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Ricardo Aleixo, um grafador da movência

Apresentação

Fragmento da peça "11 passos para Merce Cunningham"

Ricardo Aleixo (Belo Horizonte, 1960) é poeta, artista visual e sonoro, ensaísta e performador. Publicou os livros Festim (1992), A roda do mundo (1996, com Edimilson de Almeida Pereira), Quem faz o quê? (1999), Trívio (2001), A aranha Ariadne (2003), Máquina zero (2004) e Modelos vivos (2010). Tem, no prelo, o livro Palavras a olhos vendo – Escritos sobre escritas, com o qual conquistou, em 2002, a Bolsa para escritores brasileiros com obras em fase de conclusão, da Fundação Biblioteca Nacional. Integra, como performer e compositor, o Combo de Artes Afins Bananeira-ciência. Como artista visual e sonoro, montou a individual Objetos suspeitos (Belo Horizonte, Mariana e Rio de Janeiro, 1999). É curador do Festival Internacional de Arte Negra de Belo Horizonte/FAN e da Zona de Invenção Poesia & (ZIP), e editor da revista RODA – Arte e cultura do Atlântico Negro. Foi professor da FUMEC, responsável pela disciplina Design e Som. Desde 2007 concentra suas atividades de criação e pesquisa no LIRA (Laboratório Interartes Ricardo Aleixo).

Fábrica de Signos

[N.E.: A entrevista que acompanha as obras foi realizada por email, entre janeiro e abril de 2011, por Reuben da Cunha Rocha. As peças visuais foram escolhidas do livro Modelos vivos (2010). O GIF animado da peça "11 passos para Merce Cunningham" foi realizado por Luiza De Carli. As peças sonoras foram gentilmente cedidas por Ricardo Aleixo para esta edição. Os vídeos foram compilados de diversos canais da rede, que podem ser identificados ao serem abertos no link original.]

Quais atividades lhe ocupam hoje, a você, que atravessa tantas?

Sou um preguiçoso atípico, porque trabalho muito. Todos os dias, o dia todo. É que no fundo não sinto como trabalho o que faço, tamanho é o prazer que sinto ao fazer minhas coisas. Aos 50 anos, me ocupo, ao mesmo tempo, na organização do já feito e na potencialização das condições para fazer novas coisas. Agora que saí da faculdade em que lecionei Design Sonoro por quase cinco anos, meu tempo é totalmente voltado à rotina-sem-rotina do meu espaço de criação e pesquisa, o LIRA/Laboratório Interartes Ricardo Aleixo, que defino como meu “parque de diversões na cabeça”, citando um verso do Ferlinghetti. O LIRA é, literalmente, a minha casa. Foi aqui que dei meus primeiros passos criativos, nos anos 1970, sob os olhares e ouvidos cúmplices da minha mãe (meu pai era mais severo, mas me apoiou muito também). Mais do que um laboratório, é uma espécie de “lazeratório”, onde faço só o que quero, quando quero. Como fica bastante perto da casa onde as minhas filhas, Iná e Flora, moram com a mãe delas, é quase uma visão miniaturizada do paraíso. Isso é o que faço em geral, todos os dias. Agora, se sua pergunta se restringe a algum projeto em especial, não há nenhum que eu destaque, hoje. Da organização dos livros de ensaios ao preparo da minha primeira “poesia reunida”, da revisão das peças sonoras (algumas, do início dos anos 1990) à elaboração do tão sonhado disco de canções, o treino vocal e corporal diário, todas as atividades têm a mesma importância para mim, já que me levam a lidar com coisas novas, em campos aparentemente díspares.

Você costuma falar sobre seus processos sempre em aberto – processo criativo ou leituras, por exemplo. O caráter intermidiático de sua obra é uma tradução de seu próprio caráter, “permeável a tudo”?

Nunca pensei nesses termos, para ser bem sincero. Creio que somos, nós, os autodenominados seres humanos, permeáveis a tudo. Todas as coisas do mundo nos afetam, dizem algo a nossa sensibilidade. O mundo é relação. E há a possibilidade de escolha: deixar-se afetar é algo bem diferente da atitude que defendo, que é a de estar atento ao que nos afeta. Tem a ver com a ideia de influência, de certo modo. Você pode ser influenciado por algo ou alguém, como quem é contaminado por uma força necessariamente superior à sua, e pode, por outro lado, compor com essa força, extrair dela o entendimento de seu próprio limite e, assim, contaminá-la de alguma forma. Sou, ao mesmo tempo, afinal, o que é olhado e o que olha; o que, ao ser olhado, afeta o olhar de quem olha para o que sou, somos. Desta perspectiva, sim, posso dizer que o “caráter intermidiático” de minha obra é, mais que a tradução, uma linha análoga ao meu modo de viver, enquanto sujeito homem (pai, amante, amigo, cidadão, professor, filho, irmão, consumidor, viajante).

Real irreal

Esta disposição para fazer diversos trabalhos a partir de um só trabalho, como você já a definiu, “fazer com que os elementos que compõem [uma obra] transitem por outros códigos, traduzindo-se em novas configurações” – é um modo de testar outros sentidos possíveis aos mesmos signos?

Esse movimento representa, para mim, a busca da plena vivência da premissa peirceana segundo a qual a tradução de um signo é outro signo. Não sei se consigo dizer mais que isso. Poderia completar dizendo que só ajo dessa forma como parte do esforço de entender o artista e o homem que sou. Se tem dado certo? Acho que sim. Ao contrário de alguns artistas aos quais a mídia, a crítica e o público definem como “completos”, por lidarem com diversas linguagens, defino-me como incompleto. Posso inclusive me gabar de ser “um dos artistas mais incompletos de minha geração”. Não aspiro à condição de… ícone. Quero é circular entre as coisas.

Poemanto (por Foca Lisboa)

………

Em Modelos vivos, você diz que o poemanto é uma escrita, uma corpografia (não uma dança), bem como já falou em performance como “leitura-concerto”,  “para frisar o pertencimento do meu projeto artístico ao mundo da palavra escrita, em geral, e ao universo do livro, em particular”. Diante da profusão de linguagens com que você trabalha, soa como verdadeiro “statement”, um bater-o-pé da poesia, ou da palavra. Por que, entre tantas possibilidades, a palavra?

Porque ela é, por definição, um objeto intersemiótico. Porque sou falante de uma determinada língua em progresso, se podemos dizer assim. Porque a palavra, mesmo com todas as ambiguidades que propicia – talvez mesmo por conta dessas ambiguidades a que nos lança – me serve de base para a instauração de processos criativos que demandam um grande envolvimento do leitor/espectador. Para que este se deixe envolver pelo que faço, uso a palavra como chamariz. É muito interessante, Reuben: executo às vezes uma peça sonora a que dou o nome de leitura aleatória, ou “vocálea”, e que consiste na vocalização, à primeira vista, de palavras ou frases escolhidas ao acaso do fluir do olhar pelo espaço das páginas, enquanto as folheio. A única regra que me imponho diz respeito a tentar manter a mesma inflexão do início ao fim desse texto resultante da mescla de fragmentos díspares entre eles. Soa totalmente incoerente, mas há quem se emocione, você acredita? Creio que se mostra, nesse caso, o peso da vocalidade, pouco importando, para quem ouve, o que ouve, e sim o como ouve.

“Tudo é texto, mesmo/ que não de todo legível”?

Pelo menos para o poeta, tudo é texto, no sentido de que “esse tudo” foi tecido, de que se organiza em termos infraestruturais. Quero dizer com isso que tudo que existe no mundo, ou seja, tudo o que o poeta percebe no mundo pode ser, de algum modo, lido, traduzido, reconfigurado. A legibilidade de um signo, por seu turno, é tarefa a ser permanentemente desenvolvida, não é algo dado, inalterável e, assim, o que nos parecia ilegível num momento específico, em outra situação se enuncia para nós com suficiente clareza para que possamos criar a partir daquele ponto da leitura.

 

Em vários momentos você reafirma a “indistinção entre o sentido/ e o não-sentido” – com o poemanto (“elogio do excesso”) ou com a bela imagem (multiplicada por mil) do “objeto suspeito”, definido por esta habilidade de esquivar-se à prontidão de um sentido. Abrir-se ao indefinido é um modo de deparar-se com o desconhecido?

É um modo, eu diria, de me entregar ao inescapável de nossa humana condição, que é o encontro com o desconhecido. Se é certo que determinados trabalhos meus apontam essa “habilidade para esquivar-se da prontidão de um sentido”, como você diz de maneira tão elegante, penso que tal se dá pelo fato de que eu, como artista, sou obrigado a lidar com uma enorme inabilidade para ver e aceitar as coisas como elas se apresentam a um primeiro contato. Estranho tudo, desde menino, principalmente aquilo que vai aos poucos se tornando familiar. Estranhar o mundo e as coisas do mundo, sim, talvez conforme uma habilidade, que tento depurar por meio de um lento (e nem sempre prazeroso) processo que tem a ver com o aprendizado daquela “disciplina do ego” referida por John Cage.

Starry Night

Você é (me parece ser) um artista que, mais do que articular linguagens, articula pesquisa criativa e pensamento. Trata-se de uma ética ou de uma poética?

Permito-me generalizar: o vínculo entre ética e poética aponta mais do que uma relação de homofonia. Da mesma forma como cada poema, por ser um objeto único, irrepetível, reclama seu pertencimento ao mundo dos signos, nossa “autopoiesis” (termo caro ao biólogo-pensador Humberto Maturana) nos ressitua diante da comunidade à qual pertencemos: quanto mais “eu mesmo” me sinto, mais devo respostas ao outro, à relação com esse outro, de que não tenho como fugir. Pesquisa criativa e pensamento: correto. Afinal, Pessoa já nos ensinou o caminho: “O que em mim sente ‘stá pensando”. Para mal e para bem, tudo, no mundo, encontra-se, todo o tempo, em relação.

Einstein remix

Você também já afirmou que é a poesia que permite pensar “a diferença do que é estar no mundo e afirmar positivamente o sentido de presença no mundo”, e que ela é “o lugar onde os possíveis se articulam”. Nisto uma política?

Claro. Um poema não é senão a constituição de um outro mundo dentro do mundo em que nos empenhamos em ajustar, a cada momento, os termos da nossa presença por aqui. Trata-se de tentar compreender os limites dessa presença nossa no mundo, simples assim. Uma política, sim, na medida em que implica um posicionamento radical diante do que está dado, muitas vezes dado como algo inalterável. O poema “Voz”, do meu livro mais recente, Modelos vivos, se abre com o verso “duvidar das palavras/ mas sem prescindir delas”, que fala do impasse que se coloca para todos nós que vivemos num tempo, como o de agora, em que todo mundo se ocupa mais em emitir opiniões – só pelo direito de fazê-lo – do que em refletir sobre o peso delas em relação ao palavrório geral. O poeta não tem a menor possibilidade de se colocar alheio a uma tal questão, por razões óbvias. Se todo mundo pode falar e falar e falar, só ao poeta, contudo, é dada a possibilidade de fundar mundos ao falar – mundos estranhos, terríveis, eivados de uma violência que é fundante, que é sempre primeira.

Gostaria que você comentasse uma afirmação que costuma fazer, e de que gosto muitíssimo, sobre o papel do poeta ser o de mostrar às pessoas que a palavra, pensar e criar a partir dela, é um bem comum, e não um atributo específico do poeta – qualquer pessoa pode fazê-lo.

Sendo necessário dizer que essa “qualquer pessoa”, ao lidar criativamente com as palavras, deixará de ser uma pessoa qualquer, se bem me faço entender. Não que o poeta seja alguém especial, não penso assim. Mas a poesia é, disso estou certo, algo muito especial, uma das instâncias mais elevadas da experiência humana. Deixar-se tocar por ela já é, de algum modo, ser poeta, despertar o poeta que nos habita. E que pode vir a se manifestar do modo mais imprevisto, nas situações mais corriqueiras.

………..

O papel do poeta contemporâneo ainda é o de embaralhar as cartas?

Sempre será assim, não importa em qual “contemporaneidade” nos encontremos. Por mais que pensemos na poesia e no poeta como imagens, quando muito, arquetípicas, índices de um mundo para sempre morto, o poeta – ligado, nas culturas do Atlântico Negro, à figura de Exu, o dono da fala – é aquele que detém a última palavra, a primeira.

Voz

Referências

Canal de Ricardo Aleixo no Youtube

Canal no Vimeo

Canal no Myspace

Leia um ensaio do poeta Ricardo Domeneck sobre Ricardo Aleixo, na revista Modo de Usar & Co.

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