes serem auditivamente habilitados e o falante dispor de um potencial vocal adequado, pode-se considerar que, tecnicamente, a transmissão dos sinais será bem sucedida. Porém, promover nos ouvintes os sentidos estéticos e semânticos desejados pelo emissor é um desafio mais complexo do que efetivar com sucesso a transmissão de sinais. Pois, o processo de significação depende das  associações que podem e devem ser realizadas na mente dos ouvintes, para que os sinais percebidos sejam compreendidos como signos coerentes com as intenções do falante.

Para efetivar nos ouvintes processos de produção de sentido minimamente eficientes, os falantes iniciam muito cedo, ainda nos primeiros anos de vida, um árduo aprendizado. Porém, na maioria das pessoas, o aprendizado ocorre de maneira tácita. Assim, o falante torna-se mais ou menos hábil com as palavras e com os recursos de outras linguagens coadjuvantes da fala, como expressões faciais e gestos corporais, entre outros. Mas, não consegue explicar as estratégias de enunciação que aprendeu a usar.

O estudo do processo de produção de sentido é pertinente ao campo semiótico, cujo interesse é compreender e, também, explicar o fenômeno. A possibilidade de o emissor transmitir sinais para serem coerentemente interpretados pelo ouvinte é determinada por suas semelhanças perceptivas e, também, pelas partes coincidentes de seus acervos simbólicos. Pois, esses acervos foram constituídos no ambiente cultural que, de algum modo, é comum ao falante e ao ouvinte, no mínimo, porque ambos nasceram e vivem no mesmo planeta.

Houve um processo incomum de produção de sentido no fenômeno de massa decorrente da transmissão do programa radiofônico denominado “Guerra dos Mundos”. A comunicação foi estabelecida por mensagens faladas de uma equipe de rádio dirigidas ao público ouvinte.

Trata-se de um fenômeno que pode ser abordado com diferentes recursos teóricos. Mas, neste artigo, são destacados três tipos de associações para que os sinais sejam percebidos e interpretados como signos: (1) associações por analogia; (2) associações por recorrência ou hábito, e (3) associações por arbítrio ou convenção.

Além disso, é destacado também o domínio da imaginação dos ouvintes no processo de produção de sentido, sendo que a dinâmica imaginativa é conduzida por estímulos estéticos e elementos simbólicos expressos nas mensagens. Isso qualifica a informação estética e a informação simbólica, cujas interações determinam a semântica ou a significação geral das mensagens.

Como associação por analogia, houve a semelhança entre a estrutura do programa “Guerra dos Mundos” e a estrutura dos programas jornalísticos, com notícias em tempo real; entrevista com autoridades, e vozes de pessoas em background. Nos estímulos estético-expressivos, houve também analogias entre as modulações das vozes, com diferentes entonações e ritmos, e as expressões produzidas em reportagens de eventos tensos e dinâmicos. Por fim, a variação entre os tempos da fala e do silêncio, além de reforçar a analogia com as coberturas jornalísticas, proporcionou o tempo necessário para o desenvolvimento do processo imaginativo dos ouvintes.

Como associações recorrentes ou habituais, considera-se que o tema “guerra” era recorrente na época da transmissão do programa de rádio (1938), por se tratar de um período entre duas grandes guerras mundiais, sendo que a primeira já havia ocorrido e a segunda era eminente.

Como associações simbólicas, arbitrárias ou convencionais, entre outros códigos específicos, também, relacionados à situação de guerra e aos programas jornalísticos, destaca-se o uso de palavras e expressões diretamente associadas à situação de guerra e a coberturas jornalísticas radiofônicas.

Diante do exposto, considera-se que cooperação entre os diferentes tipos de código e o uso eficiente de estratégias e recursos de informação e comunicação, conforme são descritos neste artigo, tornou mais que efetivo o processo de produção de sentido na transmissão do programa “Guerra dos Mundos” (WELLES, 1938), superando em diversos aspectos e consequências as fronteiras entre a representação e a realidade no processo radiofônico de comunicação de massa.

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