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Resenha

Resenha


Imagem: Patrícia Campinas

Autor: André Ming

Resenha

SANTAELLA, Lucia. Leitura de imagens. 1ª ed., 2ª imp. São Paulo: Melhoramentos, 2012. 184 p.

Em 2012, Lucia Santaella publicou uma obra de interesse para todos aqueles que se aventuram pela teoria e prática da leitura de signos não-verbais, dedicada ao êxtase da semiose, por meio da proposta de ensino da leitura de imagens. Integrante da Coleção Como Eu Ensino, da Melhoramentos, organizada por Maria José Nóbrega e Ricardo Prado, o volume tem vocação inter e transdisciplinar: trata-se da pedagogização da leitura de imagens, do despertar do sujeito para o fenômeno da leitura em sua acepção mais ampla, que vai muito além da decodificação das letras do alfabeto e da linguagem verbal, como insiste Santaella em várias passagens do texto. Ao final de cada capítulo, uma bibliografia altamente atualizada sobre os assuntos ali tratados é recomendada ao leitor ávido por mais e, de forma muito especial, sequências didáticas são sugeridas para que colegas professores conduzam atividades exitosas junto ao seu alunado.

O contexto inspirador da escritura do livro é clara (e explicitamente): o mundo em que vivemos, repleto de desenhos, rabiscos, pixações, placas, sinalizações, fotografias, esculturas, pinturas, códigos e símbolos de toda sorte. A autora clama, alinhando-se, assim, a uma perspectiva corrente em diversas abordagens semióticas contemporâneas, por uma expansão do conceito de leitura, pelo reconhecimento dos diversos tipos de leitores e por uma alfabetização visual, i.e., pelo aprendizado da leitura do imagético, de seus componentes, de sua sintaxe, do cânone de significados atribuídos a certas imagens – e, por que não, de sua ressignificação. Trata-se, assim, de prescrutar o que há de próprio na nervura representativo-significativa da imagem e de (re)conhecer as múltiplas camadas das representações visuais, sejam elas sociais, estéticas, tecnológicas, antropológicas, subjetivas.

Já de início, Santaella deixa claro que a palavra “imagem” é polissêmica e ambígua. A autora alude primeiramente às imagens formadas por e em nossas mentes, sem vínculo necessário com existências físicas ou imagens previamente percebidas, e desobriga-se de abordar essa definição e suas implicações no livro, uma vez que o estudo desse tipo de imagem envolve questões de cunho psicanalítico e cognitivo. Em seguida, menciona (e também exclui) as imagens diretamente perceptíveis, advindas da realidade e pertencentes ao âmbito das teorias da percepção visual. Finalmente, alcançam-se as imagens como representações visuais, criadas intencionalmente por seres humanos em contextos sócio-histórico-culturais, o verdadeiro foco fenomenológico de que trata o texto. Da tríade classificatória das imagens em fixas, em movimento e animadas, Santaella elege a leitura daquelas bidimensionais fixas como tema específico deste trabalho, considerando tanto a relação de semelhança que tais imagens por vezes resguardam com o que representam, quanto as camadas extras de significação que lhes pode atribuir o simbolismo.

No primeiro capítulo, dedicado às imagens na arte, a autora trilha o percurso histórico da produção artística ocidental a partir do Renascimento e rumo às vanguardas estéticas do modernismo. Trata dos elementos visuais primários (ponto, linha, contorno, direção, tom, cor…), discorre acerca das principais técnicas no desenho (carvão, grafite, sépia…), da pintura (aquarela, óleo, guache, acrílico…) e da gravura (metal, xilografia, serigrafia…) e propõe formas de instigar a leitura das complexas obras originadas por meio do emprego dessas técnicas e dos saberes relacionados.

No capítulo segundo, sobre a fotografia, trata dos fatores técnicos relacionados à produção dessa arte, seu caráter imagético indicador e/ou documental, o agente condutor do ato de fotografar e as decorrências desse mesmo ato.

No terceiro capítulo, fala-nos do livro ilustrado e sua característica híbrida, sua composição verbo-visual, da concorrência (de)construtiva de duas narrativas paralelas sustentadas por signos de natureza distinta em pura simbiose e os termos que caracterizam a relação dos dois tipos de textos empregados.

No capítulo quarto, “Imagens na publicidade”, aborda as estratégias de engendramento de signos visuais com vistas à sedução do consumidor dos produtos anunciados e, no quinto, transporta-nos à esfera do design e da imagem no contexto da hipermídia.

No que diz respeito ao interesse pedagógico da obra, observa-se o cuidado nas atividades sugeridas ao final de cada capítulo para desenvolvimento junto aos alunos, com a sugestão de exercícios que impliquem a ação por parte dos educandos, bem como a interação entre eles. Isso configura uma concepção de ensino que vai ao encontro de algumas das mais contemporaneamente aceitas tendências e visadas teóricas do fenômeno do ensino-aprendizagem (construtivismo, sócio-interacionismo etc.). Todas as atividades propostas são introduzidas pela indicação das competências e habilidades a serem atingidas pelos participantes, e são sugeridas, de forma geral, pesquisas em grupos e apresentações das descobertas ao restante da classe, com posterior discussão dos dados.

Se no início da década de 80 Santaella denunciava, na sessão “indicações para leitura” de seu clássico O que é Semiótica (Brasiliense), a escassez de obras então disponíveis acerca da teoria geral dos signos em seus aspectos teórico e aplicado, hoje, a própria autora, com suas inúmeras publicações dedicadas à disciplina, continua contribuindo generosamente pela expansão dos saberes registrados sobre Semiótica. Nesta obra, de clara vocação interdisciplinar, Santaella sugere ao professor formas didaticamente felizes de ensinar o aluno a dialogar com a floresta de signos que representa o mundo contemporâneo. Trata-se de um texto belamente ilustrado para estudantes de Semiótica, de comunicações, de artes, de multimeios, para pedagogos e interessados na temática da imagem em geral.

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