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Signos a partir da vida de organismos, espécies, linguagens e mídias

Resumo/Abstract

Imagem: Luiza De Carli

Winfried Nöth

Resumo

Considerando os avanços da biossemiótica na investigação da natureza semiótica da vida, o trabalho procura avançar em outra direção desse mesmo campo, a saber, fundamentar a observação de eventos semióticos, e consequentemente fundamentar a semiótica geral, em intuições biológicas. Com isso em vista, o trabalho analisa fenômenos de simbiose, mimetismo, camuflagem e aposematismo na vida das mídias, em especial nas práticas da publicidade. Por fim, argumenta em favor de uma semiótica parasitológica, a partir das evidências de semioses parasíticas na vida cotidiana e nas mídias.

Palavras-chave: biossemiótica; vida dos signos; semiose parasítica

Abstract

Considering the advances of biosemiotics in its inquiry of the semiotic nature of life, the present paper focuses at advancing in another direction of the same field of research, which is grounding the observation of semiotic events, and therefore grounding general semiotics, in biological insights. With that in mind, the paper analyzes events of symbiosis, mimicry, camouflage, and aposematism in the life of the media, specifically in advertizing practices. Finally, it argues in favor of a parasitological semiotics, given the evidences of parasitic semiosis in everyday life and in the media.

Keywords: biosemiotics; life of signs; parasitic semiosis

Paper

1. Biossemiótica e a vida dos signos

A biossemiótica tem feito grandes avanços em sua investigação da natureza semiótica da vida. De fato, determinar os “princípios básicos de um estudo semiótico da vida” e oferecer evidências de como “processos sígnicos per se e os processos da vida” estão “íntima e inseparavelmente relacionados” (Kull et al. 2009: 168) estão entre os principais objetivos de seu programa de pesquisa.

A pesquisa biossemiótica não busca apenas contribuir com intuições semióticas para o domínio da biologia. Suas descobertas também são levadas a afetar a semiótica geral, evidenciando que “os fundamentos da semiótica geral necessitam das ferramentas biossemióticas”, conforme o manifesto de Kull et al. (2009: 170) o aponta. Parece, no entanto, que a meta de fundamentar a semiótica geral em intuições biossemióticas não tem sido perseguida com o mesmo afinco que a de fundamentar o estudo da vida em premissas semióticas. Até agora, descobertas da biologia, da biossemiótica e da zoossemiótica têm sido utilizadas sobretudo para revelar origens, precursores ou “prefigurações” (Sebeok 1979) da comunicação e da cultura humanas (cf. Koch 1986). Menos considerada, ou mesmo ignorada, é a fundamentação dos signos na vida no sentido mais radical proposto por Charles S. Peirce, em sua tese de que o signo, em particular o símbolo, e não apenas o usuário de signos, “é uma coisa viva em sentido estrito e não como mera figura de linguagem” (CP 2.222; 1901). As razões pelas quais isso ocorre exigiriam uma análise mais cuidadosa do que é possível apresentar aqui (ver a respeito Nöth 2009, 2012). Autorreprodução e autorreplicação não caracterizam apenas organismos e moléculas de ácido nucleico (cf. Kull 2000), mas também símbolos, que são tipos replicando em suas instanciações. Além disso, o que os signos têm em comum com outras espécies vivas é o seu “poder ativo de estabelecer conexões entre objetos distintos, especialmente entre objetos em Universos distintos” (CP 6.455; 1908). Em nome da brevidade, somente algumas características biológicas comuns aos signos e aos seres vivos serão consideradas na discussão que segue.

2. Simbiose e parasitismo

Simbiose, como primeiro definida por Anton de Bary (1878: 121), em Kassel, é a “vida em comum de organismos de espécies distintas”. Originalmente formulado para incluir o parasitismo entre suas principais formas, o termo também é aplicado em um sentido mais estrito, pelo qual simbiose e mutualismo descrevem formas compartilhadas de vida benéficas para ambos os organismos associados, ao passo que, no parasitismo, eles vivem uma relação hospedeiro-hóspede da qual somente o último se beneficia, e o hospedeiro sofre dano. Da perspectiva de uma parasitologia semiótica, entretanto, a distinção entre hospedeiro e hóspede é apenas aparentemente fundamental, pois, como nos diz Michel Serres (1982: 8), “a relação parasítica é intersubjetiva. É a forma atomizada das nossas relações”.

Sebeok (2001: 24) diz que a simbiose é a “chave para a semiose no microcosmo”. Mas todo símbolo não vive em simbiose? As palavras não vivem em simbiose quando combinam-se em frases e textos? Como simbiontes que dependem de outras espécies para sobreviver, os símbolos vivem como agentes conectando-se a objetos de um outro tipo, a saber, com os objetos que representam e os interpretantes que geram. Outro aspecto de seu caráter simbiótico foi apresentado por Ferdinand de Saussure (1986 [1916]) em sua teoria do valor, que pode ser interpretada como teoria semiótica da simbiose: signos verbais são simbiontes, uma vez que derivam seu valor exclusivamente de outros signos, e nenhum signo tem qualquer valor em si mesmo. Além disso, na morfologia das línguas flexivas, afixos (prefixos e sufixos) têm uma vida vicária. Como parasitas que só conseguem viver anexados a seus hospedeiros, eles necessitam de troncos (ou raízes) para viver e sobreviver na linguagem e no discurso. Em todas as línguas, palavras agem como simbiontes buscando seus nichos ecológicos em padrões estruturais específicos das sentenças de que são constituintes.

O que é verdade para morfemas e palavras não é menos válido para textos. A maneira como vivem às custas de outros textos foi estudada pela teoria da intertextualidade, segundo a qual nenhum texto tem vida em si mesmo. Na verdade, não há textos, somente intertextos que, como parasitas drenando hospedeiros, nutrem-se de outros textos, já que intertextos, como simbiontes, são feitos de “citações, referências, ecos, linguagens culturais (qual linguagem não o é?) precedentes ou contemporâneas, que lhes atravessam completamente em ampla estereofonia”, como Roland Barthes (1977: 160) o coloca.

Adotar a premissa de Peirce, de que símbolos vivem e “que não apenas pode haver um símbolo vivo, tornando real a ideia completa do símbolo, mas que de fato um” (CP 2.114; 1902; grifo meu), e argumentar que vivem em simbiose, pressupõe que eles possuem uma forma de atuação que lhes é própria. Seria isto verdade em um sentido mais do que metafórico? Céticos objetarão que um símbolo é uma mera marca no papel ou flatus vocis, mera ferramenta, externa ao seu usuário, este que seria o único agente semiótico real. Mas dizer isto seria confundir a instanciação de um símbolo com o próprio símbolo (enquanto tipo).

Reproduções de símbolos nas formas acústica ou escrita são a rigor coisas mortas (fenômeno de secundidade), mas símbolos enquanto terceiridade genuína se perpetuam como serem autorreplicantes. Uma das ações do símbolo é criar réplicas de si mesmo, suas corporificações (CP 4.447; 1903). É verdade que símbolos não podem se replicar sozinhos. Como um parasita que se reproduz apenas no organismo de outra espécie, um símbolo precisa de um utilizador para se replicar. Certamente nós, usuários do símbolo, somos seres semióticos vivos, também, mas não somos os criadores dos símbolos que usamos. Não detemos os direitos autorais de nossas próprias palavras, uma vez que não as inventamos. No mesmo sentido podemos dizer, em complemento a Peirce e Serres, que nós somos os parasitas dos símbolos que utilizamos e dos quais nos nutrimos – bem ao contrário daqueles que sustentam o oposto, que o símbolo (respectivamente à linguagem) é o parasita (por ex., Salverda 1998; Kortlandt 2002).

3. Simbiose, mimetismo, camuflagem e aposematismo nas mídias

Mimetismo, camuflagem e aposematismo estão teleossemioticamente (cf. Nöth 2009: 22–25) relacionados a simbiose, à medida que seus modos de adaptação resultam da luta evolutiva por sobrevivência, mas enquanto essa última é uma característica universal da vida dos símbolos, aqueles caracterizam somente algumas espécies. O foco deve se restringir a um único tipo de texto, no caso a publicidade.

A publicidade é por natureza simbiótica e parasita (cf. Nöth 2010). Como simbiontes, os anúncios elevam os lucros das companhias que lhes financiam e que, em troca, lhes garantem a sobrevivência. Como parasitas, eles vivem em simbiose intertextual com textos culturais de todo tipo, filmes populares e as imagens de seus protagonistas, arte, mitos, literatura, música, programas de TV, tendências da moda e estilos de vida etc. Os anúncios precisam alimentar-se desse tipo de pré-texto para sobreviver nas mídias, já que sua principal mensagem – que não passa de Compre! ou Consuma! – é muito magra para o apetite dos espectadores.

Ao mesmo tempo, os anúncios também vivem como predadores na luta pela sobrevivência através da atenção dos consumidores de mídias. A priori, suas chances de sobrevivência são ruins, pois o gênero sofre do defeito hereditário de que sua principal mensagem depõe contra a sua permanência. Os anúncios são os parasitas das mídias. Ninguém quer prestar atenção neles, mas todos são obrigados a isso. Em revistas de notícia, eles ocupam as páginas pelas quais ninguém teria pago se lhes tivesse sido apresentada a conta. Na programação televisiva, eles são o ruído que perturba a informação contida nos programas que os espectadores querem ver, e do qual tentam escapar mudando de canal. Na forma de outdoors, eles invadem o espaço público que não lhes pertence. No marketing da internet, plug-ins virais, links vendidos ou “patrocinados” invadem os computadores das pessoas para disseminar indesejados apelos comerciais sob a máscara de mensagens variadas. Com prerrogativas tão desfavoráveis, os anúncios tendem a se refugiar nas estratégias de sobrevivência conhecidas em evolução biológica como camuflagem, mimetismo e aposematismo.

Camuflagem é a estratégia icônica pela qual uma espécie é assimilada ao ambiente imediato a fim de se tornar menos visível aos seus predadores. Os anúncios se camuflam no contexto de outros meios com o propósito de receber a atenção naturalmente maior que estes possuem. Por exemplo, anúncios beneficentes ou de patrocínio à arte, que fingem uma aura de simpatia, dissimulam que no fim das contas visam promover os produtos feitos pela empresa. No marketing televisivo, os anúncios camuflam sua finalidade em aparições de marca ou colocação de produtos dentro dos programas, como acessórios de celebridades e outras formas de “marketing embutido”. Na internet, os anúncios se tornaram um quase-vírus do meio.

Mimetismo é a estratégia icônica de uma espécie tornar-se parecida com outra espécie naturalmente evitada por seus predadores (cf. Maran 2007). Enquanto a camuflagem permite aos anúncios que se escondam dentro de outros textos e ocultem sua real identidade, o mimetismo os torna tão semelhantes aos textos com os quais vivem em simbiose que eles são tomados por esses textos, ao menos em parte. Assim, os anúncios se transformam em pin-ups, desenhos animados, jogos de vídeo ou monopólio (este a propaganda do empreendimento capitalista), em obras de arte, narrativas jornalísticas, recomendações ou relatórios de especialistas médicos e tecnólogos. No pior caso, o mimetismo é fraudulento, propaganda sub-reptícia ilegal, farsa jornalística, avaliação e indicação forjada de produtos, falsos testemunhos de consumidores, “inserção especial” em jornais ou noutras formas de uma zona jornalística cinzenta a que falta uma distinção suficientemente clara entre publicidade e conteúdo editorial.

Aposematismo (cf. Komárek 2003) é uma estratégia indicial que visa efeitos opostos aos de mimetismo e camuflagem. Ao invés de se esconder, a espécie torna-se tão conspícua que é confundida pelos predadores como sendo perigosa. Os anúncios adotam essa estratégia sempre que seu ruído visual ou acústico fica insuportável, como na gritaria do comércio das ruas, nos outdoors de tamanho exagerado, nos neons ofuscantes de Madison Square.

Não surpreende que a publicidade parasítica tenha virado ela própria um hospedeiro para parasitas midiáticos, como adbusting, culture jamming, e guerrilha semiótica (ver Wikipedia, por exemplo). Direcionados a uma crítica radical do consumismo, esses parasitas midiáticos atacam os outdoors das cidades, utilizando-os como superfícies na escrita de seus protestos contra o consumismo. Quando declara que os seus grafites são obras de arte urbana, a guerrilha semiótica opera um duplo parasitismo. Primeiro, ela se nutre do prestígio da arte, do qual extrai sua legitimidade. Segundo, ela se alimenta dos anúncios de que necessita como suporte para pintar o seu grafite. Contudo, ela o faz sem exterminar seu hospedeiro. Pelo contrário, o outdoor hospedeiro lucra com o seu parasita belicoso, que deste modo acaba se mostrando um simbionte. Pois o outdoor, elevado a arte urbana, pode estar certo de receber maior atenção dos consumidores de mídias do que sem o grafite vicário.

4. Argumento por uma semiótica parasitológica

O campo de investigação da semiose parasítica só poderia ser fragmentariamente apresentado neste paper. São incontáveis as extensões inexploradas desse imenso campo de pesquisa. Por um lado, a biossemiótica tem muito mais a contribuir para o estudo das formas parasíticas de semiose na vida de organismos do que caberia mostrar aqui. Por outro, a semiótica cultural tem oferecido mais e mais evidências de semioses parasíticas na vida cotidiana e nas mídias. Entre as extensões relativamente novas desse campo estão sem dúvida os tópicos de virologia computacional (Rötzer 1999), plágio e pirataria na internet. Entretanto, há evidência de semiose parasítica nas raízes profundas da cultura e da comunicação humanas. Não é só a presença generalizada da prevaricação no comportamento animal, bem como no humano, que demonstra que as mentiras são os parasitas da verdade. Jogo, imitação, mimese, ficção, metáfora, e muitas outras formas de representação icônica atestam a ubiquidade do parasitismo na cultura.

Traduzido por Reuben da Cunha Rocha

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