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Tecidos gráficos da cultura e a expansão dos sistemas de escritas

 

Resumo/Abstract

 

 

Folha de S. Paulo, 5 de junho de 2009

 

Irene Machado

Resumo

Ensaio argumentativo sobre a concepção de escrita fora da perspectiva etnocêntrica que considera o sistema verbal alfabético ocidental como pólo da formulação conceitual e teórica. A hipótese fundamental em estudo encaminha a abordagem sistêmica a partir da qual a escrita é sistema ambiental de constituição semiótico-cognitiva fundado em possibilidades combinatórias e interpretativas de leitura. Examina-se, então, a perspectiva semiocêntrica fundada pela temporalidade da cultura e não apenas pela dominante espacial.

Palavras-chave: escrita, alfabeto, leitura, diagrama, ambiente, interpretação

Abstract

This essay is concerned on the conception of writing out the ethnocentric perspective, which considers the Western verbal alphabetic system the centre of the theoretical conception. The main hypothesis leads to the systemic approach in which writing is a semiotic-cognitive domain, emerging from combinatory possibilities of reading and interpreting. In this semiocentric perspective, the temporal dimension of culture overlaps the spacial conception in writing.

Keywords: writing, alphabet, reading, diagram, medium, interpretation

Ensaio

*Trabalho apresentado no GT Comunicação e Cultura durante a realização do 19º Encontro Anual da COMPÓS, Rio de Janeiro, PUC, junho de 2010.

Introdução: Escrita e partitura de leitura

Quando o assunto é «escrita», nada mais produtivo em termos de conhecimento da própria dinâmica da cultura do que desconfiar do consenso conceitual. O que se manifesta em comum acordo é a noção de escrita como resultado da triangulação entre alfabeto, palavra, logos, a partir da qual a escrita moldou um perfil civilizacional em que o domínio da linguagem verbal define a própria condição da cultura. Com a invenção do alfabeto, a escrita passa a significar «evolução» das tradições orais. Por conseguinte, pessoas ou populações que não dominam a escrita alfabética tornam-se iletradas e, portanto, incultas. Sistemas pictográficos de representação passam a ser exemplares históricos de um estágio pré-civilizacional.

Nada do que foi dito acima merece contestação, exceto o vínculo estreito que une a escrita à palavra, conferindo à semiose verbal o modo privilegiado de representação e de conhecimento do mundo. Será este modo logocêntrico a única possibilidade que os seres viventes conseguiram criar para manifestar suas relações com o ambiente e seu entorno?

Inútil desconsiderar o poder do logocentrismo e do modelo civilizacional dele derivado. Nada obsta, porém, que se desloque o foco de visão para alcançar relações culturais que, embora não desfrutem do poder do logos, configuram linhas de força suficientemente capazes de projetar modelos de conhecimentos de mundo de outra ordem. Em vez de logocentrismo, propõe-se alcançar a ordem semiocêntrica que revela a escrita como modelo de conhecimento do mundo não limitado a um sistema de signos. Não se trata de negar o alfabeto, mas sim de explorar sua potência cognitiva, isto é, a leitura dos mais variados modelos de representação do mundo não limitados às formas alfabéticas. O objetivo é alcançar os sistemas de escritas do mundo na variedade semiótica de suas conjunções em que escrita a condição gráfica não é condição «em si» mas partitura de leitura.

Revendo a dominante etnocêntrica no conceito de escrita alfabética

A concepção tão marcadamente ocidental e logocêntrica não atribui a sistemas notacionais de manifestação do conhecimento a condição de escrita. Não é de se estranhar que o próprio conceito de linguagem resulte comprometido, impedindo reconhecimento da manifestação da linguagem em esferas culturais, tais como a arte, a ciência, o cotidiano e as manifestações culturais que não se servem do alfabeto. Em todos esses casos, domina o emprego metafórico e dependente da complementação do sistema verbal. Nenhum sistema de signos desfruta de tanto prestígio quanto a escrita verbal.  Pelo menos sob o ângulo de visão logocêntrico e etnocêntrico dominante no ocidente desde a invenção do alfabeto. Se este ponto de vista eurocêntrico estiver certo, temos de reconhecer a validade de, pelo menos, duas premissas lógicas:

(A) a inexistência de sistemas de escrita fora do alfabeto; (B) o ponto de vista etnocêntrico como o único ângulo de visão possível.

Desconhecemos os argumentos que garantem a irrefutabilidade de tais premissas. Logo, nada impede a formulação de alternativas. Ainda que não se pretenda abalar a pertinência de tais premissas, espera-se situar o potencial argumentativo de hipóteses contrárias tais como:

(1) a escrita não é um suporte instrumental, mas um ato de pensamento e, enquanto tal, um ato cognitivo que se manifesta como inteligência em diferentes suportes e esferas culturais; (2) o mapa do mundo não é o território europeu e, portanto, acolhe regiões do planeta que estão para além deste limite, deixando à mostra não apenas diferentes espacialidades, como também regiões ancestrais da grande temporalidade cultural.

Examinar estas hipóteses implica o exercício de uma revisão crítica de premissas que, embora tenham se consagrado, a ponto de se tornarem estruturais da cultura ocidental bem como de suas formas de saber, não são passíveis de demonstração. Não existem provas de que povos ágrafos e, portanto, iletrados, não desenvolveram sistemas semióticos escritos; vale dizer, formas de expressão e leitura. Tampouco se pode sustentar que o ponto de vista eurocêntrico seja a única alternativa possível. Oriente e ocidente esbanjam configurações semióticas com diferentes graus de complexidade.  Logo, o tão aclamado pressuposto que define por escrita o sistema gráfico-sonoro que o signo verbal alfabético desenvolveu para a expressão do pensamento – pressuposto este marcadamente etnocêntrico – não passa de uma hipótese, ainda que na cultura ocidental da tradição europeia tenha valor de teoria. Para esta hipótese é possível apresentar contra-argumentos que abrem espaço para pontos de vista provenientes de outras tradições culturais. É o que esperamos examinar e desenvolver na sequência.

O questionamento sobre o conceito de escrita alfabética não destitui o alfabeto como a grande invenção introduzida pela civilização ocidental. É bom que se esclareça que nosso questionamento é sobre a exclusividade predicativa do alfabeto na definição da escrita. Entendemos, pois, que o alfabeto é uma das qualidades deste ato cognitivo que, durante a evolução, se consolidou na distinção do Homo sapiens. Não sendo a única qualidade, entendemos que a escrita se manifesta na cultura humana como representação semiótica de diferentes sistemas gráficos, cada um com diferentes graus de complexidade.

O objeto de estudo em foco são, portanto, os sistemas de escrita formados graficamente por diferentes sistemas de signos. «Gráfico» diz respeito tanto ao ato cognitivo quanto à condição semiótica qualificadora do sistema de escrita. Do ponto de vista semiótico, onde esta formulação é elaborada, «gráfico» é função do diagrama ontológico do pensamento que se orienta pelos processos perceptivos, relacionais e de raciocínios. Com isso se quer afirmar que o objeto de estudo tem por ontologia um sistema de pensamento diagramático que se encarrega de firmar, não a dominante de uma composição visual, mas a multiplicidade de configurações icônicas tão variadas quanto as transformações do próprio conhecimento.

Como tudo na cultura, a escrita não está isenta da semiose da ação cognitiva que tem na transformação a condição para a permanência e manutenção do sistema. Tanto assim é que a qualidade se modifica, enquanto o ato cognitivo permanece. Somente nesse sentido podemos falar em manuscrita, escrita alfabética, pictográfica, visual, musical, topográfica, eletrônico-digital; escrita matemática, escrita do código genético; escrita das imagens; escrita gestual, escrita da natureza. Esta não é uma sequência progressiva nem uma cronologia, mas apenas algumas formações combinatórias que os sistemas de signos operam na semiose da própria evolução.

O caráter ambiental do sistema de escrita

O exame de nossa hipótese começa pela focalização da variante «tempo» na variante «espaço». É na dimensão das diferentes temporalidades da cultura que podemos situar sistemas de escrita que, embora não tenham se constituído a partir do alfabeto, exploram e desenvolvem processos gráficos reveladores de atos cognitivos complexos. Tanto inscrições rupestres, quanto movimentos interiores e exteriores do corpo natural ou humano, como realizações de dispositivos tecnológicos, são potencialmente geradores de sistema de escrita. Segundo o fundamento teórico de nossa hipótese, é na dinâmica de grandes temporalidades que podemos encontrar a manifestação da escrita como diagrama ontológico de ideias sobre o mundo. É o que se pode depreender da análise de alguns sistemas em situação de pesquisa, caso da escrita ambiental das inscrições rupestres.

As inscrições rupestres, que são igualmente semiotização de gestos naturais de seres vivos, sejam animais, populações orientais, indígenas, africanas, constituem um legado capaz de desfazer equívocos e desvendar redes de possibilidades. Porque constroem sistemas de escrita por meio de signos notacionais, estão muito mais próximas da criação científica e artística do que da mera comunicação instrumental. Representam, pois, modelos cognitivos de relações ou interações ambientais fora das quais não podem ser dimensionados como sistemas significantes. Chamaremos tais representações de sistemas de «escrita ambiental».

O caráter ambiental de sistemas de escrita se manifesta pelo contato entre seres e contexto vivencial. Trata-se de formas que conferem visibilidade (e não apenas visualidade) ao que o contato com o mundo faz emergir e configurar como diagrama gráfico. O sistema de escrita ambiental é, sobretudo, sensorial; articula, pois, signos de diferentes percepções.

O Painel com filas de figuras humanas em deslocamento, descoberto no Sítio do Meio, Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí, Brasil, manifesta o conteúdo que articula os termos da definição de escrita ambiental.

 

 

 

Fonte: Antes. História da Pré-História, p. 141.

 

O fato de nada poder ser afirmado com relação aos signos formadores deste sistema gráfico (tampouco é possível compará-lo às letras e fonemas do alfabeto verbal) não nos autoriza a negar o sistema de escrita que a inscrição rupestre representa. Segundo a hipótese que nos orienta, ainda que carente de signos discretos, a inscrição significa porque se serve de signos contínuos. Temos, então, formulado um argumento de fundo para a compreensão de nossa hipótese. Os sistemas semióticos se organizam segundo as classes de signos que nossa percepção é capaz de apreender. Com isso, o potencial significante dos signos discretos não é superior àquele de que se servem os signos contínuos.

Signos discretos são decomponíveis em unidades, como letras, números, notação musical, elementos químicos. Signos contínuos, diferentemente, são totalizantes, indecomponíveis em unidades menores, exigindo a percepção do conjunto (tal como as imagens visuais da pintura, da fotografia, da radiografia procuram demonstrar). Enquanto o poeta ou o músico dividem as unidades do poema ou da peça para examinar o pulsar rítmico do arranjo, o pintor, o fotógrafo ou o radiologista precisam recorrer a escalas para ampliar ou diminuir as imagens visuais se quiserem encontrar significações. Os signos contínuos exigem formas de leitura igualmente associativa e relacional. Por isso, os riscos da inscrição rupestre sugerem movimento, ainda que este não seja visualizado.

Associação e relação tornam-se propriedades fundamentais da escrita ambiental e, consequentemente, da leitura. Não se trata de ler apenas o gráfico da inscrição, mas da leitura que vai se realizando associativa e relacionalmente ao longo do tempo. Não é leitura imediata, mas leitura mediada. Tal é o raciocínio que tornou possível, recentemente, ler em rabiscos singelos, como os que se seguem, representações significativas que ampliam nossa percepção sobre a representação do movimento.

 

 

Fonte: Folha de S. Paulo, 5 de junho de 2009, p. A16.

 

A ação de copular representada na inscrição está relacionada com ações que configuram um diagrama de movimento no pensamento. Acredita-se, pois, que a escrita é o gesto que nasce nesse diagrama relacional. Logo, o gráfico que configura ações numa cena de luta constitui o sistema de escrita ambiental do movimento. Não se trata de um registro possibilitado pelos signos discretos, mas sim pelas relações espácio-temporais de signos contínuos.

 

 

Fonte: Folha de S. Paulo, 5 de junho de 2009, p. A16.

 

A escrita do sistema ambiental integra a continuidade no espaço-tempo da cultura. Esta dimensão distingue os signos discretos dos signos contínuos. Não se trata apenas de impossibilidade de decompor no espaço; existe uma articulação temporal fluida que também não coagula.

Assim podemos entender, igualmente, o trabalho de arqueologia dos sistemas de escrita de culturas ameríndias e asiáticas. Ainda que as formas sejam consideradas isoladamente, elas não perdem sua expressão contínua, como se pode perceber no quadro comparativo de pictogramas derivados de pinturas indígenas recolhidas em lendas e mitos dos povos amazônicos.

 

 

 

 

Fonte: Legendes, croyances et talismans dês indiens de L´Amazone, Ed. P.L. Duchartre, ilustrações de Vicente Rego Monteiro, 1923.

Ainda que citadas esquematicamente, as escritas ambientais de mitos estão relacionadas com transformações da natureza, tais como a chamada escrita das pedras (CAILLOIS, 1970), ou da luz, de ondas, de partículas, de raios. Ora, a dinâmica dessas relações não está apartada das escritas da luz e das ondas desenvolvidas, por exemplo, nos ambientes tecnológicos. Quer dizer: aquilo que conhecemos como escrita tecnológica produzida pelos meios eletrônicos de comunicação não é propriedade da tecnologia em si. Trata-se de um processo de transformações que envolvem contextos culturais e dinâmicas naturais que entram na constituição dos sistemas que vamos chamar de multicódigos, dos quais o próprio sistema alfabético é uma variante. Enquanto variante, não apenas sofre transformações como entra para a modelização de sistemas de outras bases.

Seguindo as premissas de nossa linha de raciocínio, o suposto contraponto ambiental/tecnológico pode ser reposicionado. Em vez de oposição, surge a transmutação que nos ajuda a acrescentar, ao lado da vertente logocêntrica, a orientação semiocêntrica (ESTÉ, 1997) em que os diferentes sistemas de escrita compõem a cultura em sua variedade de ecossistemas comunicacionais – signos por excelência do estado da cultura fundada pelas formas de interação social. Ainda que em certos aspectos as sociedades letradas tenham se guiado pela ênfase no desenvolvimento tecnológico desvinculado de sua vinculação ambiental, o fato é que as interações sociais nunca deixaram de ser ambientais. Reposicionar as linhas de força dessas formas de interação é aquilo que tem ocupado as aspirações cognitivas do pensamento ecológico que tem na comunicação uma forte raiz ontológica.

Modelizações dos sistemas de escrita

Na ordem semiocêntrica, escrita é um sistema combinatório resultante de modelizações operacionais de sistemas em desenvolvimento na cultura. Quer dizer, em seus ambientes sociais relacionais. Por este viés, é possível reposicionar algumas formações que se constituem fora do rigor do logocentrismo que consagrou a vertente conceitual sobre a escrita alfabética.

Ainda que, por natureza, o alfabeto tenha se constituído a partir de signos discretos, no ambiente da semiose gráfica, a escrita alfabética não é apenas letra. Para E. Havelock, o grande empreendimento da escrita alfabética é a possibilidade de leitura. É para a leitura que se constitui um sistema notacional de natureza contínua, isto é, que só gera sentido no ambiente combinatório das relações gráficas e cognitivas.

A escrita caligráfica levou às últimas consequências esta possibilidade, a ponto de criar modelos contínuos a partir dos signos discretos. Quer dizer, a unidade que preside a produção do sistema discreto não se mantém na leitura deste mesmo sistema. Aquilo que se escreve a partir do sistema com signos discretos é lido e compreendido como signos contínuos.

As reproduções que se seguem ilustram o que se quer dizer.

 

 

Signos discretos e signos contínuos

 

A escrita alfabética se desenvolveu em ambientes gráficos modelizantes, isto é, criadores de modelos cognitivos que apontam para além do registro de suas unidades. Se o manuscrito criou iluminuras ou iluminogravuras, no caso dos folhetos de cordelistas brasileiros, a prensa, a tipografia e os meios eletrônicos de comunicação diversificaram os sistemas de escrita, mostrando que a variação ambiental nasce de dinâmicas culturais que não estão prescritas no sistema, mas são frutos de processos modelizantes que não podem ficar alheios às próprias conceptualizações.

Seguindo as formulações que Marshall McLuhan desenvolve ao observar as transformações que a prensa mecânica de Johannes Gutenberg introduz no contexto das culturais orais, é possível recuperar a dinâmica ambiental pelo redimensionamento sensorial-cognitivo. Ainda que a invenção do alfabeto tenha aprimorado a expansão de uma cultura visual altamente especializada, o que, num certo sentido, contribuiu para o arrefecimento da sensorialidade tátil-auditiva, McLuhan não isola a tipografia no mecanicismo da prensa. Pelo contrário: no ambiente de leitura é a página que ela produz o núcleo sensorial que redimensiona relações.

Tal como a página manuscrita das iluminuras, a tipografia da página do jornal foi capaz de estimular ambiências sensoriais não apenas visuais. Para McLuhan, a página de jornal desenvolveu um sistema de escrita em mosaico não fechado na página. Em sua leitura, a página de jornal tanto vislumbra um quadro de uma composição cubista quanto o improviso de uma canção de jazz, basta pensar no diagrama que os olhos desenham pela leitura associativa e não linear. Chamou esta composição de «mosaico» e atribuiu a ela a capacidade de criar, no espaço público, um discurso conversacional que busca o contato numa vida cotidiana orientada por descontinuidades. Para ele “a notícia em mosaico não é narrativa, ponto de vista, explicação ou comentário. É uma imagem corporativa em profundidade da sociedade em ação e convida à máxima participação no processo social” (McLUHAN, 1971: 255). O jornal impresso nos oferece, assim, não um texto a partir da codificação gráfica dos tipos móveis: existe toda uma diagramação que torna o mosaico um formato da escrita tipográfica. É a partir do formato que os textos jornalísticos são modelizados como linguagem.

A escrita tipográfica concebida como formato, antes mesmo de transmitir informação, se encarrega de modelizar um sistema semiótico a partir do qual a informação se oferece como texto. Como todo formato, o mosaico manifesta uma lógica interna em sua construção: o sistema de escrita, ainda que se sirva dos códigos alfabéticos, ao compor a página nos limites da diagramação torna-se um modelo baseado em signo contínuo. Nesse sentido, no contexto da página diagramada do jornal, a escrita alfabética é uma modelização, isto é, um sistema de escrita cuja codificação alfabética configura-se como sistema visual de signos contínuos. Graças à operação de design o sistema modelizante cria um formato para atender às necessidades expressivas do meio de comunicação.

Com isso, podemos dizer que os meios de comunicação realizam intervenções nos sistemas de escrita de que se valem de modo que, para transmitir mensagem, não basta codificar a informação: é preciso modelizá-la em formatos específicos ao meio. Assim a escrita passa a experimentar os diferentes formatos: com o cinema aprende a escrever em planos e cria a linguagem da montagem audiovisual; com a televisão aprende a escrever com linhas desenhadas pelo feixe multiplicador de elétrons; com a informática aprende a escrever com números, isto é, com bits. Isto apenas para citar o que estamos entendendo por experimentação de formatos para a produção de escritas tecnológicas.

Considerando as diferentes modelizações em jogo numa cultura de meios é possível afirmar sem margem de dúvida que a escrita tecnológica experimenta hoje um processo de síntese desenhado pelo que temos denominado signo informático (CONTRERAS, 1998). O processo de síntese entendido aqui como propriedade não da tecnologia, mas dos processos ambientais de transformação de quantidades em qualidades distintivas.

Signo informático gerou o sistema de escrita em que o sistema digital numérico, portanto de signos discretos, gera sistemas de natureza diversificada. Nesse caso, torna-se designação genérica das modelizações tecnológicas em que o código numérico apresenta, em diferentes níveis, as operações de sua hierarquia complexa, a começar pelos programas no nível do hardware e do software.  Por hierarquia complexa entende-se o processo de síntese em que signos discretos de diferentes naturezas entram em reação para produzir signos discretos ou contínuos radicalmente diversificados. A ação que se inicia com a operação de letras do teclado sofre transmutação ao entrar no circuito numérico de programas desenhados em níveis diferentes de funcionamento do hardware e do software.

No contexto informático, a informação não é somente codificada: é modelizada por um processo de análise e processamento de dados que pressupõe a síntese ou compactação num modelo cognitivo. Os dados cumprem a tarefa de desenhar a informação nova, funcionando, para isso, como se fossem parte de um cérebro dotado de memória e de inteligência. Com isso, é preciso distinguir «informática» de «informação», como nos alerta Contreras (1998): informação lida com dados e com eles se confunde.  Informática é a ciência resultante da composição de saberes que, além da matemática e engenharia, inclui pesquisas no campo da psicologia, inteligência artificial e ciências cognitivas. A finalidade da informática é a construção de modelos para o tratamento da informação e, consequentemente, para a formulação de processos significativos. Design é palavra-chave na informática porque cada modelo é desenhado com vistas a produções significantes e distintas. Aquele que senta diante do teclado sabe que pode produzir signos diversificados: a criança não alfabetizada pode desenhar, ouvir música, assistir filmes e programas, simplesmente navegar. Ninguém pode dizer que ela não está escrevendo. Se os sistemas de escrita alfabética se desenvolvem pela compreensão de complexos de relações da transmissão de informação, os sistemas de escrita da comunicação sintética seguem em outra direção, visto que operam com a informação modelizada pelo design informático. No contexto deste sistema, escrita é design e este é um processo que demanda uma outra alfabetização semiótica que inclui o alfabeto, mas não se limita a ele.

Considerações finais

A revolução do alfabeto não se limitou, portanto, ao contexto renascentista. É no interior da cultura letrada, literária, que a escrita se expande. Mais uma vez é preciso chamar a atenção para o foco de nossa inquietação: a expansão tecnológica da escrita não significa o fim da escrita mas a complexificação da semiose entre os sistemas envolvidos. Na verdade, trata-se de acompanhar uma expansão. Os sistemas de escrita da pedra, das inscrições rupestres, dos manuscritos alfabéticos, dos meios do sistema eletrônico ou digital são, igualmente, tecnológicos. A distinção entre as variantes dos sistemas de escrita (ambiental ou tecnológica) é apenas de grau de modelização. Sem sombra de dúvidas: um sistema que envolve traços de signos contínuos exprime uma diferença de grau em relação a um sistema da escrita alfabética, dos ideogramas e pictogramas. O mesmo é possível dizer da fotografia se comparada à radiografia, à ultrassonografia ou aos infográficos que se desenvolveram em diferentes sistemas de escrita científica. A expansão dos sistemas de escrita é uma questão de grau e de capacidade de síntese. A síntese é, sem dúvida, uma característica marcante da escrita tecnológica.

Os signos expressos em letras ou números não são signos discretos, mas processos de sínteses relacionais. Com isso se quer dizer o seguinte: uma escrita tecnológica expande os limites de suas possibilidades expressivas ao operar a modelização de diferentes sistemas de signos sem anular nenhum deles, pelo contrário, operando sínteses combinatórias entre eles. Implica, pois, não apenas a codificação da informação, mas a recodificação, ou a transmutação de sistemas. Com isso, a escrita tecnológica expande-se graças à compactação de códigos e de sistemas de escrita já desenvolvidos.

É hora de retornar ao ponto que nos lançou nesta hipótese que tenta compreender a expansão dos sistemas de escritas a partir do tecido gráfico da cultura. Trata-se de uma abordagem deslocada da perspectiva etnocêntrica para olhar livremente o diálogo dos signos da cultura em seu desenvolvimento como processo de conhecimento do mundo. Buscamos valorizar as experiências que não privilegiam um sistema em detrimento de outros e, com isso, mostrar a exuberância das produções cada vez mais complexificadas pelo desafio de estabelecer contato entre diferentes sistemas. Assim abre-se a possibilidade de compreensão da própria expansão explosiva dos sistemas de escrita que a cultura já desenvolveu não num território mas em sua grande temporalidade.

Aqueles sistemas que hoje reconhecemos de modo tão simplista nos processos de transmissão de informação por meios eletrônicos, digitais, informáticos e nas redes de telecomunicação revelam um caráter que não se limita à tradição da escrita alfabética ocidental. Apesar da grande revolução do alfabeto, a codificação tecnológica a partir da eletricidade se utiliza de instrumento de bases semióticas bastante diversificadas. A tão decantada cultura visual não se limita à imagem, mas opera com signos táteis, espaciais e sobretudo cinéticos. Tudo isso interfere na configuração dos sistemas de escrita que estão na formação do homem pós-tipográfico e pós-cultura letrada, o que exige da educação esforços maiores e diversificados em promover uma alfabetização semiótica fundada no complexo intercâmbio de sistemas semióticos. É neste movimento que o saber se coloca para além das disciplinas isoladas e exige que a metodologia disciplinar torne-se igualmente exercitada a partir de um ponto de vista sistêmico.

É preciso trazer a dinâmica cultural para a leitura, análise, exercício do conhecimento. Por isso a investigação dos sistemas de escritas torna-se um exercício fértil, sobretudo ao tocar na ferida do etnocentrismo que, além de privilegiar um sistema, impede verificar os movimentos de expansão como processos cognitivos. Para fazer valer um sistema, é preciso eliminar o poder de significação do outro. E aí chegamos ao ponto central da visão etnocêntrica: o poder.  Sei que este não é o foco da minha discussão, mas é preciso colocá-lo para que possamos situar o contexto de nosso questionamento.

A abordagem semiótica da cultura busca compreender a semiosfera, não a logosfera. Interessa compreender as interações sistêmicas e, portanto, ecológicas, que não eliminam os confrontos e a luta. Pelo contrário, a dinâmica de todo sistema vivo é a luta pela preservação, pela manutenção. A luta e o conflito são exercícios que fazem parte da vida, não estão fora dela. São manifestações complexas e não se restringem à economia – ainda que economia e ecologia tenham a mesma matriz etimológica e conceitual: ambas se voltam para a manutenção da vida no lar Terra. Contudo, não existe luta sem diversidade, daí a importância de entender as formas explosivas e inovadoras em contexto de diálogo, de leitura e interpretação estimuladora de vínculos e relações.

Bibliografia

BONALUME NETO, Ricardo (2009). Guerras modelaram altruísmo humano. Folha de S. Paulo, 8 de junho de 2009, p. A16.

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CONTRERAS, Fernando R.. El signo informatico. El cibermundo. Dialéctica del discurso Informático. Sevilha: Alfar, 1998.

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DUCHARTRE, P.L. (Ed.). Legendes, croyances et talismans dês indiens de L´Amazone (ilustrações de Vicente Rego Monteiro, 1923) (trad. Regina S. Campos). São Paulo: Imprensa Oficial do Estado; Edusp, 2005.

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HAVELOCK, Eric. A revolução da escrita na Grécia e suas conseqüências culturais (trad. Ordep José Serra). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

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